A
Meraluz's Production

Starring: Meraluz, You, Real Life, Dream Life, Poetry, Art, Joke and whatever!

Vamos falar de vida !

Mas qual é mesmo a melhor maneira de falar dessa Senhora?

Ah, lembrei ! É VI-VENDO!



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Poema XXVII, in Poemas do Irremediável
- Paschoal Carlos Magno

Sei que a promessa não será cumprida,
à medida que teus passos se afastam,
sei que não voltarás à minha vida...

Se tivesse coragem de gritar
"Pára", talvez ainda me ouvirias
como ouço teu começo de viagem...

Mas não: dia a dia
devo assistir
a chegada consciente da distância...
---------------------------------------

Outro poema:

Oh, yes! - Charles Bukowski

there are worse things than
being alone
but it often takes decades
to realize this
and most often
when you do
it's too late
and there's nothing worse
than
too late.




Presente da Cacau para uma aquariana:

When the Moon is in the Seventh House
And Jupiter aligns with Mars
Then peace will guide the planets
And love will steer the wars
This is the dawning of the
Age of Aquarius
The Age of Aquarius
Aquarius!
Aquarius!


Cotação da verdinha $$$:




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Sexta-feira, Novembro 28, 2003 :::

AOS APAIXONADOS (Rubem Alves)
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Dedico esta crônica aos apaixonados, mesmo sabendo que servirá para nada: é inútil falar aos apaixonados. Os apaixonados só ouvem poemas e canções. A paixão, experiência insuperável de prazer e alegria, pelo fato mesmo de ser uma experiência insuperável de prazer e alegria, coloca o apaixonado fora dos limites da razão. Todo apaixonado é tolo. Pode ser que ele escute a fala da razão. Escuta mas não acredita. Diz ele: "O meu caso é diferente!" Tolo mesmo é quem tenta argumentar com os apaixonados.

Começa, pois, assim, minha inútil meditação com um verso terrível de T. S. Eliot. Ele está rezando. Ele sabe que somente Deus tem poder para lidar com a loucura da paixão. Ele reza assim: : . . livra-me da dor da paixão não satisfeita e da dor muito maior da paixão satisfeita".

Todo mundo sabe que paixão não satisfeita dói. Mas poucos sabem que a paixão só existe se não for satisfeita. A paixão é fome. Ela só floresce na ausência do objeto amado. Mais precisamente, ela vive da ausência do objeto amado. Não se trata de ausência física, do objeto amado distante, longe. A dor da ausência física tem o nome de saudade... continua

::: by meraluz at 12:04 PM - post nº



Quinta-feira, Novembro 27, 2003 :::

Pérolas de meu amigo Saulo

Não tendo eu o que postar, por absoluta esterilidade criativa-intelectual, publico aqui duas pérolas que recebi de meu amigo Saulo, que já deve andar conhecido pela blogosfera, mesmo sem ser blogueiro. Uma pérola negra e uma pérola diáfana. Trata-se de um Manual do Cinismo (ou de sobrevivência na selva, onde "todos são sacanas até prova em contrário"), de sua autoria, e de um lindo poema de Guimarães Rosa, que ele me deixou no link de comentários. Meu amigo Saulo deve ser um caso paradoxal de múltipla personalidade ou o mistério ambulante da espécie humana.

I - Seamos cínicos, pero no mucho

1 - Seja extremamente cauteloso, principalmente com as pessoas que estão mais próximas de você, excluindo-se, evidente, seus pais. Nunca é demais lembrar que Jesus Cristo, o Redentor, e Julio César, Imperador Romano, se "ferraram" pela traição de seus "entes mais queridos e próximos". Além do mais, o melhor amigo de hoje poderá tornar-se, no futuro, seu pior inimigo. O que não falta é ex-marido/mulher lutando para colocar o antigo parceiro na cadeia ou na lama e se apoderar de seus bens. Assista a uma pequena demonstração em qualquer Jornal Nacional da vida. São tantos os "podres" que vêm à tona que até a tela da TV exala mau cheiro - e também a do monitor do computador.

2 - Até prova em contrário, todos são culpados.

