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- O Eterno Retorno de Nietzsche (2003)
- Modelo de carta de algo que ficou por dizer
- Um pouco de Bukowski (le Buk)
- Sabines e Terezas
- Sem metades
- Hoje, excepcionalmente catártica
- E quando ouvir Lulu Santos... (2003)
- Um jeito chapliniano de ser
- Van Gogh (2003)
- Citações e Excitações (2003)
- Avesso semântico (2005)
- Infinito enquanto dure? Aqui, ó!!!!
- Álgebra amorosa (2004)
- A esp'rança é um dever do sentimento (2004)
- Coisa de alma (2004)
- Das coisas que aprendi (I)... (2004)
- De prazeres e sofreres (2004)
- Das cousas que aprendi (II) (2004)
- Loucos de amor (matéria VEJA 2005)
- Fazer o certo não é apenas não fazer o errado (2005)
- Devastadoras calmarias (2005)
- A dor é a saudade do riso (2005)
- Histórias sem fim
- Cuidado com o cuidado (2005)
- Errando o texto (2005)
- Inexplicando (2005)
- Maldita sensatez (2005)
- Mentiras, mentiras... (2005)
- Voz (2005)
- Para quando parecer que o mundo acabou
- Para quem está de saída... (2005)
- (in)Conformismos (2005)
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- Os Diferentes - texto de Artur da Távola (2005)
- Voyeurismo (2005)
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- Sobre a hora de partir (2009)
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- Trajetória dos erros (2009)
- Os imaturos do amor (2009)
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Poema XXVII, in Poemas do Irremediável
- Paschoal Carlos Magno

Sei que a promessa não será cumprida,
à medida que teus passos se afastam,
sei que não voltarás à minha vida...

Se tivesse coragem de gritar
"Pára", talvez ainda me ouvirias
como ouço teu começo de viagem...

Mas não: dia a dia
devo assistir
a chegada consciente da distância...
---------------------------------------

Outro poema:

Oh, yes! - Charles Bukowski

there are worse things than
being alone
but it often takes decades
to realize this
and most often
when you do
it's too late
and there's nothing worse
than
too late.


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Quelque Chose no ar, desde 2002
julho 24, 2010

A paixão segundo a voz de Nana

Mergulho no bolero que e(s)coa pela voz de Nana Caymmi. Bolero na voz de Nana implica sérios riscos de suicídio para quem está sofrendo de mal de amor. Não é o meu caso. Mas gostaria que fosse. Queria que esta canção me levasse aos estertores, me roubasse lágrimas, me devastasse. Mas não... Desprovida hoje de qualquer estado de paixão, apenas ouço uma bela canção na voz rouca de uma louca que canta o amor a partir de suas vísceras.

E ela fere o ar com sua voz de veludo:

Eu quero amar demais
Sem poupar coração
Que pra mim o amor que apraz
É uma louca paixão
Um amor só satisfaz
Além da razão.

(ouça abaixo)

E eu lamento por não estar amando. Por não sentir aquelas dores lancinantes, já conhecidas e repetidamente vividas, que maltratam mas fazem o coração pulsar, vir à boca para berrar que estamos vivos. Ah, se eu pudesse voltar a sentir essas ondas alucinógenas de paixão por alguns minutos apenas, ainda que fosse pelo tempo que durasse esta canção...

Mas eu não posso. É impossível sentir essas coisas só por um tempinho, na forma da amostra-grátis. E a longo prazo não quero mais. Lacrei-me ao acorde derradeiro da última paixão vivida. Curei-me de toda e qualquer insensatez que ela produziu. Agora estou tão leve que quase posso voar... Mas estou leve porque estou vazia. Não é bom nem ruim. É como escolhi que fosse.

Poderia me apaixonar novamente? Sim, desde que eu quisesse. Desde que eu me abrisse novamente aos riscos. Mas daria tanto trabalho, esgotaria tantas forças, dilataria tantas veias, que é melhor a serenidade de estar no mundo sem os descompassos dos exageros. Pelo menos fica a certeza de que meu coração não mais será ferido de morte. Melhor ouvir o bolero entendendo que é apenas um bolero, e logo para de tocar.


