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Sexta-feira, Novembro 28, 2003 :::
AOS APAIXONADOS (Rubem
Alves)
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Dedico esta crônica aos apaixonados, mesmo sabendo que
servirá para nada: é inútil falar aos apaixonados. Os
apaixonados só ouvem poemas e canções. A paixão, experiência
insuperável de prazer e alegria, pelo fato mesmo de ser uma
experiência insuperável de prazer e alegria, coloca o
apaixonado fora dos limites da razão. Todo apaixonado é tolo.
Pode ser que ele escute a fala da razão. Escuta mas não
acredita. Diz ele: "O meu caso é diferente!" Tolo mesmo é quem
tenta argumentar com os apaixonados.
Começa, pois,
assim, minha inútil meditação com um verso terrível de T. S.
Eliot. Ele está rezando. Ele sabe que somente Deus tem poder
para lidar com a loucura da paixão. Ele reza assim: : . .
livra-me da dor da paixão não satisfeita e da dor muito maior
da paixão satisfeita".
Todo mundo sabe que paixão não
satisfeita dói. Mas poucos sabem que a paixão só existe se não
for satisfeita. A paixão é fome. Ela só floresce na ausência
do objeto amado. Mais precisamente, ela vive da ausência do
objeto amado. Não se trata de ausência física, do objeto amado
distante, longe. A dor da ausência física tem o nome de
saudade... continua
::: by
meraluz
at 12:04
PM - post nº

Quinta-feira, Novembro 27, 2003 :::
Pérolas de meu amigo Saulo
Não tendo eu o que postar, por absoluta esterilidade
criativa-intelectual, publico aqui duas pérolas que recebi de
meu amigo Saulo, que já deve andar conhecido pela blogosfera,
mesmo sem ser blogueiro. Uma pérola negra e uma pérola
diáfana. Trata-se de um Manual do Cinismo (ou de sobrevivência
na selva, onde "todos são sacanas até prova em contrário"), de
sua autoria, e de um lindo poema de Guimarães Rosa, que ele me
deixou no link de comentários. Meu amigo Saulo deve ser um
caso paradoxal de múltipla personalidade ou o mistério
ambulante da espécie humana.
I - Seamos cínicos,
pero no mucho
1 - Seja extremamente cauteloso,
principalmente com as pessoas que estão mais próximas de você,
excluindo-se, evidente, seus pais. Nunca é demais lembrar que
Jesus Cristo, o Redentor, e Julio César, Imperador Romano, se
"ferraram" pela traição de seus "entes mais queridos e
próximos". Além do mais, o melhor amigo de hoje poderá
tornar-se, no futuro, seu pior inimigo. O que não falta é
ex-marido/mulher lutando para colocar o antigo parceiro na
cadeia ou na lama e se apoderar de seus bens. Assista a uma
pequena demonstração em qualquer Jornal Nacional da vida. São
tantos os "podres" que vêm à tona que até a tela da TV exala
mau cheiro - e também a do monitor do computador.
2 -
Até prova em contrário, todos são culpados.
3 - Nada
de ser herói. Sem essa de morrer por seus sentimentos, ideais
ou convicções. Faça, sim, com que o inimigo f.d.p. morra pelos
dele.
4 - Nunca pergunte ao parceiro: "Você me traiu?"
A resposta previsível, como nos padrões Microsoft, será NÃO.
Ora, ao se fazer uma pergunta tão óbvia, já se está, antes
fazê-la, "careca" de saber a verdade. E, se a resposta for
muito convincente, corre-se o risco de se acreditar e sair
feliz da vida, saltitando de alegria com a venda nos olhos.
5 - Felizmente guerras em geral são ganhas com flores,
sorrisos e sinceridade. Risos. No mínimo, jogue o jogo do
inimigo por mais que as táticas dele produzam, em você, ânsia
de vomito. O importante é mantê-lo perdedor. Ética? Que ética?
risos
6 - "Não dê importância aos fatos. Creia nos
sentimento de amor e fidelidade que tenho por você" - que
frase adorável, comovente e persuasiva! Quando uma frase
dessas é pronunciada é porque algo de grave aconteceu, e não
foi coisa boa. Acreditar? Tanto quanto se acredita em sua
agenda para o dia 31 de fevereiro. Contra fatos não há
argumentos, quanto mais sentimentos. Hora de agir, se você não
for um (a) "conformista (a)" (deveria usar aqui a sinonímia
"corno"?). Maiores esclarecimentos estão no FAQ dos sites
www.sakanagem.com ou no www.putaria.com.
