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Sábado, Janeiro 31, 2004 :::
Da série: Mentes (quase) fantásticas:
Charles Bukowski (1920-1994)
... and the hard words I ever feared to say can now be said: I love you.
Oh, yes!
there are worse things than
being alone
but it often takes decades
to realize this
and most often
when you do
it's too late
and there's nothing worse
than
too late.
tradução
(sou contra traduzir poemas, mas voilà): há coisas piores do que
a solidão
mas geralmente leva-se décadas
para entender isto.
E, mais,
quando se consegue,
já é tarde demais,
e não há nada pior
do que
tarde demais.
Não vejo propriamente genialidade nas obras Charles Bukowski, ao contrário de certos mitômanos fanáticos pelo autor. Acho-o interessante, bem interessante. Estilo, personalidade e traços muito bem marcados. Gosto de lê-lo. Mas não seria o autor que eu levaria comigo para uma ilha deserta. Embora seja uma leitura forte, é um tanto deprê demais talvez para uma ilha deserta. Ele oscila entre o patético, o trágico e a autodestruição, entre lixos e flores. Arranca poesia do asfalto urbano e imundo. Usa a ironia na medida certa e representa um paradoxo supremo aos enfadonhos e limitados padrões literários. A mim parece ter ficado um pouco preso ao chão de Los Angeles, mas consideremos que ele escrevia a partir de sua realidade. Em quase todos os seus livros estão presentes os cenários decadentes de uma América pífia, habitados por putas, bêbados, loucos e por aqueles que só conseguiram um lugar esquecido à margem.
O "jeito Bukowski de ser" inspirou e continua a inspirar muitos jovens, que vivem de idolatrá-lo, imitá-lo e citá-lo incansavelmente. É como se vestissem uma fantasia Bukowskiana e sofressem um processo mimético, onde acreditam ser seus clones, apenas para protestar. Passam a falar e a se comportar como o "velho porco e safado", fazendo um download de sua agressividade, do seu culto à lama e ao escatológico, de seu olhar para uma sociedade velha e hipócrita. Mas assim não vale. É melhor gostar de Bukowski sem tentar ser Bukowski. Até porque seria uma operação impossível.
Para ser uma cópia exata de Buk (ou de qualquer outro) é preciso ter tido os mesmos espancamentos biográficos. Ele e sua obra são o resultado imediato das próprias feridas. Para ser Buk é preciso ter tido uma infância difícil, uma infância violentamente aviltada por um pai neurótico de guerra; seria preciso ter nascido na Alemanha e se mudado para a América na época da Depressão, bem como registrar uma adolescência extremamente solitária, sem amigos, onde um quadro severo de "acne vulgaris" viesse a cobrir toda a pele de furúnculos purulentos e repugnantes, que afasta qualquer indivíduo de uma sociedade aparentemente "limpinha e asséptica". Feridas que deixaram cicatrizes para todo o sempre, por dentro e por fora. Para ser Buk é preciso ter sentido na pele, além das espinhas, o desprezo maciço e implacável de um sistema torpe. É infrutífera a tentativa dos "góticos" - ou o que o valha - de classe média de incorporar o espírito do autor com fidelidade. Imitar Buk sem ter sido Buk é "fazer gênero". Mas isso é típico dos arroubos da juventude. Precisam de ídolos e paradoxos. E ninguém melhor do que Buk, o velho bêbado degenerado, para levantar essas bandeiras de protesto, essa nota dissonante do "déjà vu".
A grande marca de Bukowski era a autenticidade, muito diferente do que a acontece com a maioria de seus deslumbrados seguidores. Buk realmente não "estava nem aí" para os pilares da "literatura perfumada", muito menos para teatro das aparências. Desprezava profundamente o mundo arrumadinho e artificial ensinado pelas instituições das farsas, contrapondo-o ao limbo do underground, onde parecia morar a verdade.
No fundo, eu penso mesmo é que faltou algo fundamental a Buk: amor...
Mas tivesse ele se fartado de amor, talvez não rendesse tanta literatura.
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Incluirei futuramente neste post a biografia de Buk, que se encontra ainda em tradução, por minha total falta de tempo. Por enquanto, acho que vale ler o artigo abaixo e alguns poemas:
Deus salve a América.
Diabo salve Charles Bukowski - por Leonardo Barbosa Rossato
Bukowski - poemas (em inglês)
Livros Publicados (em inglês)
::: by meraluz at 2:03 PM - post nº