::: by meraluz at 09:06 PM


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julho 15, 2010

Orgulho rubro-negro

Artigo de Sylvio Capanema de Souza, publicado no jornal O GLOBO, nesta data.

Sempre Flamengo

Uma vez Flamengo, Flamengo até morrer!
Mais de 35 milhões de pessoas cantam com orgulho nosso hino. O Flamengo é uma nação que nasceu dentro de outra. E, como toda nação, escreve sua história com grandeza e fragilidades, tem os seus heróis e seus vilões, mártires e traidores.

O Flamengo democratiza porque não distingue classes, irmana homens e mulheres, ricos e pobres, negros e brancos, doutores e iletrados. Ele sai às ruas, não se fecha em sedes, sobe os morros, cruza fronteiras, vence o tempo e as distâncias, a todos os seus filhos aproxima, no sentimento de uma só paixão.

Em 15 de novembro de 1895, quando foi fundado o Flamengo, algo mágico ocorreu, um destes inexplicáveis momentos que constroem a eternidade, que rompem a simples cronologia do tempo, e que são a centelha de energia que faz e que escreve a história das nações.

Espraiou-se pelo país a mística rubro-negra, como uma epidemia às avessas, uma epidemia do bem, com a contaminação do orgulho de ser Flamengo.

Ser Flamengo é um determinismo biológico. Nós nascemos rubro-negros, crescemos rubro-negros e morremos rubro-negros. Ele é sonho que se sonha nas arquibancadas e nos palácios, é remanso e corredeira, realidade e utopia, o ontem e o amanhã, porque, para nós, rubro-negros, ele é tudo.

O Flamengo não se explica, nem se define. Apenas se sente, como são sentidas as paixões. Ele não se oferece a nós, nós é que nos oferecemos a ele. Não nos cobra a vida, nós é que lhe doamos o corpo e a alma.

O lamentável episódio que envolve o goleiro Bruno atinge, como não poderia deixar de ser, o Flamengo, mas deve ser compreendido em suas reais e jurídicas dimensões. Não se pode condenar o Brasil porque tivemos um Calabar, nem a Alemanha pelo que fez Hitler. Judas não tornou desprezível a raça humana.

Bruno, seja o que tenha feito, e apesar das glórias e títulos que nos ajudou a conquistar, não é o Flamengo e não age em seu nome. O Flamengo também é Zico, Junior, Zizinho, Andrade e Rondinelli. É ainda César Cielo, Patrícia Amorim (natação), Oscar Schmidt, Marcelinho (basquete), Buck (remo), Diego e Daniele Hypólito (ginástica olímpica), e tantos outros que construíram sua grandeza, conquistando títulos nacionais e internacionais.

São milhões de torcedores, que comemoram com orgulho as vitórias e sofrem estoicamente as derrotas. As inúmeras piadas, perversas e de mau gosto, que circulam pela internet, não atingem apenas o Flamengo, que está muito acima delas, mas desrespeitam muito mais a dor dos que amavam a vítima e amesquinham quem as cria ou as transmitem na censurável comemoração do macabro e da desgraça.

O Flamengo sofre e sangra com a vítima, não brinca com o crime, não absolve os culpados, mas não pode ser com eles condenado. Bruno, ou quem quer que seja, jamais conseguirá matar o Flamengo!

(Sylvio Capanema é presidente do Conselho Deliberativo do Flamengo)


::: by meraluz at 12:33 PM


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junho 16, 2010

Pausa

Cansei, enjoei, esgotei-me e esvaziei-me de assuntos. Assim, ficarei um tempinho sem postar. Aos eventuais visitantes, que já não são os 200 (em média) por dia, como nos anos anteriores, recomendo que se divirtam com o material relacionado na coluna à esquerda ("Vale a pena ler de novo"). Tem assunto para todos os gostos ali.

Até breve!


