Natureza Viva
Já experimentaram fazer de suas vidas uma obra-de-arte? Então vamos lá, não importa o estilo. Misture bem as cores, use com bastante feeling o jogo de luz e de sombras. Sombras são necessárias para que luzes existam. Agora a textura, tem que ter textura. Vá lançando suas histórias sobre a tela, todo o sentimento, todas as dores, a psiquê, as esperanças (a esp'rança é um dever do sentimento - F.P.), o bem, o mal. Borrões vermelhos, azuis, amarelos, iridescentes e indecentes, conforme sua temperatura de cor. Não importa se está ficando muito abstrato, o sentir tem muitas partes abstratas, indefiníveis mesmo. Mas, sobre a tela, o abstrato vai poder, ao menos, gritar que é abstrato. Algumas histórias têm formas definidas, são figurativas. Outras são impressionistas e, as mais intensas, expressionistas - precisam deformar a realidade. Os traços surreais ficam sempre bem, trazem a estética da loucura libertadora, aquela que não adoece. Ah! A profundidade ! A profundidade já vem carregada de arte, de existência catártica. Imprescindível ter profundidade, pela idéia de dimensão. Quando pintamos a felicidade, na maioria das vezes a obra vai assumir o tom ingênuo, naïf, em composição harmônica. O desespero já vem com tons mais berrantes, pois grita muito em suas cores. Há mil formas de retratar a vida, monocrômicas, policrômicas. E também há (por que não?) apenas uma tela em branco, esperando por suas tintas. E isso não é menos arte, desde que exista uma tela (a vida), suas tintas (o sentir) e, acima de todas as coisas, a vontade criadora. A vida precisa valer a pena. Pegue sua paleta, misture as cores e comece, tantas vezes quanto necessário, a recriar suas histórias, dando-lhes forma, cores, marcando a vida com a sua própria impressão.
Esta metáfora foi criada para explicar a mim mesma, e a quem mais couber, a importância da auto-representação criativa em um mundo globalizado, que se torna cada vez mais decadente, sem cor, sem grandes histórias e sem consistência.
Amores de Conveniência
Ela não queria. Ele se chegou. Ela se esquivou. Ele perguntou. Ela não disse não. Nem sim. Ele foi ficando. Ela foi deixando. Ele queria. Ela não queria. Mas também tanto fazia. Ela estava longe. Ele estava ao lado. Ele estava amando. Ela acostumando. Ele
contemplava admirado. Ela não se admirava. Ele se inquietava. Ela acomodava. O coração dele batia forte. Ela nao ouvia. Coração ensurdecera. Todo o resto era confortável. Confortável...nada mais a temer. Nada mais a tomar. Nada mais a tremer. E a vida assumiu ares tão normais quanto o oxigênio. Ela até parecia feliz. Ficava mais atraente nesse modelito. Um dia, talvez, quem sabe, o coração volta a ouvir. Enquanto isso ele bebe caipivodka e ela licor de *mente*.
Quem quiser nascer tem que destruir um mundo... Resta-me nascer... Por que o processo de demolição de um mundo é tão rápido em relação à sua concepção, criação e instauração? Por que quebrar é sempre mais facil do que reconstruir? Desfaz-se em dias, horas, minutos até, o que se elaborou durante anos. Sopra agora um vento que assola todo o meu reino, minha Antártida, Pompéia. Tudo me escapa das mãos, e quanto mais tento deter meu mundo, meus laços, meu chão, mais eles se transformam em areia, fragmentando-se na mesma medida em que tento detê-los. Quem quiser nascer tem que destruir um mundo... Não há mais escolha: tenho que nascer. E enquanto isso não acontece, assisto à devastação de minhas terras, tentando salvar o único grão de areia que preciso para construir o novo mundo: minha própria essência. Agarro-me combalida a um tronco remanescente enquanto o vendaval lança tudo pelos ares. O tronco é o princípio do ser. E vai impedir que esta última semente feneça em meio ao caos. A ave voa para Deus... E esse deus se chama Abraxas... E o novo mundo há de ser bom... Aguentar o tranco !
Shakespeare pra Bruninha
Como explicar um dos mais lindos sonetos de Shakespeare pra Bruninha, minha aborrecente preferida?
Soneto CXVI
Ao casamento de almas verdadeiras
Não haja oposição. Não é amor
O que muda à mudança mais ligeira
Ou desertando, cede ao desertor.