7 - Vista o
personagem do felino. Observe como um gato se move
silenciosamente, pisando macio, sem despertar a menor
suspeita, em geral, sobre o que andou fazendo. Se você não for
astro de TV, garoto-propaganda de um produto inédito no
mercado, autor em busca de sucesso e fama, dispensará a
publicidade. O que tiver de fazer, faça-o em silêncio, sem
alarde. Silêncio é tudo e, atualmente, de fácil aplicação -
com as novas técnicas de implosão, até as grandes construções
se pulverizam sem ruídos.
8 - Ainda sobre
"personalidade" do gato: quando, por acaso, comentar com o
"ficante" sobre sua casa de praia, e ele(a) adoçar
dengosamente a voz, chamando o seu imóvel de "nossa casinha",
mantenha-se mais ouriçado do que gato sitiado. O
despretensioso e meigo "nossa casinha" é prenúncio de um
futuro, com processos judiciais litigando pela partilha da tão
ansiada casinha construída com as mais profundas gotas de seu
suor. A sugestão é: "cair fora", deixando que tudo não passe
de um ex-futuro problema.
9 - Não abra mão dos
atributos "indefeso" e "frágil". Lute e ganhe a pole position
de "vítima". Em determinados momentos, transmita a sensação de
que tudo está saindo de acordo com as expectativas do inimigo
- se houver um inimigo, claro. Quando o sacripanta descobrir
que não é bem assim, e que tudo funcionou ao contrário do que
ele idealizou e tramou por um bom tempo, não se assuste se
abrir o jornal e tomar conhecimento de seu suicídio... ou
tentativa. (risos).
10 - Nada mais estéril do que a
figura do "confidente" e "conselheiro". Geralmente ele
(confidente) é quem precisa de conselhos e de confidentes.
Isso é meia rasgada pra sapato furado. Aja sozinho, sem
cúmplices. Se acertar, aplauda a si próprio - mas não se
esqueça: em silêncio!. Se errar, não precisará procurar alguém
em quem colocar a culpa pelas falhas na grande obra ou no
pequeno barraco.
11 - E por falar em grande obra ou
pequeno barraco (sinonímia: pequena c*g*d*), seguem abaixo a
seis fases principais de sua construção:
Fase I -
Assinatura do Contrato: alegria geral. Fase II - Tudo
começa a dar errado: confusão. Fase III - A grande obra ou
pequeno barraco explodiu: desespero Fase IV - Procura dos
culpados Fase V - Castigo aos inocentes Fase VI -
Condecoração aos não-participantes.
12 - Finalmente,
não abrir mão da postura romântica, sensível e crédula. Para
refinar e lapidar esse modo de ser, nada melhor do que um
aprofundamento nos mais complexos compêndios da Matemática,
Física ou Lógica, que são os pilares da ciência da
racionalidade. Também é recomendável assistir alguns vídeos
sobre o modus operandi do PCC ou do Comando Vermelho, que
completarão sua educação humanística e espiritual. Nada de
assistir Clodovil...risos...Abaixo o materialismo!
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II - Soneto da
Saudade - Guimarães Rosa
Quando sentires a saudade
retroar Fecha os teus olhos e verás o meu sorriso. E
ternamente te direi a sussurrar: O nosso amor a cada
instante está mais vivo! Quem sabe ainda vibrará em teus
ouvidos Uma voz macia a recitar muitos poemas... E a
te expressar que este amor em nós ungido Suportará toda
distância sem problemas... Quiçá, teus lábios sentirão um
beijo leve Como uma pluma a flutuar por sobre a neve,
Como uma gota de orvalho indo ao chão. Lembrar-te-ás
toda a ternura que expressamos, Sempre que juntos, a
emoção que partilhamos... Nem a distância apaga a chama da
paixão.
::: by meraluz at 9:18
PM - post nº

Quarta-feira, Novembro 12, 2003 :::
Chega uma hora em que já não há
mais sobre o que escrever. Fico a imaginar como deve ser a
vida de um cronista de jornal, comprometido a produzir N
textos por semana. E quando lhe faltar matéria-prima? E quando
lhe faltar disposição? Deve enviar qualquer coisa sobre
"quelque chose"? Aí não vale.