::: by meraluz at 05:38 PM


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junho 12, 2010

Eternos namorados

Na primeira vez que se encontraram, ele trazia a tiracolo uma garrafa de Moet & Chandon e duas taças. Brindaram ao encontro, brindaram ao amor. Iniciava-se ali um namoro imortal. Foram dias, anos, de intensa magia e prazer. A vida se fez encantada só para abrigar este encontro. Sabiam que sua história não teria um final óbvio, do tipo "casaram-se e foram felizes para sempre". Tivessem os dois se casado e em poucos anos a imortalidade teria se quebrado. Era um namoro assim, de brincar com a vida, de percepções viscerais, de êxtases e reinvenções.

manutençãoCostumavam ser zelosos com a "manutenção". Tanto, que um dia ele enviou a ela de presente um macacão de operário com a palavra "manutenção" bordada no bolso. E ela o vestiu, para que ele a despisse. Manutenção, no amor, é coisa séria, exige a exacerbação de todos os sentidos. Sabiam disto e ultrapassaram todas as medidas do verbo 'perceber'. Exauriram-se disso. Uma das mais belas imagens que ilustram este fato e que ficou gravada em suas memórias é a seguinte: os dois contemplando profundamente a poesia de um simples maracujá com cereja a enfeitar a mesa do café. Ficaram horas nesse ritual, como se percebessem cada ínfimo detalhe da vida, antes inexplorado, na presença do outro. Era assim. A vida com cara de namoro eterno. Juraram, certa vez, sob o céu imoralmente estrelado de um jardim distante, que se amariam para sempre. E prometeram voltar ao mesmo jardim dez anos depois, para renovar a promessa. Depois disso não juraram mais nada, porque era melhor viver do que jurar. E viveram tudo, permaneceram juntos em corpo até onde foi possível escapar das mãos ásperas da realidade e de tudo aquilo que não se parecia com o sonho que, ao custo de algumas loucuras, conseguiram legitimar. O pacto era de imortalidade. E a vida real era uma grande ameaça ao "para sempre". Foram sábios quando perceberam a hora exata do adeus físico. Doeu apenas a dor do desencaixe dos corpos. Mas era uma das raras situações onde o fim se transformava no princípio de algo que seguiria para além do que o amor é capaz. Tal certeza amenizava a dor do inevitável desvio, neste mundo cheio de chão e de relógios que não eram capazes de marcar o tempo deles. Não voltaram ao jardim estrelado, dez anos depois, conforme prometido. Não precisava. Já estavam muito além do jardim e das estrelas. Haviam conseguido seu intento: imortalizar a mais bonita história de amor, onde um eterno namorado e uma eterna namorada são dela protagonistas até hoje, ao seu modo próprio e distante das erosões mundanas, que desgastam paulatinamente os grandes sentimentos. A história deles era imensa, um encontro grande demais para caber num único planeta, repleto de desacertos. Hoje, na relativa e mutuamente consentida distância, eles sabem que o elo que os uniu se fez "para sempre".


::: by meraluz at 06:26 PM


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junho 2, 2010

Inversões

Simplesmente genial.

controlpê - claro curtas from cesar netto on Vimeo.


::: by meraluz at 08:41 PM


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junho 1, 2010

Sem palavras. Zico é tudo!

zico.jpg

Entrevista coletiva:


::: by meraluz at 12:20 PM


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maio 7, 2010

Trilhos & Letras

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Infelizmente, não pude comparecer ao lançamento desta belíssima Antologia, da qual tenho muito orgulho de participar. Mas chegaram-me hoje, pelo correio, o Certificado de Participação e um exemplar. Fiquei emocionada. É uma obra belíssima, que reúne esplendorosos trabalhos, em prosa, verso e música, de vários autores, muitos deles consagrados. Sem apelação nenhuma, digo que vale a pena ter esse livro em sua estante.

Trilhos & Letras ainda não está à venda nas livrarias, mas pode ser encomendado nos seguintes lugares:

EDITORA PANDION (sem custo de frete):

Eliana Queiroz - elianaqueiroz@editorapandion.com.br ou
editorapandion@editorapandion.com.br

tel.: (48) 9982-9061


PONTO DE CULTURA DA ESTACAO BARAO DE MAUÁ RJ:

SESEF / Ponto de Cultura Barão de Mauá
Estação Barão de Mauá / Leopoldina
Av. Francisco Bicalho, s/ nº - 4º andar
Funcionário: SYRIO
Tel. (21) 3232-9515 (08 às 16 horas)
Fax: (21) 3232-9509
E.mail: schwnico@bol.com.br

Cada exemplar custa R$ 25,00. A renda apurada será revertida em benefício do Movimento de Preservação Ferroviária, que faz um belo trabalho na luta pela preservação de nossa malha ferroviária e da memória do trem no Brasil. Viva o trem!



