No meio de tantos rostos anônimos e ávidos de consumo num shopping ao final da tarde, encontro minha amiga Aline, que já não via há alguns bons meses. Ela faz um pequeno alarde pelo reencontro e me convida para um lanche por ali mesmo. Aline me conta de sua vida e diz que encontrou seu grande amor mas... - sempre fico apreensiva com o "mas" adversativo no meio das frases. Mas... era casado. Pede minha opinião. A última coisa que desejaria era opinar sobre isto.
- Tem certeza de que quer minha opinião?
- Claro, amiga! Sempre respeitei sua opinião.
- Concisa ou digressiva?
- Como?
- Perguntei se gostaria de uma opinião resumida, de poucas palavras, ou uma opinião mais minuciosa.
- As duas!
- Está certo. Minha opinião relâmpago é: "Se você não dispõe de estrutura emocional para lidar com esse tipo de relação, caia fora!"
- Por que diz isso?
- Esse porquê já entra na digressão. Tem mesmo certeza de que quer me ouvir?
- Tenho! Fala, fala... - Aline sempre foi ansiosa e dependente de opiniões.
- Você é uma mulher jovem, alegre, bonita e inteligente. Se esse "grande amor" não for comprometer nenhum desses atributos, permitindo que continue jovem, alegre, bonita, inteligente e dona de si, vá em frente. Mas não é o que normalmente acontece nesse tipo de relacionamento. O comum é um saldo de baixa auto-estima, muita entrega para poucos ganhos e uma dolorosa sensação de frustração, no final.
- Comigo vai ser diferente. Estou preparada. Além disso, ele insinuou que pretende se separar no momento oportuno. É um casamento de aparências.
- É o que todos dizem e poucos fazem. E a "outra" - detesto esse termo - também sempre acha que está preparada, de início. Mas não é assim que tenho visto histórias parecidas se desenrolarem. Paga-se um preço muito alto por esses amores "proibidos" e exorbitantemente intensos por já nascerem de um dilema e privados de liberdade.
- Mas eu acho que um homem não deve ser condenado a viver infeliz só porque está momentaneamente dentro de um casamento errado. Ele tem direito às suas emoções. Afinal, não morreu para a vida.
- Também acho. Todo mundo tem direito a tudo, desde que não fira terceiros. Só penso que deve haver muita consciência, de ambas as partes, ao lado dessas prazerosas e traiçoeiras emoções. Não dá pra ser inconsequente com o sentimento alheio. Aventuras não deixam lá muitas marcas, mas quando entra o sentimento, aí pega. Começam as expectativas.
Em silêncio, pensava comigo: "Pobre Aline! Definitivamente, ela não tem essa estrutura. É insegura, ingênua, de ilusões fáceis. Espero que seja contemplada com a margem de 0,01% de chances de êxito nessas relações tão cheias de esperas, frustrações, sobressaltos e limites. Homens casados, em geral, são envolventes, despertam paixões torrenciais, até porque o impedimento é um componente insuflador do desejo, que raramente é saciado neste caso. Vejo Aline já completamente fascinada. Não é difícil antever as cenas seguintes do famoso filme. Agora ela se diz preparada. Com o tempo, vai cansar de ser relegada a segundo plano, de passar os finais de semana solitária, de viver de esperas, de ouvir as sucessivas desculpas do amado, quando um imprevisto doméstico frustrar, com a pedra de gelo da realidade, o tão esperado encontro. Vai se entediar com tanta liberdade unilateral, sem ter o que fazer com ela, porque não estará internamente disponível para outras vivências. E então passará, sintomaticamente, a fazer cobranças. Essas cobranças serão, a princípio, seguidas de desculpas e omissões primárias, e depois de irritações por parte do "cobrado". Tomara que ela tenha a sorte de um final feliz. Improvável mas não impossível. Conheci um ou outro caso bem-sucedido. Mas Aline teria de ser sábia e muito equilibrada para, quem sabe, alcançar a sorte desse tão almejado final feliz. A vida é um jogo e ela é ingênua e saudável demais para aprender a jogar. Ele vai seduzi-la com palavras, vai deixar no ar um fio quase invisível de esperança, ao qual Aline vai se agarrar com todas as forças e fazer dele seu projeto de vida. Aí estará perdida. Anos poderão se passar com ela agarrada a esse fio. Homens casados não chegam a ser hipócritas quando insinuam que pretendem desfazer suas sacramentadas e fracassadas uniões conjugais. Muitos desejam esse rompimento com sinceridade. A maioria, no entanto, não dará um passo além do desejo. É um passo que envolve coragem e desprendimento. E raros têm a coragem de quebrar a metálica estrutura montada ao longo dos anos, das tradições, da prole ou mesmo de um patrimônio. Costumam ter medo do novo, das próprias emoções, quando aprofundadas. Difícil arriscar um mundo imobilizado, conhecido, arrumado, ainda que seja este uma farsa e que a recompensa do risco seja a felicidade plena no final. E ainda tem aquela história insalutar do "sentimento culpa". Sofrem sempre de culpa, que na verdade é um sentimento com bases irreais, pois, no fundo, no fundo, cada um é responsável por si próprio. E não se tem que viver preso, por toda uma vida, a laços que não sejam de amor, sacrificando a própria verdade. Mas para alguns é mais fácil viver preso a esse mundo previsível e acomodado, mesmo infeliz, do que se abrir ao novo. Aline ainda não tem essa visão, e nem quererá ter. Está apaixonada, tomada pelo entusiasmo, nada vê. Tem esperanças. A esperança é um bom sentimento, e torço para que o caminho dessa esperança possa conduzi-la a bons lugares. O que é ruim é o sentimento que pode advir da esperança detonada."
- Ei! Você viajou? Pensava em quê?
- Em nada, Aline. Deixa pra lá. Tudo o que desejo é que seja feliz e que não se perca de si mesma. É o que importa, não é mesmo?
- É! Não vou me perder.
- Só pra concluir, Aline: em nenhum momento disse para não lutar pelos seus sonhos. São os sonhos que nos sustentam. Só tome cuidado para não transformar sonhos em pesadelos. Nossas histórias devem se fazer contar entre o chão e o céu. Voar e também construir.
- Mesmo percebendo um certo tom desaprovador e protecionista por trás de suas palavras, gosto de ouvir você falar.
- Agora vamos mudar de assunto. Não sou boa de conselhos. O que tem aí nessa sacola?
- Ah, é um presente lindo que comprei pra ele! - e parou a olhar divagativa para o embrulho, como que surpreendida por um pensamento aposto.
- E que presente é?
- Uma estatueta de bronze. Só que acabei de me dar conta de que ele não terá como explicar em casa como e por quê comprou uma estatueta de bronze. Melhor trocar, não é?
Lancei-lhe um olhar de maternal cumplicidade diante da primeira de suas inúmeras frustrações, sem nada dizer.