Blogs, de certa forma,
acabam por nos vincular ao compromisso - bem menor do que o de
um cronista de jornal, é claro - de uma produção textual. Por
vezes, suscitam mesmo alguma culpa, quando deixamos de colocar
algum texto por aqui. Criaram em nós um hábito, uma freqüência
de palavras.
Mas...
Chega uma hora em que já
não há mais sobre o que escrever. É preciso buscar material
fora daqui, lá onde fervilha a vida. A vida, e só ela, é a
razão das palavras. Seria mais fácil se a linha deste espaço
fosse informativa ou humorística - um dia faço outro nesse
formato. Mas não é. Criei o hábito de chegar aqui e dançar com
as palavras, pari-las de minhas vertentes. Acho que esgotei
minhas reservas neste momento.
Preciso ir lá fora
buscar algum bom material. Preciso me deixar emocionar,
irritar, alegrar, suar, cair, quebrar, reconstruir. Preciso
fazer tudo isso para, então, traduzir e tentar retransmitir o
que foi feito, desfeito ou refeito, na pele e na alma. Acho
difícil, a esta altura, permitir-me a mergulhos profundos, que
possam resultar em boas literaturas, no final. Mas contento-me
com as superfícies. Se, futuramente, souber eu usar bem as
palavras, posso tirar leite de pedras e transformar o mais
inexpressivo acontecimento em algo que valha a pena escrever.
Mas é preciso agora acontecer em meio aos
acontecimentos, ainda que inexpressivos. Afinal, nem tudo o
que é inexpressivo é inexpressível. Tenho a sensação de
ressaca semântica. Desde Outubro de 2002, derramo praticamente
um texto por dia neste cálice. Uma overdose de palavras, para
quem não escolheu ser escritora. Devo descansá-las por uns
dias, se não for acometida por alguma inspiração súbita e
inexplicável.
::: by meraluz at 11:51
AM - post nº

Segunda-feira, Novembro 10, 2003 :::
Janela dos
Fundos
Não
há paisagem. Apenas uma selva de concreto, vazada por
tantas outras janelas além da minha, revela segredos
cotidianos e banais de vidas vizinhas. Experimento o
papel de voyeur. Meus olhos invadem indiscretamente a
intimidade de cada apartamento. E em muitas janelas vejo
a repetição de cenas que já vivi. Fatos se repetem em
diferentes personagens. A vida reacontece em diferentes
espaços. A uns vinte metros de distância, a jovem
angustiada mantém um olhar no relógio e outro no
telefone, que ainda não tocou - e
provavelmente não irá tocar. Mas é jovem, tem muito
tempo para esperar e desesperar. No andar de baixo, um
casal discute. Por que razões discutem? Casais sempre
discutem, não me detenho nesta cena. Logo vão fechar a
janela e transferir o calor da discussão para a cama. Em
um outro apartamento, crianças brincam alheias ao tempo
e ao meu olhar, pulam sobre a cama, atiram travesseiros
ao ar. Como gostaria de estar ali entre elas e ser parte
desta sequência, que tão bem protagonizei na janela de
uma infância feliz. Crianças em movimento
sempre nos fazem acreditar que a vida vale a pena. Ao
lado, uma mulher troca de roupa, sem muito se importar
com os vizinhos. Vai sair. Maquia-se ao espelho,
perfuma-se. Faz caras e bocas. Trama seduções, com
certeza. Mais em cima, um vulto que não distingüo bem
aumenta o som de um rock perdido e vejo a dança de suas
sombras. Tenho todas essas cenas em mim, vivi todas em
algum outro momento, em algum outro lugar. Errado...
Ainda não passei por aquela outra janela. Uma
senhora idosa está de frente para a TV. Olha e não vê.
Está longe, distante. Talvez revisitando sua juventude,
talvez imaginando o que ainda lhe resta para além das
vidraças. O tempo tornou-se-lhe indiferente,
pois já nada espera. Percorro outras janelas
rapidamente. Esta última não me caiu bem aos olhos. À
exceção da velha senhora, reconheço todos os quadros.
Alguém, por certo, já me observou, enquanto me ocupava
em viver. Melhor eu sair agora deste solitário
observatório. A cada vez que observamos as janelas de
outrem ou as nossas próprias, nos desocupamos da vida
tentando explicá-la. E, a despeito de todas as
tentativas, nunca a explicamos suficientemente
bem.
