dezembro 22, 2005

Ho ho ho ! Feliz Natal !

Carta que não enviei a Papai Noel:

Ho Ho Ho!!

Querido Papai Noel,

Por muitos anos o senhor, com sua cara bonachona e seu saco de brinquedos, iludiu os sonhos mais férteis da menininha crédula que fui (para minha desgraça, alguma coisa dela ainda vive em mim). Na manhã do dia de Natal, saia às ruas com a boneca ou a bicicleta pedida, da qual achava ter sido merecedora e me intrigava com o fato de, em contato com crianças de poucas posses (ou nenhuma), perceber seus modestos brinquedinhos - quando os tinham. Olhavam para os meus e os de meu irmão como se fossem produtos de um milagre fantástico. Estava eu longe de imaginar que meu presente de Natal era produto do sacrifício de meus pais, simples cidadãos de classe média, que podiam usar o 13.º salário para manter a ilusão que criaram na imaginação dos filhos. Mas mais longe estava de compreender por que aquelas outras crianças mais pobres não haviam ganho o brinquedo de seus sonhos, já que sempre ouvi dizer que o "Bom Velhinho" entrava democraticamente pelas chaminés de todos, sem distinção, até porque fazer distinção entre crianças soa como algo por demais perverso.

Pois é, Papai Noel. Vim a saber mais tarde que o senhor não foi de todo uma mentira. Tratava-se de São Nicolau, um jovem que, no século III, resolveu sair doando todos os seus bens, após a morte dos pais, e posteriormente se tornara bispo. Uma alma nobre. Mas nada a ver com Natal ou com chaminés. A partir daí, criaram uma lenda bonitinha, adaptando-a às festas natalinas. E, a partir de 1931, pra finalizar, com vistas a atender às demandas do capitalismo selvagem, cujas práticas religiosas se resumem exclusivamente ao lucro, a Coca-Cola, com a força da propaganda e do marketing ("jingle" bells, "jingle" bells), transformou o senhor num grande filho da puta, mudando suas roupas, sua imagem e suas intenções. O "American Dream", que se estendeu por todo o Ocidente, transformou o senhor no mais fiel representante das desigualdades sociais, ao longo dos outdoors - ho ho ho!

Assim, o que salta aos olhos dos que querem ver é que essa ilusão natalina de "Papai Noel" significa, ao mesmo tempo, alegria e excitação para uma minoria e frustração e dor para a grande parte de nossas crianças e suas famílias.

Pois é, Papai Noel... Acreditei no senhor, como uma menina anacrônica e patética, até meus 12 anos de idade. Briguei na rua com os amiguinhos que tentavam destruir seu mito. Tentava inutilmente convencer aqueles mais carentes que, no ano seguinte, o senhor haveria de recopensá-los em dobro, que o trenó tinha quebrado ou qualquer coisa assim, com uma certa expressão de culpa pelo privilégio obtido. Que mico me fez passar, hein Papai Noel? Mas não tem nada não. Ainda restou-me um pouquinho de credulidade, não nessa lenda safada, nem muito menos na sociedade vil, mas nos raros homens de bem que ainda existem por aí e nas transformações.

Papai Noel, sai dessa de trabalhar em nome dos interesses da Coca-Cola e de outras corporações do gênero e volte para as páginas dos livros de história, de onde nunca deveria ter saído. Eu sei que, no fundo, você é um bom velhinho.

Ah... Antes que eu me esqueça...

FELIZ NATAL!

Meraluz
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Desejo a todos um Natal de fraternidade e paz, um Natal mais humano! Mas sem pieguismos ou apelações de conveniência.

Posted by meraluz at dezembro 22, 2005 12:09 PM