Quinta-feira, Janeiro 29, 2004 :::
Drummond
Pode ser piração ou sei lá o quê, mas a cada vez que passo por essa estátua do Drummond, no final da Av. Atlântica, vejo sempre alguém conversando com ele (ou com ela?). Não foi uma nem duas vezes. Pra ser sincera, senti-me até tentada a fazê-lo também. Acho que, da próxima vez, vou sentar ali no banco, sob um belo pôr-do-sol, e trocar com ele altas idéias. Parece que o poeta está mesmo ali. Há algo de misterioso em certos poetas, em certas poesias e em certas criaturas.
Poema escolhido: Rio em Flor de Janeiro (Carlos Drummond de Andrade)
::: by meraluz at 10:10 AM - post nº

Sexta-feira, Janeiro 23, 2004 :::
Modelo de carta sobre "algo que ficou por dizer"
| [Local e data] Querido [nome do destinatário],
A razão desta carta é libertar as palavras que ficaram por dizer. O tempo passou, impedindo- lhes a pronúncia, envelhecendo-as. E nem sempre elas são como o vinho... Ao pensar que tais omissões correm o risco do eterno silêncio, fazendo com que o passado seja um abrigo interpretações equivocadas, sinto minha (nossa) biografia, de certa forma, violentada.
Você não soube de muitas coisas, como eu também não devo ter sabido de tantas outras. Não sabe, por exemplo, que ... [inserir aqui todas aquelas coisas que não foram ditas por razões diversas, tais como: orgulho, estados passionais, confusão momentânea, covardia, revanchismos, falta de oportunidade, etc.]; nem como ... . [idem - importante desmembrar em tópicos, para facilitar a compreensão] ; e não imagina o quanto...[idem].
Agora que já sabe, não sei o que há de fazer com isso [certamente nada vai mudar. O tempo é implacável, qualquer elemento que possa modificar um contexto já vivido só tem eficácia na hora exata do passado também exato.] Mas não importa. É uma questão pessoal minha fazê-lo agora, antes que a vida passe definitivamente. Poderia ser tudo tão diferente, não fosse a nossa teimosia em preferir não falar ou não querer ouvir certas verdades. Poderíamos... [inserir aqui alguma hipótese mais feliz para o desfecho da história]Também poderíamos ... [idem para uma outra hipótese mais feliz - sempre mais feliz para que a carta não perca o sentido] ou entao[idem]. Já imaginou?
É muito difícil para mim fustigar feridas passadas. Porém, mais difícil foi o momento em que se fizeram as feridas, a hora das hemorragias e dos coágulos emocionais. Com falsas cicatrizes, vivi de alimentar apenas as boas lembranças, tais como... [inserir aqui momentos vivenciados com alegria e prazer] e... [idem]Lembra? Impossível esquecer.
Agora que sabe de tudo, sinto-me aliviada.Missão cumprida. Embora atrasada, a verdade acabou por comparecer. Mas, pensando bem, usar de tanta sensatez para falar de grandes sentimentos, passados ou não, não seria uma pequena mentira?
Seja como for, tua passagem ficou inscrita em minha vida para sempre.
Ass.: [nome do autor]
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PS: Como pode ser observado, o papel está amassado. Muito possivelmente, a carta será atirada e recolhida da lixeira por algumas dezenas de vezes, até seguir para o seu destino definitivo: a mesma lixeira.
::: by meraluz at 2:17 PM - post nº