A vida é uma
janela de frente escancarada, compreendida do lado de
fora por alguém que não somos nós.
E, como diria Pessoa: "Há só uma
janela fechada, e todo o mundo lá fora; E um sonho
do que se poderia ver se a janela se abrisse. Que
nunca é o que se vê quando se abre a janela.".
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:::
by meraluz
at 12:13
AM - post nº

Sábado, Novembro 08, 2003 :::
Onde eu gostaria de estar agora...
Será que perdi o trem?
São 7 horas
da manhã Vejo Cristo da janela O sol já apagou
sua luz E o povo lá embaixo espera Nas filas dos
pontos de ônibus Procurando aonde ir São todos
seus cicerones Correm pra não desistir Dos seus
salários de fome É a esperança que eles tem
Neste filme como extras Todos querem se dar bem
Num trem pras estrelas Depois dos navios
negreiros Outras correntezas
Estranho o teu
Cristo, Rio Que olha tão longe, além Com os
braços sempre abertos Mas sem proteger ninguém
Eu vou forrar as paredes Do meu quarto de
miséria Com manchetes de jornal Pra ver que não
é nada sério Eu vou dar o meu desprezo Pra você
que me ensinou Que a tristeza é uma maneira Da
gente se salvar depois
Num trem pras estrelas
Depois dos navios negreiros Outras correntezas
(Cazuza/Gilberto
Gil) |
:::
by meraluz
at 10:50
PM - post nº

Sexta-feira, Novembro 07, 2003 :::
Ainda sobre o Idoso
Pode não ser o mais prazeroso dos assuntos este, mas
não posso esquivar-me de perder alguns minutos com esta
reflexão. Não se trata de demagogias. É uma realidade que,
acredito, deve ser revista enquanto houver tempo.
Com
os avanços tecnológicos e científicos, a média de expectativa
de vida aumentou na maioria dos países. "Que maravilha!" -
todos diriam. Não, nem todos. Os governos provavelmente
lamentariam: "Que tragédia para os cofres públicos!". Sim, porque o idoso é
considerado um peso, já que não mais é economicamente ativo e
sobrecarrega os sistemas de saúde e de previdência. Ainda
assim, na Europa, por exemplo, há um respeito maior para com
esta população de mais idade. Por uma questão cultural,
talvez, a ela costumam associar valores como sabedoria,
experiência e memória viva, nesse velho continente, que assume
o "ônus" econômico da longevidade sem precisar maltratá-la.
Uma espécie de recompensa à velhice.
No entanto,
alguns países insistem em tratar os idosos como dejetos
humanos, sobretudo se esses idosos não são economicamente
favorecidos. São cruelmente excluídos da sociedade.
Infelizmente, meu país se inclui entre aqueles que adotam essa
ótica excludente e deturpada. Uma bela demonstração de
imaturidade, egoísmo, materialismo e imediatismo.
Em
uma sociedade em que os valores se tornam cada vez mais
descartáveis fica fácil de entender o mecanismo deste olhar,
ou melhor, desta falta de olhar para com o idoso. Os arautos
das mudanças sociais muito falam no menor carente. Mas é muito
mais fácil falar do menor - carente ou nao. A criança tem o
futuro pela frente, a esperança, e mais chances de responder
aos investimentos a ela dedicados. Através da educação, o
menor pode vir a gerar bons retornos para o Estado (a
linguagem é esta). O idoso não, não pode mais nada. Já cumpriu
sua missão, já pagou seus impostos, já gastou o máximo de seu
suor, já sofreu todas as dores. Não seria justo, então, que os
últimos anos de suas vidas fossem, no mínimo, respeitados ou
reconhecidos?
Visitei, por alguns anos, um asilo muito
pobre de velhinhos. Ali vi uma realidade perversa, de maus
tratos e intolerância. Mas ali também aprendi muito. Aquelas
"crianças ao avesso" ensinaram-me coisas intransmissíveis
como: resignação, paz, tolerância e até mesmo que era possível
arrancar alguma alegria dos últimos momentos da vida e das
privações. A sociedade os desprezava, mas eles não desprezavam
ninguém. Pareciam compreender o que, para mim, é
incompreensível.