3 - Nada de ser herói. Sem essa de morrer por seus sentimentos, ideais ou convicções. Faça, sim, com que o inimigo f.d.p. morra pelos dele.

4 - Nunca pergunte ao parceiro: "Você me traiu?" A resposta previsível, como nos padrões Microsoft, será NÃO. Ora, ao se fazer uma pergunta tão óbvia, já se está, antes fazê-la, "careca" de saber a verdade. E, se a resposta for muito convincente, corre-se o risco de se acreditar e sair feliz da vida, saltitando de alegria com a venda nos olhos.

5 - Felizmente guerras em geral são ganhas com flores, sorrisos e sinceridade. Risos. No mínimo, jogue o jogo do inimigo por mais que as táticas dele produzam, em você, ânsia de vomito. O importante é mantê-lo perdedor. Ética? Que ética? risos

6 - "Não dê importância aos fatos. Creia nos sentimento de amor e fidelidade que tenho por você" - que frase adorável, comovente e persuasiva! Quando uma frase dessas é pronunciada é porque algo de grave aconteceu, e não foi coisa boa. Acreditar? Tanto quanto se acredita em sua agenda para o dia 31 de fevereiro. Contra fatos não há argumentos, quanto mais sentimentos. Hora de agir, se você não for um (a) "conformista (a)" (deveria usar aqui a sinonímia "corno"?). Maiores esclarecimentos estão no FAQ dos sites www.sakanagem.com ou no www.putaria.com.

7 - Vista o personagem do felino. Observe como um gato se move silenciosamente, pisando macio, sem despertar a menor suspeita, em geral, sobre o que andou fazendo. Se você não for astro de TV, garoto-propaganda de um produto inédito no mercado, autor em busca de sucesso e fama, dispensará a publicidade. O que tiver de fazer, faça-o em silêncio, sem alarde. Silêncio é tudo e, atualmente, de fácil aplicação - com as novas técnicas de implosão, até as grandes construções se pulverizam sem ruídos.

8 - Ainda sobre "personalidade" do gato: quando, por acaso, comentar com o "ficante" sobre sua casa de praia, e ele(a) adoçar dengosamente a voz, chamando o seu imóvel de "nossa casinha", mantenha-se mais ouriçado do que gato sitiado. O despretensioso e meigo "nossa casinha" é prenúncio de um futuro, com processos judiciais litigando pela partilha da tão ansiada casinha construída com as mais profundas gotas de seu suor. A sugestão é: "cair fora", deixando que tudo não passe de um ex-futuro problema.

9 - Não abra mão dos atributos "indefeso" e "frágil". Lute e ganhe a pole position de "vítima". Em determinados momentos, transmita a sensação de que tudo está saindo de acordo com as expectativas do inimigo - se houver um inimigo, claro. Quando o sacripanta descobrir que não é bem assim, e que tudo funcionou ao contrário do que ele idealizou e tramou por um bom tempo, não se assuste se abrir o jornal e tomar conhecimento de seu suicídio... ou tentativa. (risos).

10 - Nada mais estéril do que a figura do "confidente" e "conselheiro". Geralmente ele (confidente) é quem precisa de conselhos e de confidentes. Isso é meia rasgada pra sapato furado. Aja sozinho, sem cúmplices. Se acertar, aplauda a si próprio - mas não se esqueça: em silêncio!. Se errar, não precisará procurar alguém em quem colocar a culpa pelas falhas na grande obra ou no pequeno barraco.

11 - E por falar em grande obra ou pequeno barraco (sinonímia: pequena c*g*d*), seguem abaixo a seis fases principais de sua construção:

Fase I - Assinatura do Contrato: alegria geral.
Fase II - Tudo começa a dar errado: confusão.
Fase III - A grande obra ou pequeno barraco explodiu: desespero
Fase IV - Procura dos culpados
Fase V - Castigo aos inocentes
Fase VI - Condecoração aos não-participantes.