Quinta-feira, Janeiro 22, 2004 :::
TUA DOR ME INCOMODA *
Vem, vem!
Que aqui estou
Pra te mostrar o sol.
Tua dor me incomoda.
Deixa teu peito aberto,
Varal de histórias
Úmidas e entrelaçadas,
Tecidos que o calor
Logo vem secar.
Tua dor me incomoda.
E não me leve a mal
Porque não vou doer contigo,
Porque refrigero assim
O ar viciado de tua tristeza.
É que tua dor me incomoda.
Perdoa-me
Se inoculo em ti
Simulacros de esperanças,
Ao invés apontar as certezas
Do quanto o mundo pode ser mau.
Perdoa esta inepta amiga que,
De tão egoísta,
Prefere te ver em festa
E não te deixa
Doer em paz.
É que tua dor me incomoda.
* para minha amiga C., que acha que o mundo acabou. Não há como explicar pra ela neste momento que o mundo não acaba quando se briga com um namorado. É assim que ela sente.
::: by meraluz at 3:06 AM - post nº

Sábado, Janeiro 17, 2004 :::
por Tom Coelho*
O mundo de Narciso
Vivemos num mundo governado pela ditadura da imagem; o triunfo da estética sobre a moral. Não são apenas as empresas encasteladas em suntuosas sedes, dotadas de marcas, logos e slogans cativantes, com suas campanhas publicitárias milionárias, seus demonstrativos financeiros reluzentemente azuis, suas estratégias comerciais expansionistas e suas políticas de incentivo que convertem, por decreto, "recursos humanos" em "talentos humanos" - até que a cortina de fumaça seja desanuviada -, que logram a sociedade.
O mundo de Narciso afeta as pessoas como as corporações. Você é tão belo quanto seus trajes e seu último corte de cabelo possam sinalizar. Tão bom quanto a procedência dos diplomas e a fluência em inúmeros idiomas possam indicar. Tão valorizado quanto a competência demonstrada e os resultados apresentados possam parecer.
Em tempos passados, ocasião que meus olhos não se atrevem a enxergar, a "embalagem" era menos representativa. As empresas eram aquilo que produziam. As pessoas eram o que demonstravam. A palavra valia tanto que bastava limitar-se ao "fio do bigode". Éramos mais essência. E mais essenciais.
Os tempos modernos trouxeram a velocidade da comunicação, o excesso de informação, a imprescindibilidade dos contratos. Estradas mais largas, carros mais rápidos pelo preço de imóveis, em trânsitos mais congestionados e caóticos. Condutores perfumados com fragrâncias que custam o equivalente a três salários mínimos, vestindo ternos de valor similar a um ano de serviço árduo de um trabalhador braçal.
Houve uma época na qual os preços eram formados para remunerar custos e proporcionar uma margem de lucro. Havia mais oferta do que demanda. A equação inverteu-se e o preço passou a ser ministrado por esta entidade denominada consumidor. Hoje, preços são dados por pedaços minúsculos de tecido chamados etiqueta, marcas grafadas nas hastes de óculos, grifes estampadas no visor e na pulseira de relógios.
O mundo de Quimera
Por extensão, nossos relacionamentos pessoais espelham este mundo midiático que nos cerca. Como nos ensina um provérbio russo, "não amamos as pessoas porque elas são bonitas, mas porque nos parecem bonitas porque as amamos". O segredo da conquista é, singelamente, contemplar a fantasia.
O poeta francês André Breton dizia: "o que a gente esconde é mais ou menos o que os outros descobrem". Bem adequado para quem escreveu o Manifesto Surrealista...
Balanços fraudados, currículos forjados, amores burlados. Vidas vividas na ilusão, imaginadas como devaneios à luz de uma quimera.
A Quimera era um monstro mitológico com cabeça de leão, corpo de cabra e cauda de dragão. Imagem nada agradável. Imagem que, mais cedo ou mais tarde, materializa-se, ao cair do véu da percepção que não carrega consigo conteúdo, sinceridade e paixão.
*Tom Coelho, com graduação em Economia pela FEA/USP, Publicidade pela ESPM/SP e especialização em Marketing pela MMS/SP e em Qualidade de Vida no Trabalho pela FIA-FEA/USP, é empresário, consultor, escritor e palestrante, diretor da Infinity Consulting, diretor do Simb/Abrinq e membro executivo do NJE/Fiesp.
ler artigo na íntegra
::: by meraluz at 10:43 AM - post nº