Oh, não, que amor é marca muito firme
E nem a tempestade o desbarata;
É estrela para a [Nau], que o rumo afirme
Valor ignoto - mas na altura exata.
Não é do Tempo mera extravagância,
Amor, embora a foice roube o riso
À face e ao lábio rosa; na constância,
Resiste até o Dia do Juízo.
Se há erro nisto e assim me for provado,
Nunca escrevi, ninguém terá amado.
Adaptado pra Bruninha
Fala sério, quando a parada é p'ra valer
Não tem pisada de bola. O lance é furado
Quando neguinho dá mole,
Ou vazando, baixa a crista pro pela saco.
Nem vem, que love é uma viagem sinistra,
E nenhum vacão pode melar;
É botar na fita e aloprar
Não cai a ficha, mas é um lance animal.
Num é mero vacilo do tempo,
Love, mermo que pinte a maior deprê,
E se amarre um bode, segura na boa,
Até o dia do teco final.
Se há vacilo nisso e pintar sujeira
Na moral, nunca escrevi
E a geral nunca terá ficado,
Demorô!
As Duas formas de amar
"Na languidez amorosa, algo se vai, sem fim; é como se o desejo não fosse outra coisa senão essa hemorragia. Eis o cansaço amoroso: uma fonte que não é saciada, um amor escancarado. Ou ainda: todo meu Eu é puxado, transferido para o objeto amado que toma o lugar dele: a languidez seria essa passagem extenuante da libido narcísica à libido objetal. (Desejo do ser ausente e desejo do ser presente: a languidez suprime os dois desejos, ela coloca a ausência na presença. Surge daí um estado de contradição: é a 'queimadura suave'.)" - Roland Barthes, in Fragmentos do Discurso Amoroso
Vou falar de amor (ó, pretensão!). Esse temazinho tão pouco explorado, não é mesmo? ;) Não sei por que vou falar de amor, com tantos assuntos fervilhantes pós-modernos. Mas vou falar. Talvez até para aproveitar o árido intervalo em que não ando flexionando o verbo amar (no sentido de enamoramento). Amando, não poderia falar de amor.
A segunda forma de amor é mais humilde, mais distraída, mais natural. Chega devagar, sem que se perceba. Chega ao longo do tempo, às vezes de muito tempo. É pavimentada através do conhecimento mútuo, sem pressa, sem a intenção sequer de ser amor. Não conheceu hipérboles ou lirismos megalômanos, não conheceu posses. Criou-se natural, na sucessão de pequenos prazeres e risos, no histórico de dores confidenciadas, de trocas de existir. Veio do encontro livre de almas afins. Não berrou, não gritou, nada cobrou, nada quis prá si. A presença, ou memória de presença, era sempre suave e passeava em liberdade. As ausências eram bem suportadas, como se houvesse no ar a certeza de novos reencontros. Esse amor não se trancou, egoísta, num universo único. Multiplicou-se em si e transbordou ao mundo. Percebeu, subitamente, que o tempo fortalecera os laços, de forma tal que as ventanias não haveriam de devastá-lo facilmente.
Refletia sobre duas formas de amar. A primeira, que chega abruptamente como uma labareda, ardendo, rompendo, rasgando, devastando os sentidos. Condicionado à tirania das emoções de alta voltagem, esse tipo de amor sempre se acredita ser a mais absoluta e hiperbólica das experiências, e tende a aprisionar o outro em um único universo de dois incandescentes habitantes, que se consomem solitários dentro de seu círculo fechado, pois que nada mais existe. Prazeres e dores são sentidos visceralmente na mesma intensidade. O tempo, para essas erupções delirantes, é sempre muito curto, e acaba criando, no seu decorrer, amantes extenuados. As chamas costumam ser rapida e dolorosamente apagadas e tudo se transforma em cinzas.São duas formas de amor. E "qualquer maneira de amor vale a pena".
Não Freud e nem sai de cima
Primeiro as perguntas:
1) Quem precisa de psicanálise? 2) A psicanálise resolve? 3) Até que ponto a análise leva o sujeito ao individualismo exacerbado? 4) Qual o principal benefício de uma terapia? 5) Você acredita?