Quando não somos um deles, pensamos
ser imortais, temos uma pressa avassaladora e uma tola
urgência de resultados. Governantes e legisladores não fazem
outra coisa se não legitimar essa pobreza de espírito, essa
falta de humanidade, muito alimentada pela execrável cultura
americana do "winner" x "looser". O idoso é equivocadamente
considerado um "looser". Quando não somos um deles, pensamos
que nunca seremos um deles, pois ser assim significa ser um
"looser", dentro deste sistema de valores. E ignoramos tudo o
que os mais velhos teriam para ensinar. Nem sequer os ouvimos.
Tanto pior.
Só tenho a lamentar, menos pelos idosos do
que por nossa sociedade doente. Esta, sim, está muito mais
doente. De uma doença contagiosa, que extermina o lado humano
do cidadão e sua noção de solidariedade.
O espetáculo
a que assisti nesta semana, com as consequências do bloqueio
dos benefícios aos maiores de 80 anos, é a pura legitimação de
tudo isto. Há fraudes na Previdência, é claro. Mas certamente
não são os idosos os responsáveis por isso, e há formas menos
penosas e mais justas de se combater esse tipo de infração.
Pergunto: por que nenhum mal acontece à maioria dos grandes
sonegadores? Ousaria responder: não interessa ao Estado mexer
com gente graúda. Mas a resposta iria além: é porque o homem
está perdendo seus princípios mais dignos. E nisto o idoso
leva uma vantagem e tanta, por ter conhecido melhores tempos
no passado, enquanto que um futuro negro espera pelas novas
gerações, se não houver mudanças intrínsecas, antes das
extrínsecas, desde já.
De acordo com a atual taxa de
expectativa de vida, provavelmente seremos um deles. Melhor
pensarmos nisto.
::: by meraluz at 1:19
PM - post nº

Quinta-feira, Novembro 06, 2003 :::
EU VIVO NUM PAÍS QUE NÃO
RESPEITA O IDOSO. QUE "PREOCUPAÇÃO SOCIAL" É ESTA? SENTI
VERGONHA E SENTI POR ELES, TÃO ESQUECIDOS E AVILTADOS NA
DOLOROSA PORTA DE SAÍDA DESTA VIDA.
:::
by meraluz
at 11:59
PM - post nº

Segunda-feira, Novembro 03, 2003 :::
Sinfonia
Natural
Dentre todas as músicas que a Natureza toca,
a do vento frio é a que menos gosto. Há um gemido neste sopro,
um uivo solitário e extemporâneo. É adágio angustiado. Geme o
vento agora, por trás da janela fechada, como se quisesse
penetrar minha intimidade, como se quisesse varrer meus restos
de sonhos. Aqui não vai entrar. Não quero ouvir essa triste
melodia, tão diferente das outras sonoridades naturais.
A chuva canta uma canção fagueira, talvez por saber
que faz a festa de muitos jardins. Barulho de chuva é sempre
bom de ouvir. É a sonoridade dos pingos soltos que despencam
do céu. São sonatas de água, que lavam, levam, renovam e
dançam por entre terras, telhados, vidraças e guarda-chuvas
coloridos.
O som do mar é sinfonia de beleza profunda,
seja em ressaca ou calmaria. Música de mar é mistério. Canção
solene que nos convida a mergulhos em azuis infinitos. É
murmúrio de ondas que avançam intrépidas, e, no final, abrem
seu sorriso de espuma branca, felizes por fundirem-se com a
areia. É mágico ouvir o mar.
O rio compõe um prelúdio
tristonho. Constante e melancólica partitura que segue sinuosa
entre sombras e pedras . Mas o rio sabe que, em algum momento,
há de encontrar o mar, quando passará a executar um "allegro".
A sonoridade do roçar das folhas é sensual como o
toque timído dos apaixonados. Parecem trocar segredos frugais
entre si. Cochicham e conspiram sobre uma possível felicidade
verdejante.
O trovão é zangado e escandaloso. Soa como
as aberturas de Wagner. Ecoa tão claramente e é tão
escancarado em suas respostas, que nem chega a assustar de
verdade. É o típico som do "muito barulho em torno de nada".
Logo se cansa de vociferar, vencido pelas estrelas.
Mas o vento cinza, esse só entoa a angústia de um
espectro que vaga sem lugar certo. E eu gostaria que ele
parasse de soprar em meus ouvidos músicas tão distantes,
réquiens tão inconsoláveis.
::: by meraluz at 1:19
AM - post nº

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