Sexta-feira, Janeiro 16, 2004 :::
Vim lá do blog Aldeia Nua agora, onde rolam altas discussões nos comentários de um post em que Cesar transcreve um polêmico texto de nosso amigo Saulo sobre Traição. Achei curiosa a maneira com que as pessoas se manifestam em relação ao assunto. Sinceramente, eu preferia não ter de abordar este tema aqui, por conter filigranas e variantes que dificultariam a reflexão. Mas, sem dúvida, é um assunto polêmico. Lembro sempre daquela belíssima música do Chico, "Mil Perdões" (letra aqui).
::: by meraluz at 3:24 PM - post nº

Terça-feira, Janeiro 13, 2004 :::
Agora
Uma música: Trouble (Cold Play)
Um perfume no ar: incenso de cedro (L'Occitane)
Um imagem: o Cristo da janela
Uma fome: chocolate Godiva.
Uma sede: limonada suíça do bar da esquina
Um livro por ler: 25 Poemas de Charles Bukowski
Um tempo: agora
Um lugar: aqui
Um sonho: não deixar de tê-los
Um segredo: (segredo não se conta)
Um desejo: voar
Um cuidado: voltar.
Uma esperança: mais imortais entre os mortais.
(Putz... Cold Play é muuuuuuuuuito bom mesmo!)
::: by meraluz at 5:59 PM - post nº

Volúvel é a vida, não o amor
Geralmente tendemos a classificar os humanos entre os afetivamente volúveis e os afetivamente estáveis. Categorizações nem sempre espelham a realidade. Não creio que a maioria dos que foram inseridos no time dos volúveis assim o seja por opção. Muitas vezes o "volúvel" é um "estável" que se frustrou. Por outro lado, pode ser que aquele que recebeu como prêmio a insígnia de "estável" só o seja porque a vida não lhe ofereceu ainda uma oportunidade de ser diferente. Sempre chegamos à insuperável sacação de Einstein: relatividade.
Não é raro saber de alguém que tenha em seu currículo uma multiplicidade de casamentos, parceiros ou histórias, que vão sendo substituídos ao longo do tempo, como uma mudança de casa ou de roupa. Algumas dessas pessoas podem ser naturalmente volúveis e estão apenas fazendo o jogo da vida ao seu próprio estilo. Mas tomemos cuidado com as generalizações. Nem todos os "volúveis" são assim por opção. Pode haver tantas variantes neste quadro. Há quem experimente o pluralismo dessas situações em virtude de uma incessante e desesperada busca de "estabilidade"; há os que pulam de relação em relação, na tentativa de encontrar o rosto primeiro da fonte de suas emoções; há os que simplesmente não suportam um período mais longo de solidão. E há uma infinidade de outras situações. Enfim, melhor tomarmos cuidado nas avaliações, pois um quadro de aparente volubilidade pode estar condicionado por justificativas que vão muito além daquelas que nossa imaginação supõe. Tranformar aparências em realidade definitiva pode vir a ser, no mínimo, injusto.
Não creio que haja amores volúveis. No amor não. Por tudo o que já vi e vivi, penso que o verdadeiro amor nunca é volúvel. Quem é afetivamente volúvel por convicção talvez nunca tenha amado. O amor de verdade quer ser pra sempre. E não apenas enquanto dure, como infantilmente proclama o "poetinha". O amor de verdade está mais para um soneto de Shakespeare (particularmente o 116) do que para as incandescentes odes ao efêmero de Vinícius. E se, por alguma irreversível circunstância, vier a sucumbir, parte de nós morre ali.
O que percebo mesmo é que a vida é que se tornou volúvel nos dias de hoje. Não o amor. A vida atual, na verdade, deixa muito pouco espaço para sentimentos sólidos. É uma pena. Não acredito que alguém, dentro de seu juízo perfeito, não deseje do fundo d'alma a estabilidade e a força dos afetos que resistem ao tempo e às intempéries, como "di-amantes" brutos, que resistem às inconstâncias da vida - esta sim, uma menina muito volúvel.
Será que dá pra perceber a diferença? Vinícius era muito bom de poesia, mas apenas um pequeno aprendiz no amor.
X
Soneto CXVI - Shakespeare x Soneto da Fidelidade - Vinícius de Morais
::: by meraluz at 3:09 PM - post nº

