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Contos A HISTÓRIA DE MARIA VITÓRIA Agora que passara dos 30, Maria Vitória cismou de querer casar. Queria ter filhos, constituir família, de preferência com um parceiro que fosse homem de bem e lhe pudesse oferecer padrão de vida estável. Queria se casar. Já estava cansada de aventuras, de amores efêmeros, de viver o imprevisível. Com o tempo, sua meta transformou-se em obsessão. Procurava marido em qualquer canto; nas ruas, nas festas, em velórios e casórios. Nas noitadas não, porque homens disponíveis em casas noturnas eram... noturnos. Ou seja, não passavam mesmo de uma noite; uma noite lascíva - regada a champagne ou cerveja, dependendo do nível. Voltou-se ela, portanto, para este fim: casar. Frequentava cursos e inventava atividades em cujo ambiente pudesse estar aquele que viria a realizar o seu sonho maior. Queria tudo nos moldes tradicionais: casar na igreja, vestida de branco, jogar o buquê, posar para fotos cruzando tacinhas de cristal... Enfim, tudo a que tinha direito. Porém, apesar de envidar todos os seus esforços nessa busca alucinada, o noivo nunca aparecia. O tempo passava e o máximo que conseguia era uma série de promessas baratas, com posterior saída à francesa. Quando o sujeito desconfiava da real intenção de Maria Vitória, dava logo um jeito de inventar viagens, problemas, doenças ou qualquer outro tipo de pretexto para pular fora do barco que o levaria à 'forca'. Mas Maria Vitória não desistia, queria porque queria casar. Àquela altura já era uma questão de honra. Não iria morrer solteirona. Começou a ficar deprimida, recolhida. Esquivou-se dos amigos, deixou de lado tudo o que a fazia sorrir ou deleitar-se, de alguma forma. Desorientada, entrou para a Igreja Universal do Reino de Deus. Lá certamente haveria de encontrar um marido. E finalmente, em nome de Jesus, encontrou. Aleluia, irmãos! Ezequiel era seu nome, um pequeno comerciante, de pouca cultura, mas trabalhador, honesto e... fanático. Fanático pela palavra do Senhor (entenda-se: do Senhor Pastor). A fé de Maria Vitória era questionável, embora disfarçasse bem e se fizesse passar pela mais devota das fiéis. Tornara-se crente com o único propósito de se casar. E assim, só assim, conseguiu realizar seu sonho. Tudo como havia imaginado: cerimônia religiosa, palavras comoventes - porém não convincentes - do pastor, vestido de noiva branquíssimo em brocados de seda e com um longo véu, bênção das alianças, buquê jogado para as aspirantes a esposas e tudo mais. Faltava apenas um detalhe, típico da maioria das noivas: um sorriso. Maria Vitória não sorria. Quando muito fingia um sorriso para as fotografias. Por que Maria Vitória não sorria? Exaustão. A procura foi tão árdua que seu sonho se transformara em uma batalha, cujas armas foram destruindo tudo o que era leveza, espontaneidade, diversão e alegria. Ela ainda não se dava conta disso. Sentia-se triunfante, com o troféu ali a seu lado, enfiado num fraque de mau gosto. Agora ela estava casada, e era o que importava. A lua-de-mel, em uma estância hidromineral do sul de Minas, foi frustrante. O futuro pai de seus filhos era um fracasso na cama. Por conta de não cair em pecado, evitava toda e qualquer variação do ato sexual. Além disso, não havia química entre os dois. Com o tempo, Maria Vitória deu-se conta de que nunca amara seu marido. Mas "marido não precisava amar, bastava respeitar" - pensava. Meses depois de contraídas as núpcias, Maria Vitória deixou de ir ao culto, abandonou a igreja. Ezequiel não aceitava aquilo, e começaram as brigas. Como as diferenças não se fazem ocultar por muito tempo, elas começaram a vir à tona, uma atrás da outra. Maria Vitória gostava de tomar suas cervejas, acessar a internet e de literaturas vampirescas. Ezequiel, dizia que aquilo era coisa do demônio. Era abstêmio, detestava computador e só lia a Bíblia. Uma união de desencontros. "Mas, afinal, o casamento é isso?", perguntava-se Maria Vitória, olhando entediada para a sua aliança. Paciência. Partiria para os filhos. Teria filhos, conforme instruía as Escrituras: "crescei e multiplicai-vos". Tentou, tentou. Mas os filhos não vieram. Descobriu-se depois que Ezequiel era estéril. O que fazer com aquele marido? Com aquele casamento, tão desejado, tão sonhado, tão perseguido? O que fazer com aquele casamento sem emoções, sem afinidades, sem filhos, sem propósito? Nova depressão e uma vida sem sentido. Depois de tomar umas boas doses de fluoxetina, recuperou a euforia. Arrumou um amante, e outro, e mais outro. Foi flagrada pelo marido, levou uns bons tabefes, e o casamento se desfez. Segundo Ezequiel, ela estava "possuída". E ele não era exorcista e tampouco tinha vocação pra corno. De volta à liberdade, Maria Vitória se redescobriu. Finalmente, encontrou a felicidade assumindo-se como puta. E passou os dias que se seguiram dando pra meio mundo, com o melhor de sua generosidade e amando demais. Demais, e rotativamente... Afinal, a felicidade não cabe em um único padrão, e cada um é feliz como pode.
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