::: by meraluz at 07:13 PM


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abril 28, 2010

Qual é mesmo a maior torcida, Datafolha?


36milhoes.jpg


::: by meraluz at 12:16 PM


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abril 10, 2010

Convite - Lançamento "Trilhos & Letras"

Mas eu estou ficando muito chique, não? ;) Participo desta coletânea com meu poema "Trilhos de Luz". Agradeço ao meu grande amigo Victor Ferreira pela oportunidade. Vejam quanta gente boa nessa Antologia! Em breve nas livrarias.

lancamento.jpg


::: by meraluz at 06:43 PM


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fevereiro 17, 2010

Desperdício

Por que levamos anos para conhecer uma pessoa e, quando achamos que finalmente já a conhecemos, vem um vento, um fato, um dado novo, e nos mostra que o que conhecemos não passou de uma farsa mal-acabada? Isso,sim, é o que eu chamo de desperdício de tempo e de boas intenções...


::: by meraluz at 10:32 AM


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fevereiro 13, 2010

Tempo, tempo, tempo, tempo...



::: by meraluz at 01:32 AM


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fevereiro 11, 2010

A música de Bruno Lara

Bruno Lara - Leo's Fish

Não sou de fazer publicidade, nem dos mais diletos amigos. Quando faço é porque se trata de algo que me tocou para além do muito.

Bruno Lara é um amiguinho muito querido. Mais do que isso, é um talento especial, de inteligência emocional acima da média, e com uma vocação musical espantosa. Quanto mais conheço o seu trabalho, mais me encanto. Bruno é um ser especial, de sensibilidade aguçada, feito de música por natureza. Costumo dizer que ele é um ser anormal, no melhor dos sentidos. Seus solos são simplesmente transcedentais, pelo menos para mim. E ele diz que está só começando... Imagino como deverá ser o meio do caminho.

Acho que já tenho razões suficientes já para divulgar seu trabalho, não só aqui mas onde e com quem eu puder. Bruno me emociona.

Para quem curte boa música instrumental e ficou interessado em conhecer melhor os trabalhos e os CDs deste talentosíssimo 'guitar player', aqui vai:

Bruno Lara Solo (My Space): www.myspace.com/brunolarasolo

Bruno Lara Erudito (My Space): www.myspace.com/brunolaraerudito

Comunidade Orkut: Músicas do Bruno Lara

Blog: http://oqueeissobrunolara.blogspot.com/

Twitter: http://twitter.com/brunolarario

(Tem no FaceBook também, mas eu não uso o Facebook, por implicância pessoal.)


::: by meraluz at 01:55 PM


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fevereiro 10, 2010

'Lixeiratura'

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Por que as histórias terminam? Para que outras se iniciem. E tudo é história, até a ausência de histórias. Algumas são marcantes, outras marcadas. Algumas são banais, outras legais. Algumas são extensas, outras intensas. Algumas são inesquecíveis, outras impossíveis. Algumas são doidas, outras são doídas. Tudo é história. Que importa se a próxima será melhor ou pior? Grandiosa ou medíocre? Que importa o final? Importa é ir virando as páginas e se fazer contar, ainda que transformemos a vida numa grande "lixeiratura".








::: by meraluz at 01:05 AM


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fevereiro 7, 2010

A dor de não despencar

E então, quando menos se espera, a gente leva um golpe. Até aí nada de inusitado. Golpes acontecem a todo instante, a diferença está em como cada um lida com eles. Aí eu pergunto: de quem é a dor maior? Daquele que se descabela, que se desorienta, que se fragiliza, que veste o papel de vítima, que inspira culpa, cuidados ou piedade? Ou daquele que segura a onda, daquele que, como uma árvore, morre de pé, que reza sua dor em silêncio, que briga com todas as tensões e encara o rosto feio das mágoas para, num esforço sobre-humano, tentar seguir em frente sem fazer alardes, sem insistências vãs, sem se tornar um peso pra quem quer que seja? Fica no ar a questão. O sibilante choro dos 'ingênuos' ou a discreta contenção dos 'fortes'? Seria o frágil tão frágil e o forte tão forte? Muitas vezes, é justamente o inverso, e é preciso relativizar.