Sábado, Janeiro 10, 2004 :::
Morbidez fotográfica
Não tenho o hábito de ver fotografias. Álbuns então, nem pensar; considero-os uma espécie de sepulcro. Está certo, é mais um de meus estranhos paradoxismos. O normal é que se tenha prazer em rever momentos e flagrantes passados e exclamar: "Como as crianças cresceram!", "Esta viagem aqui foi demais!", "Parecem dois pombinhos!", "Essa turma era tão animada!", etc. etc. etc. E eu não sinto esse prazer.
Há os fanáticos por porta-retratos. Respeito. Confesso que tenho alguns, a enfeitar a casa, com fotos de personagens do meu afeto. Poucos, claro. Questão de amor. Também separei minha melhor imagem e prendi-a por trás do vidro, isolando-a bem de qualquer contato 'externo', na ilusão de deter ali o tempo 'eterno'. Questão de estética narcisística.
Ah, quanta crueldade vejo nas fotografias! E quanto mais cronologicamente distantes, mais tiranas. Em um determinado hiato do tempo, alguém disparou o "gatilho" de uma câmera e matou aquele momento. E eu, meus lugares, minhas formas, minhas pulsações, meus sorrisos, minhas companhias de então, ficamos lá imóveis naquele quadro, enquanto o tempo avançava e avançava. Rever uma foto, anos depois, é como rever um espectro da própria existência. Meu coração toca um réquiem pela certeza dos dias que não retornarão.
Quando criança, sempre fugia das câmeras, dos sorrisos "Xisss" - mais artificiais do que propaganda de dentifrícios. Nunca entendi bem o "Olha o passarinho!". Pássaros nunca se deixam prender tão facilmente. Já adulta, resolvi fazer Fotografia, era muito mais cômodo ficar por trás das câmeras. Achava que, desvendando suas técnicas e segredos, abordando-a como uma ferramenta de expressão artística, poderia me livrar dessas cismas. Entendi, no final, que a arte e a criatividade em fotografia são fenômenos fascinantes, sobretudo em B&W.
A arte é transcendente, suprime tempo e espaço. Sob esta ótica, a Fotografia já começava a adquirir um novo sentido. Além disso, sua técnica era muito excitante. Foi muito bom aprendê-la. Descobri que meu desconforto em relação ao congelamento de imagens ocorria apenas quando entrava em cena o fator "tempo", o discurso visual remissivo. Hoje já não me importo de ser fotografada ou de fotografar, em "ocasiões" que pedem algum registro trivial. Só que quase nunca revejo essas imagens. Ficam perdidas, no repouso de alguma gaveta. Elas não existem, são inanimadas. E eu não quero ser lembrada, a cada momento, que o tempo não vai voltar, que a vida está muito longe dali. Não preciso de alimentos visuais para a minha nostalgia. Minha nostalgia e toda uma galeria de fotos imortais moram no fundo de mim, onde as imagens não conhecem o congelamento.
* - Na foto acima: Marcia, Gabriel e Rafael, em algum lugar do passado. Viragem em sépia intencional.
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Há um livro que aborda este tema. Quando li nem acreditei, era a fotografia do meu pensamento. Recomendo a leitura: A Câmera Clara, de Roland Barthes.
::: by meraluz at 10:03 PM - post nº