As respostas, segundo minha experiência em divãs, ao longo de muitos anos. Mais rodada em mão de analista do que piranha da Av. Atlantica nas mãos de gringo:
1) Precisa de psicanálise, ou de terapia, ou de algum apoio em benefício do Eu profundo, aquele que se encontra angustiado, com dificuldade de libertação do verbo, com identidade perdida, fragmentada, levando a consequências desconfortáveis diversas, sobretudo a de baixa auto-estima. Na verdade, quem deveria estar deitado num divã de analista era o Mundo. Se alguém se diz muito normal e de acordo com um mundo visivelmente doente, provavelmente esse alguém está muito mais doente do que se possa imaginar. O problema está menos no problema do que na maneira como convivemos com ele. E se estamos convivendo mal, precisamos de ajuda, sim.
2) A psicanálise não resolveu meus problemas. Mas... ajudou muito no meu modo de resolvê-los. Não há como negar que em termos de autoconhecimento ela lança um refletor sobre os nossos subterrâneos e um espelho diante de nossa face.
3) O individualismo exacerbado... Isso sim. Percebi em mim e percebi em várias pessoas que começaram a fazer terapia. Centram-se demasiadamente em seu próprio Ego. Passam a individualizar tudo com discursos bem construídos, politicamente corretos. Bah... essa história do politicamente correto às vezes cansa, não? Na minha opinião, a psicanálise oferece o risco de deixar o ser humano menos humano e mais solitário, porém mais resolvido. Os psicanalistas que me perdoem, mas essa parte da minha experiência não há como negar. A um primeiro momento, fiquei exageradamente voltada para os meus botões, dando uma banana para o resto da humanidade. Depois de um certo tempo, questionando muito, atingi um equilíbrio nesse sentido. Porque já estava desconfiando daquele discursinho do tipo: primeiro eu, segundo eu, terceiro eu, etc... Isso martelava um bocado no começo. E logo adiante, fui ver que tinha muito de blefe nessa forjada idolatria ao Ego. O "primeiro eu", para quem está amadurecido emocionalmente, é também considerar o outro e querer dividir com ele. Claro, sem prejuízo de si próprio.
4) O principal benefício da terapia, eu creio, é o autoconhecimento e a clareza na formulacao das idéias, que leva a um maior bem-estar interior e a uma melhor interação com o mundo exterior. Promove, se o paciente ajudar, a devida consciência do que somos e dispara um alerta para não nos perdermos do nosso próprio princípio de ser. A auto-representação é fundamental. Estamos no mundo para isto, não é? E aí a terapia ajuda muito. Se se puder alcançar isto sem ela, ótimo. Do contrário, vale a experiência.
5) Acredito em partes dela. Não serve p'ra tudo. É um quebra-galho eventual. O amor é muito mais eficiente. Houvesse mais amor entre os homens sobre a face da Terra e os psicanalistas estariam falidos. De certa forma, um divã é o lugar, muito caro, diga-se de passagem, para solitários e inconpreendidos.
Importante registrar aqui que não faço mais terapia no momento. A esta altura ela se tornou, para mim, um não Freud e nem sai de cima. Não há mais muitos progressos a fazer e há que se preservar alguma loucura, talvez a melhor parte de nós mesmos.Calem a boca, falsos amantes!
Calem a boca, falsos amantes! Há muito barulho em torno do nada. Eternas promessas, incandescentes palavras, irretocáveis ficções. Tenho observado vocês, falsos amantes, que parecem gostar mais da história do que do amor. Ambiciosas palavras, dores induzidas, ímpetos irrefreáveis. Dramas. Tramas. Ruídos. Não me venham com argumentos hiperbólicos do tipo "tenho o amor maior do mundo".
Recolham-se à sua insignificância de meros pares que nada pretendem além da auto-descoberta. Calem a boca, falsos amantes.
Pois que a mais bela das palavras, ou a mais trágica dramaturgia, não se compara à grandeza de uma atitude.Qualquer atitude, qualquer agir. Gritem seu amor fazendo! Abandonem o esconderijo das palavras, dos enredos, dos jogos, das canções, ilusões, contradições. E eu não mais lhes chamarei "falsos amantes". Nem muito menos pedirei que calem a boca, sempre cheia de histórias que não querem acontecer para além das literaturas, do imaginário.A vida é o querer profundo, e a verdade de um querer, só e apenas ela, é que alcança o acontecer, o fazer, o fazer acontecer. Enquanto isso, calem a boca, calem a boca... Vocês fazem muito barulho com o vento etéreo.