Já estive nos dois lados. No começo dessa longa estrada, fiz barulho, gritei, chorei e apelei, inconformada. E, enquanto duelava comigo e com o mundo, achando que não suportaria os golpes e as perdas, a dor ia se dissipando, sem que eu percebesse, até sumir por completo. Dentro de algum tempo, já nem me lembraria mais das tão dramáticas contusões. Era muito fácil passar para uma próxima etapa, até por causa das hemorragias. Ainda havia uma sucessão de golpes pela frente. Mas, ao longo dessa corrente de desassossegos, passei a achar feio as reações intempestivas, primárias e estridentes. Ainda que eu conseguisse lucrar algo com elas, nada acontecia pelo que eu era, pelo fluxo natural da vida, mas pela pressão, pelo pieguismo, pelo cansaço, e muitas vezes pelo desconforto que eu, intencionalmente, causava no outro.

Então passei para o outro lado, 'precisei ser forte'. Não desmontar, não despencar, não desarrumar os cabelos, não borrar a maquiagem, não me esquecer das outras peças da engrenagem, por mais lacerante que fosse uma situação. Não que os 'fracos' confessos sejam seres desprezíveis, mas é que a vida não os perdoa, e, no fundo, nem eles mesmos. Fraquezas todos temos, ou não seríamos humanos. Mas a vida não gosta da sua cara (da fraqueza), tampouco a respeita. E aos que não querem pagar o preço de expor suas fraquezas não resta outra escolha senão se armar de uma pseudofortaleza. E aí, além de sofrerem as dores lancinantes de golpes, perdas ou danos, ainda carregam o peso dessa consciência. E como dói não poder despencar! Como dói ter de prosseguir nas frias trilhas dessa relativa e aparente lucidez. Como dói não berrar a nossa dor, neutralizar nossos espasmos, sofrer para dentro.

As pessoas olharão para esses 'frágeis às avessas' e dirão: "Eles sabem se virar, são bem resolvidos!". E muito pouco lhes darão, por acharem que não é necessário. Mais ocupadas com os carentes de plantão que as sugam, são incapazes de imaginar como é pungente, naqueles 'que sabem se virar', a dor de não despencar. Estão longe de perceber que, para que isso acontecesse, foi preciso que esses patéticos 'equilibristas', que trazem na alma um quê quase chapliniano, fizessem morrer dentro deles um pedaço da própria vida. Um pedaço que morreu de pé, sem despencar.


::: by meraluz at 12:00 AM


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fevereiro 3, 2010

A história de Maria Vitória

(Assim como na poesia, há tempos eu não faço um conto, uma ficção. Estou mesmo querendo variar de estilo. Se eu conseguir fazer uns três seguidos, talvez eu venha a produzir algo de bom futuramente. Por enquanto, fica este ensaio mesmo. )

A HISTÓRIA DE MARIA VITÓRIA

Agora que passara dos 30, Maria Vitória cismou de querer casar. Queria ter filhos, constituir família, de preferência com um parceiro que fosse homem de bem e lhe pudesse oferecer padrão de vida estável. Queria se casar. Já estava cansada de aventuras, de amores efêmeros, de viver o imprevisível. Com o tempo, sua meta transformou-se em obsessão. Procurava marido em qualquer canto; nas ruas, nas festas, em velórios e casórios. Nas noitadas não, porque homens disponíveis em casas noturnas eram... noturnos. Ou seja, não passavam mesmo de uma noite; uma noite lasciva - regada a champagne ou cerveja, dependendo do nível. Voltou-se ela, portanto, para este fim: casar e levar uma vida certinha. Frequentava cursos e inventava atividades em cujo ambiente pudesse estar aquele que viria a realizar o seu sonho maior. Queria tudo nos moldes tradicionais: casar na igreja, vestida de branco, jogar o buquê, posar para fotos cruzando tacinhas de cristal... Enfim, tudo a que tinha direito.