Quarta-feira, Janeiro 07, 2004 :::
Da série: "Mentes Fantásticas" ANTONIN ARTAUD- 1896-1948: roteirista - teatrólogo - ator - escritor - "louco"
"A tragédia no palco não me basta mais, vou transportá-la para a minha vida". A sociedade insiste em marginalizar na loucura aqueles que ousam tirar a sua máscara, e elimina arbitrariamente de seu palco as mentes geniais que possam constituir permanente ameaça às suas estruturas. A sociedade chamou de loucura o que era genialidade e sensibilidade, "enlouquecendo" e assassinando Antonin Artaud. Quem pode julgar o que é loucura? 
- Vale a pena ler:
ANTONIN ARTAUD: Loucura e Lucidez, Tradição e Modernidade - por Claudio Willer
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- Trechos selecionados: (extraído do livro Linguagem e Vida: Antonin Artaud - Ed. Perspectiva, 1995)
O Pesa-Nervos
O difícil é encontrar de fato o seu lugar e restabelecer a comunicação consigo mesmo. O todo está em certa floculação das coisas, no agrupamento de toda essa pedraria mental em torno de um ponto que falta justamente encontrar.
E eu, eis o que penso do pensamento:
A INSPIRAÇÃO CERTAMENTE EXISTE.
E há um ponto fosforescente onde toda a realidade se reencontra, porém mudada, metamorfoseada - e pelo quê? - um ponto de mágica utilização das coisas. E eu creio nos aerólitos mentais, em cosmogonias individuais.
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A Arte Suprema
Escrevemos raramente no plano do automatismo que preside à realização de nossos pensamentos.
A arte suprema é dar, por intermédio de uma retórica bem aplicada, à expressão de nosso pensamento, a rijeza e a verdade de suas estratificações iniciais, assim como na linguagem falada. E a arte é de conduzir esta retórica ao ponto de cristalização necessário para não fazer mais do que uma só coisa com certas maneiras de ser, reais, do sentimento e do pensamento. - Em uma palavra, o único escritor duradouro é aquele que souber fazer com que esta retórica se comporte como se ela já fosse pensamento, e não o gesto do pensamento.
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::: by meraluz at 10:57 AM - post nº

Terça-feira, Janeiro 06, 2004 :::
Como aqui vale qualquer assunto, é com o maior orgulho que reproduzo a última pesquisa do Ibope:
O mais querido do Brasil !
Uma pesquisa nacional do Ibope, encomendada pela Globo, revelou os clubes de futebol mais queridos do Brasil. Foram ouvidas duas mil pessoas com 16 anos ou mais, de ambos os sexos, nas cinco regiões do país.
Fluminense, Internacional e Botafogo aparecem com 2% da população cada.
Com 3% da preferência, estão Atlético Mineiro e Santos.
O Grêmio e o Cruzeiro, campeão brasileiro, têm 4%.
O Vasco tem 5%.
O Palmeiras com 6% é o quarto clube no ranking de torcidas.
O São Paulo tem 7%.
O Corinthians aparece em segundo lugar com 11%.
O é o dono da maior torcida do país com 15% da preferência dos brasileiros.
A margem de erro máxima da pesquisa é de 2,2 pontos percentuais para mais ou para menos.
(fonte: JN - 05.01.2004)
::: by meraluz at 9:32 AM - post nº

Domingo, Janeiro 04, 2004 :::
Da série: "Mentes fantásticas"
BERNARD SHAW
- Biografia
- Máximas:
* Os gênios não existem, eu sou um deles e sei.
* A vida de quem comete erros é mais notável e útil do que a vida de quem nada faz.
* Felicidade para todo o sempre! Nenhum homem sobre a face da Terra poderia suportar: seria o próprio inferno.
* O álcool é o anestésico que nos faz agüentar a operação da vida.
* Todas as grandes verdades começam como blasfêmias.
* Dança: a expressão vertical de um desejo horizontal oficializado pela música.
* Não tente viver para sempre. Você jamais conseguiria.
* Poucos conseguem pensar duas ou três vezes por ano; tornei-me internacionalmente célebre por pensar uma ou duas vezes por semana.
* Sempre estive fora da lei; infringi a lei quando nasci, pois meus pais não eram casados.
* Sempre cito a mim mesmo para tornar as conversas mais excitantes.
* Se todos os economistas do mundo ficassem lado a lado, não chegariam à conclusão alguma.
* É próprio da mulher casar-se o quanto antes, e do homem permanecer solteiro o quanto puder.
* A vida não deixa de ser engraçada só porque as pessoas morrem, como não deixa de ser séria só porque as pessoas riem.
* Minha reputação cresce a cada erro.
* Um homem que tem um cérebro e sabe disto pode derrotar dez homens que não o tem e não sabem.
* Escolha o pior problema para encontrar a coisa certa a dizer, então diga-a com a maior ironia.
* O romance ideal é aquele totalmente feito por correspondências.
* A pior ofensa a um ser humano não é odiá-lo mas ser-lhe indiferente: eis a essência da humanidade.
* O homem sensato tenta adaptar-se ao mundo; o insensato insiste em tentar adaptar o mundo a si próprio. Logo, o progresso depende dos insensatos.
* A capacidade de observação profunda geralmente é chamada de cinismo por aqueles que não conseguem tê-la.
* O problema é que ela não tem capacidade para conversar mas uma enorme capacidade para tagarelar.
* Há duas tragédias na vida. Uma é não conseguir satisfazer os desejos do coração. Outra é consegui-lo.
* Aqueles que fazem não podem ensinar.
* Há sempre alguém suficientemente estúpido que se preocupa em querer ser suficientemente sábio para ganhar muito dinheiro.
* Aprendemos com a experiência que o homem nada aprende com a experiência.
* Não deixamos de brincar porque envelhecemos; envelhecemos porque deixamos de brincar! (bravo!)
* O que realmente adula um homem é saber que você o considera digno de adulações.
* Quando alguém faz algo de que se possa envergonhar, vai sempre afirmar sempre que o fez por obrigação ou no cumprimento de um dever.
* Se o homem mata um tigre é esporte; se um tigre mata um homem é ferocidade.
* Que tela deveria eu salvar se houvesse um incêndio na Galeria? A mais próxima da porta de saída, obviamente.
* Costuma-se olhar para as coisas e perguntar: "Por que?" Eu sonho com coisas que nunca aconteceram e pergunto: "Por que não?"
* A juventude é algo fantástico. É um crime desperdiçá-la com crianças.
* O mundo é sempre perigoso para aqueles que o temem.
::: by meraluz at 7:11 PM - post nº