Mulheres de Rubens e a liberdade dos lipídios
Vejam as mulheres de Rubens. A perfeição de suas imperfeições. Há menos vaporosidade nelas pelas celulites abusivas, pelas barriguinhas proeminentes? São menos mulheres por não terem corpos esculpidos em academias? Falta-lhes poesia, harmonia, por causa dos lipídios em liberdade? Um homem moderno, como meu amigo Cesar, escravo irrecuperável da carne, diria: são belíssimas, desde que não saiam das telas.
Tá bem, o tempo era outro, Rubens era barroco e este era o padrão estético. Um padrão sem padrões, orientado pela própria natureza, que atuava livre sobre carnes e peles. Mulheres barrocas não precisavam sentir vergonha de suas formas. Não existia então a ditatura implacável e geométrica do corpo, o apelo das academias, nem os recursos artificiais dos liftings, plásticas, lipos, silicones, essas coisas que acabam nos roubando a identidade corporal, a inscrição do tempo e da história em nossa real expressão. Ah, como eu gostaria de ser uma dessas mulheres de Rubens, despreocupadas e livres de medidas. Não tomaria uma ruga como ofensa, mas como carícia do tempo. Não amaldiçoaria as celulites nem o prenúncio de barriga que começa a ameaçar. Não brigaria com a flacidez que tira, dia a dia, a firmeza do corpo, onde ainda teimo em achar alguma poesia. Exercito-me para aceitar e até gostar de cada parte que o tempo deslocou ou deformou, orgulhar-me mesmo dessas imperfeições porque são minhas e me tornam humana.
É... todo esse discurso foi para encontrar um contexto onde eu pudesse colocar minhas celulites. Encontrei. Benditas mulheres de Rubens. A propósito, já inventaram plástica para o cérebro? Aí estaria eu exterminada, as "deusas do silicone" seriam perfeitas, seres fantásticos. Acontece que, como o cérebro é um orgão interno, cuja forma os olhos não alcançam, provavelmente as "divindades de oficina" não se esforçariam para restaurar este simples acidente anatômico; ironicamente, um dos maiores responsáveis pelo tesão. Então, minhas amigas de lipídios extras e alguns neurônios, ainda há chances.
"Não fique triste", uma banana!
- Ei, não fique triste não! Não faça drama, vai. A vida é bela!
ERRADO!
Minha experiência e um analista amigo meu dizem que esta é uma frase frequente de se falar ou ouvir, e também a mais cruel, apesar das boas intenções nela contidas.
Por que?
Porque uma tradução mais profunda disso soaria como algo mais ou menos assim:
- Não fique triste, seu problema não é importante, a tristeza incomoda, atropele seu caos existencial, vista uma expressão de gente bem sucedida, porque não posso ou não quero entender o que você está sentindo, nem muito menos sentir com você.
Pode não parecer mas, em muitas vezes, é exatamente assim que o outro recebe a mensagem. A sensação é de que nossos problemas são subestimados, que devemos manter sempre um status de vencedor estampado no rosto, que não podemos fraquejar.
Lembrei do quanto me passaram a mão na cabeça, quando criança, e disseram: "não chora não, filhinha, isso é bobagem!". Jamais souberam do quão frustrante isso me chegava. Talvez eu quisesse ser percebida, talvez eu quisesse que entrassem no meu pequeno mundo, com o meu "pequeno problema" dentro. Mas pequeno prá quem? Não importa o tamanho exato de um problema ou de uma criatura, mas as dimensões desses dissabores e as proporções em que são vividos. O que parece pequeno para uns pode fazer um tremendo estrago em outras almas.
Nada mudou muito, tudo se repete. Continuo a ouvir, sempre que tenho um problema, a mesma frase bem intencionada. Passar a mãozinha "generosa" sobre a cabeça de alguém que realmente sofre e dirigir-lhe palavras de ânimo nem sempre pode ser psicologicamente saudável.
Hoje, com essa sacação providencial, prática e teórica, ao ver alguém triste, costumo dizer:
- "Fique triste sim! Eu sei o quanto isso deve ser duro prá você. Você tem todo o direito de ficar triste e eu vou torcer para que tudo acabe bem".
É uma forma de eu estar dizendo a essa pessoa que estou com ela, que estou dando importância aos seus sentimentos, que a percebo, enfim. Provavelmente é tudo o que ela anseia ouvir, e pode ser até que venha a se sentir mais à vontade, por saber que é possível ficar triste sem incomodar terceiros, que pode processar seus grilos em paz, que pode ser ouvida.
