Namorar é preciso, é fundamental, porque, se observarmos bem, a cada dia morre um amor. Não percebemos, na maioria das vezes, mas diariamente um amor morre, após uma vida inteira de rotina... Morre, lenta e vagarosamente, de forma quase indolor, por isso não nos damos conta.
Amores há que morrem em meio a bate-bocas, escândalos e vexames; outros morrem calados, em frente do televisor, nos domingos à tarde, há amores, ainda, que falecem numa cama luxuosa de motel.
Alguns amores, que pareciam saudáveis, morrem por falta do beijo antes de dormir, daquele “boa noite” especial, de um olhar de cumplicidade, um procurar das mãos no meio do filme a que se está assistindo.
Morrem amores de forma tão estúpida, de pura desnutrição, depois de beijos mecânicos (quando são dados), telefonemas cada vez mais espaçados, nenhuma carta desnecessária, dessas que se escreve correndo, porque sim, só porque se sentiu saudade.
Morre um amor, todos os dias, e isto é certo. A maioria dos amores falece com um suspiro, apenas, e ninguém se dá conta, nem mesmo quem se disse amante um dia. Às vezes, muito raramente, um ou outro amor morre como num tsunami, com direito a efeitos especiais e a sair em telejornal.
A morte de amores empobrece o mundo. Quando um único amor morre entristece, principalmente, os que são sentimentais, como nós, que relutamos em admitir essa verdade, porque nada é mais sofrido que constatar o fracasso do amor que se sonhou um dia.
Nada dói mais que saber que, uma vez mais, um amor morreu. Esta é a lição, sofrida, mas inexorável, que a vida nos ensina: os amores, se mal cuidados, morrem.
Morrem os amores, todos os dias, com o veneno da traição, a metralhadora do tédio, a espada da indiferença. Morrem porque nós acabamos com eles, ou somos mortos por quem dizia nos amar.
Há várias formas de matar o amor, ainda que ele pareça continuar vivo. Por exemplo, há amores que parecem um velório eterno: ninguém volta para sua casa, nem chega jamais à hora do enterro. São relacionamentos que não admitem que já estão putrefatos, que já se acabaram e não saíram de cena. Perduram, às vezes, por muitos anos, fazem bodas de prata e ouro, apesar do sexo (quando há) sem tesão algum, dos beijos sem sentido nem sabor, das vidas, camas ou quartos separados.
Existe outra espécie de amor: são os amores anestesiados, platônicos. Amores de quem ainda suspira, apaixonada, diante de uma foto do Roberto Carlos e nem atende aos telefonemas do Carlos Roberto, ou não esquece os olhos do ex-marido que já tem outra família, mulher e filhos. Não que não se possa amar alguém que já é passado, amar nunca fez mal. Torna-se mal, aí sim, se esse amor antigo tamponar os olhos para o amor que está passando na esquina, ou que trabalha quase ao lado. Aliás, nem sei se isso é amor, porque não sei se amor só de cabeça pode ser assim classificado.
Bom, mesmo, é o amor-fênix, e por esse vale a pena viver, vale tudo procurar por ele. Amor-fênix é aquele que renasce das cinzas a cada fim de dia. Amor-fênix é o que resiste às calcinhas penduradas no varal do banheiro, à pasta de dente destampada, às brigas bobas, à velhice da paixão com o correr dos anos.
O amor-fênix não se preocupa muito com a camisola sensual, porque toca a alma do ser amado mesmo com um pijama menos sexy e mais confortável. O amor-fênix não faz frente à novela, não tem medo da Internet, não escasseia nem economiza afeto com o correr dos anos, e perdura, belo e teimoso, até que a morte não separe os amantes, a não ser por algum intervalo dessa abstrata instância chamada tempo.
(Autora: Maria Rita Lemos)
Posted by meraluz at setembro 1, 2005 07:49 PM