Sábado, Janeiro 03, 2004 :::
Inaceitável mesmo é ser aquilo que não se é
 Desconfio sempre quando me dizem com ênfase: "Mas Fulano é tão educado!". Passo então a observar a tão decantada 'educação' de Fulano, para constatar se seus modos finos fazem parte de um processo natural ou não. Se natural, ele será um prazer para qualquer tipo de convivência, pois seu comportamento é, antes de mais nada, o reflexo de um sentimento. Mas se essa educação não passa de uma coleção de regras de boas maneiras com a finalidade exclusiva de impressionar uma determinada platéia, aí o Fulano entende mesmo é de hipocrisia. Quando alguém se comporta muito "educadamente" e não o faz com a devida autenticidade, acaba por transmitir um quadro de impessoalidade ou de impulsos reprimidos que, mais cedo ou mais tarde, vai ser percebido. Ele há de se trair em algum momento. Em uma escala sensata de valores, o fato de não se falar um palavrão, por exemplo, não eleva a categoria de ninguém na esfera do SER. É apenas um modo de e não um acréscimo ao.
O mesmo se aplica ao "Fulano rebelde". Nada contra as irreverências ou contra o gênero "revoltado". Mas o "rebelde sem causa" é tão pífio e vazio quanto o "ator bem educado" supracitado - aquele que não é natural. Além do mais, é um chato. Não entende que é preciso ter fundamento em qualquer de nossas inflexões. Tem que mostrar, ou pelo menos saber, por que se é rebelde. Contestar por contestar, carregar nas aberrações e nos desvios só pra ser "diferente" acaba fazendo do indivíduo uma figura ridícula e patética, e muito mais igual. Mas se o dito rebelde tem lá suas causas - nobres ou não - e não faz gênero, caras e bocas - como é o caso da maioria deles -, aí merece respeito e atenção. Pois não está fazendo outra coisa além de se auto-representar, que é o que todos devemos fazer para garantir a transparência nas relações.
A verdade, acima de tudo a verdade - essa moça de mãos firmes e olhos claros, que ora se enfeita, ora se enfeia, mas que não teme mostrar a cara.
 O que não dá pra aturar mesmo é o sujeito que finge ser o que não é. Ser o que se é, seja lá o que se for, é, por si, um salvo-conduto. Mas, reconheçamos, num mundo de tantos modelos e estereotipagens, fica difícil manter a marca de uma personalidade. A menos que esta personalidade exista realmente.
::: by meraluz at 12:34 AM - post nº

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