Porém, apesar de envidar todos os seus esforços nessa busca alucinada, o noivo nunca aparecia. O tempo passava e o máximo que conseguia era uma série de promessas baratas, com posterior saída à francesa. Quando o sujeito desconfiava da real intenção de Maria Vitória, dava logo um jeito de inventar viagens, problemas, doenças ou qualquer outro tipo de pretexto para pular fora do barco que o levaria à 'forca'. Mas Maria Vitória não desistia, queria porque queria casar. Àquela altura já era uma questão de honra. Não iria morrer solteirona. Começou a ficar deprimida, recolhida. Esquivou-se dos amigos, deixou de lado tudo o que a fazia sorrir ou deleitar-se, de alguma forma. Desorientada, entrou para a Igreja Universal do Reino de Deus. Lá certamente haveria de encontrar um marido. E finalmente, em nome de Jesus, encontrou. Aleluia, irmãos! Ezequiel era seu nome, um pequeno comerciante, de pouca cultura, mas trabalhador, honesto e... fanático. (clique aqui para continuar a história de Maria Vitória)


::: by meraluz at 02:08 AM


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janeiro 28, 2010

Pra descontrair :)

Frase do dia:



::: by meraluz at 06:10 PM


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janeiro 27, 2010

Não ficar no problema, porém sem dele fugir.

Optar por não ficar no problema não significa fugir dele. Fugir do problema é quando se desconversa, quando não se enfrenta as verdades, quando não se olha de frente para os fatos, quando se mascara uma realidade. É fácil fugir. E é o que a maioria faz para evitar desconfortos imediatos. Há sempre uma porta que foi esquecida aberta ou passagens subterrâneas que levam à ilusão de um outro lugar.

Já escolher não ficar no problema exige muito mais de nossas forças e de nossa compreensão. Neste caso, a gente enxerga tudo, constata o obstáculo e sai sem fugir, espreitado pelo olhar vigilante da consciência. Sai porque entende que permanecer no que foi percebido como problema é o caminho mais fácil para se perder e se ralar. A fuga, mais cedo ou mais tarde, será sempre surpreendida pela própria vida que vem nos cobrar. Mas a opção consciente de não ficar é quase um ato de heroísmo, é uma escolha dolorosa para evitar dores maiores.

Um problema é sempre um problema, uma vez diagnosticado. Penso que insistir nele é uma teimosia improfícua. E a melhor solução é tentar eliminá-lo, se o impasse não se resolve e torna a se repetir e repetir. Mas sem fugir... Assumindo todos os ônus e riscos, sentindo as dores de todas as lesões que essa escolha ocasiona.

Mas, afinal, o que é um problema, aqui neste contexto? - alguém poderá indagar. Um problema é tudo aquilo que suprime o bem-estar, que gera tensão, desassossegos ou inseguranças, eu diria. E quem gosta e consegue conviver com isso a longo prazo pode estar a um passo da insensatez. Eu não, eu não...
Fugir não fujo, mas escolho não ficar.


::: by meraluz at 10:54 PM


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janeiro 24, 2010

Poema sem poema

Por estar inconformada com o bloqueio que venho sofrendo há anos em relação à poesia, arrisco-me aqui a um primário exercício. Assim, pelo menos, demonstro que estou disposta a reencontrá-la. Se não conseguir, desisto de vez e mando-a pro espaço. Pensando bem, ela não serve pra muita coisa mesmo, a não ser a expressão de um lirismo quase que imbecilizado, principalmente quando rimado e metrificado.


Poema sem poema

Eu queria fazer um poema
Sem regras, sem temas...
Mas como fazê-lo
Se de mim levaram a poesia?
Como fazê-lo
Com a palavra crua e fria?

Por isso, e só por isso, peço:
Devolvam-me a poesia,
O meu olhar de crença,
O sentido dos meus dias,
As veias da existência.

Do contrário,
Como fazer um poema?
Como fazer um poema
Com as mãos vazias?
Sem idas, sem vindas,
Sem voltas, sem revoltas?

Devolvam meus suspiros,
Meus ais, meus trilhos,
Para que eu possa, enfim,
Reencontrar os versos
Que pertencem a mim.


::: by meraluz at 03:14 PM


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janeiro 20, 2010

Existe 'caso mal resolvido'?