É muito importante para o outro se fazer representar. E nem sempre essa auto-representação acontece nas formas fáceis, simples e tradicionais que a gente deseja. Nem sempre a vida acontece ao estilo easy digest.
Então: fique triste,sim! Ou: fique feliz, sim! Fique do jeito que é seu, no momento que é seu. Eu posso receber o que você quer transmitir.
Não temendo a timidez
Quanto, por vezes, não se deixa de dizer, quanto não se deixa de mostrar, quanto não se deixa de viver por conta dessa tal timidez? E, no entanto, os tímidos costumam ocultar um rico e vastíssimo universo de vivências acumuladas não confessas. Por serem tímidos, talvez sintam com mais intensidade tudo o fica guardado dentro de seus subterrâneos.
Quase todo mundo, acredito eu, tem sua fração de timidez, quando não o todo. E essa senhora acontece sob diversas formas, variando de criatura a criatura. E sabe ser enganosa. Às vezes, um indivíduo pode se sair muito bem em público, interpretar uma espécie de personagem, e, na hora de falar de si mais reservadamente, é acometido por rubores e tropeços, começa a gaguejar e não sabe onde colocar as mãos. Acho que este é mais ou menos o meu caso (e o caso de muitos). Aprendi a trabalhar a timidez no circo social, que é bem mais fácil, porquanto mais superficial. No entanto, se alguém me chama num canto para assuntos de maiores pessoalidades, ou quando tenho de expressar algum tipo de emoção direta a quem quer que seja, sai tudo errado. A ternura se transforma em piada, o sentimento em risinhos extemporâneos e desvios de olhar. Isso quando não apelo para um acervo de fúteis recursos, que vão do palavrão às citações literárias. E no final, o que tinha mesmo de ser dito volta à vertente interna onde foi gerado e possivelmente acaba se transformando em um poema perdido.
Há os tímidos de tudo, que demoram a se deixar conhecer e que, ao final de um bom pedaço de tempo, acabam por se nos revelar um feliz acontecimento. Isto é, se conseguimos criar esse tempo de conhecer o outro, hoje cada vez mais escasso. Há os tímidos situacionais, muito "safos" em alguns contextos e profundamente "bichos do mato" em outros. Enfim, timidez não é algo assim de grande desconhecimento público. Quase todos a experimentam, de uma ou outra forma. E não chega a ser uma deficiência ou limitação. Até pode vir a se tonar um limite, quando rouba de nós as grandes oportunidades, quando nos imobiliza de todo ou quando não sabemos conviver com ela. Mas se a timidez é tão somente um jeito de ser, não temos de perder muito tempo lamentando por ela ou tentando "consertá-la". Ela não é um defeito. E pode ficar tão bonita quanto uma pintura de aquarela, se bem trabalhada. Pensando bem, até os deuses devem ser um pouco tímidos, e talvez seja esta a razão de não mostrarem suas verdadeiras caras aos mortais.
Acho que todos somos um pouco tímidos diante do desconhecido. O grande desafio está em enfrentarmos esse desconhecido. Não deixar que esse "bicho papão" nos transforme em "bichos do mato".
Lemas e Dilemas
E agora? Faço o quê? Vou prá direita? Prá esquerda? Prá cima do muro? Pro meio da praça? Prá dentro da toca? Prá debaixo da mesa? Hein? Faço o quê? Não me olhem assim! Nunca tiveram dilemas? Trilemas? Multilemas? Retiraram as placas da minha highway e eu nem sequer sei se estou na contramão. Invoco Snoopy, meu guru para as horas confusas, e ele diz: - Em caso de dúvida, mantenha a pose. Tá bem, mantenho a pose. Visto o modelito "sou o must, sou fodona!" e imprimo ao rosto aquele ar de profundo desprezo pela vida mortal. E agora? Faço o que com a pose, Snoopy? Estou imobilizada nela. A pose só resolve o problema da imagem aos olhos do mundo, não resolve o meu problema. Faço o quê? Invoco Shakespeare, e ele me diz que o dilema hamletiano de "Ser OU Não Ser?" ainda é bem melhor do que o problema de "Ser E Não Ser". Fico com o dilema. Faço nada. Deixo a vida acontecer ou desacontecer. Enquanto isso, vou tomar um suco de laranja e ouvir a guitarra mágica do Pat Metheneny. Conhecem? É 'muito ótimo' !