Já acreditei nessa história de 'casos mal resolvidos'. Mas, com o tempo (e com a psicanálise, claro), compreendi que eles não existem. Os protagonistas desses 'casos' é que ficam bem ou mal resolvidos. Há quem pense que para resolver uma história que não terminou do jeito desejado é preciso esgotar todas as palavras ou mergulhar até o mais profundo talvegue de um rio de emoções desencontradas. É um ponto de vista, mas não o meu. Se alguém me diz: "Tal relação ficou mal resolvida", limito-me a comentar: "Então pronto! Ficou resolvida como 'mal resolvida.'" Isso porque muitas soluções são mais facilmente encontradas dentro - e não fora - de nós. A conversa que temos realmente de ter é com os nossos próprios botões, e a partir dos fatos disponíveis. Uma sequência de fatos e de comportamentos é suficientemente eloquente para fornecer o diagnóstico (e o prognóstico) de qualquer relacionamento.

Além disso, se pensarmos bem, nenhum final é feliz, ideal, satisfatório. Sair de uma relação com as palavras certas, dissecando o adeus em minúcias, numa interminável e desgastante sessão de perguntas e respostas, também pode ser doloroso. E, ainda por cima, não é garantia de que os sentimentos não se tornarão recorrentes. Talvez o mais indolor dos finais seja aquele em que o sentimento se dissolve durante a própria relação. Assim, sem a força desse sentimento, que morreu sem ser percebido, todo o resto se transforma em desimportâncias, e o ponto final acontece quase que naturalmente, sem traumas, nem expectativas, nem recalcitrâncias. Mas nem sempre é assim.

Em conversa com amigos, sempre vem à tona esse papo de "casos mal resolvidos". Quase todo mundo tem um pra contar. Ouço-os se queixarem, com frequência, de que, em suas frustradas relações, "ficou algo por dizer", "ficou algo por entender", e que "é preciso um último diálogo" para virar a página definitivamente (se é que o definitivo é mesmo definitivo). Mas será que a vida útil do romance não foi feita para acabar justamente naquela página? Nem todas as histórias são brindadas com finais felizes e esclarecedores, o que, em hipótese alguma, é motivo para menosprezar a sua importância. E depender da outra parte para determinar cada final de caso, à nossa conveniência, convenhamos, é bastante trabalhoso.

Também não é incomum ver pessoas acorrentadas a impasses de seu passado, ao longo de anos, até mesmo de décadas. Neste caso, nem o tempo, que sempre ajuda a pulverizar dores, mágoas e culpas, conseguiu ser um bom remédio. E aí a coisa pode acabar assumindo níveis patológicos. É preciso tomar cuidado. Não há nada pior do que se tornar um prisioneiro, principalmente do passado, que é tão estático quanto as velhas fotografias que o representam sem nada poder fazer.

Não estou aqui a subestimar a dor de ninguém. Sei que lidar com sentimentos não coisa é fácil, sobretudo com sentimentos que um dia foram feridos. Mas penso que, se sedimentarmos o eixo de nossa órbita em nós mesmos, e não no outro, tudo ficará mais claro. Por exemplo, um sintoma de saudade não precisa ser torturante, nem condicionado ao personagem que a ela deu origem. A saudade é nossa e só nossa; permitamo-nos senti-la, sem resistências, por alguns momentos, e pronto! Depois ela se vai, ainda que venha nos revisitar mais adiante. Não temos necessariamente que agir ou criar expectativas por causa de súbitas nostalgias; isso gera tensão. Certamente, com a sucessão de novas experiências e urgências, certas lembranças tendem a se tornar cada vez mais raras. Se uma história terminou era porque assim tinha de ser. E que importa se ela pode ou não retornar amanhã? Amanhã é amanhã. Não importa. Daí que o importante é viver. Tudo faz parte dessa louca aventura de viver: o bem, o mal, o prazer, a dor, os erros, os acertos, as dúvidas, as certezas, tudo... E nada permanece no lugar o tempo todo. Só nós, que moramos dentro de nós... Vivamos, pois, a partir de nossa única e inevitável existência.


::: by meraluz at 01:26 PM


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janeiro 12, 2010

Rio, 49º

Agora vocês acreditam?

Rio, 49º

Estamos derretendo. A sensação térmica é de mais de 50 graus. Nunca vi um verão desses na minha cidade. O planeta grita por socorro e ninguém ouve.


::: by meraluz at 10:53 AM


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- continua -