12 - Finalmente, não abrir mão da postura romântica, sensível e crédula. Para refinar e lapidar esse modo de ser, nada melhor do que um aprofundamento nos mais complexos compêndios da Matemática, Física ou Lógica, que são os pilares da ciência da racionalidade. Também é recomendável assistir alguns vídeos sobre o modus operandi do PCC ou do Comando Vermelho, que completarão sua educação humanística e espiritual. Nada de assistir Clodovil...risos...Abaixo o materialismo!

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II - Soneto da Saudade - Guimarães Rosa

Quando sentires a saudade retroar
Fecha os teus olhos e verás o meu sorriso.
E ternamente te direi a sussurrar:
O nosso amor a cada instante está mais vivo!
Quem sabe ainda vibrará em teus ouvidos
Uma voz macia a recitar muitos poemas...
E a te expressar que este amor em nós ungido
Suportará toda distância sem problemas...
Quiçá, teus lábios sentirão um beijo leve
Como uma pluma a flutuar por sobre a neve,
Como uma gota de orvalho indo ao chão.
Lembrar-te-ás toda a ternura que expressamos,
Sempre que juntos, a emoção que partilhamos...
Nem a distância apaga a chama da paixão.


::: by meraluz at 9:18 PM - post nº



Quarta-feira, Novembro 12, 2003 :::

Chega uma hora em que já não há mais sobre o que escrever. Fico a imaginar como deve ser a vida de um cronista de jornal, comprometido a produzir N textos por semana. E quando lhe faltar matéria-prima? E quando lhe faltar disposição? Deve enviar qualquer coisa sobre "quelque chose"? Aí não vale.

Blogs, de certa forma, acabam por nos vincular ao compromisso - bem menor do que o de um cronista de jornal, é claro - de uma produção textual. Por vezes, suscitam mesmo alguma culpa, quando deixamos de colocar algum texto por aqui. Criaram em nós um hábito, uma freqüência de palavras.

Mas...

Chega uma hora em que já não há mais sobre o que escrever. É preciso buscar material fora daqui, lá onde fervilha a vida. A vida, e só ela, é a razão das palavras. Seria mais fácil se a linha deste espaço fosse informativa ou humorística - um dia faço outro nesse formato. Mas não é. Criei o hábito de chegar aqui e dançar com as palavras, pari-las de minhas vertentes. Acho que esgotei minhas reservas neste momento.

Preciso ir lá fora buscar algum bom material. Preciso me deixar emocionar, irritar, alegrar, suar, cair, quebrar, reconstruir. Preciso fazer tudo isso para, então, traduzir e tentar retransmitir o que foi feito, desfeito ou refeito, na pele e na alma. Acho difícil, a esta altura, permitir-me a mergulhos profundos, que possam resultar em boas literaturas, no final. Mas contento-me com as superfícies. Se, futuramente, souber eu usar bem as palavras, posso tirar leite de pedras e transformar o mais inexpressivo acontecimento em algo que valha a pena escrever.

Mas é preciso agora acontecer em meio aos acontecimentos, ainda que inexpressivos. Afinal, nem tudo o que é inexpressivo é inexpressível. Tenho a sensação de ressaca semântica. Desde Outubro de 2002, derramo praticamente um texto por dia neste cálice. Uma overdose de palavras, para quem não escolheu ser escritora. Devo descansá-las por uns dias, se não for acometida por alguma inspiração súbita e inexplicável.

::: by meraluz at 11:51 AM - post nº



Segunda-feira, Novembro 10, 2003 :::

Janela dos Fundos

Não há paisagem. Apenas uma selva de concreto, vazada por tantas outras janelas além da minha, revela segredos cotidianos e banais de vidas vizinhas. Experimento o papel de voyeur. Meus olhos invadem indiscretamente a intimidade de cada apartamento. E em muitas janelas vejo a repetição de cenas que já vivi. Fatos se repetem em diferentes personagens. A vida reacontece em diferentes espaços. A uns vinte metros de distância, a jovem angustiada mantém um olhar no relógio e outro no telefone, que ainda não tocou - e provavelmente não irá tocar. Mas é jovem, tem muito tempo para esperar e desesperar. No andar de baixo, um casal discute. Por que razões discutem? Casais sempre discutem, não me detenho nesta cena. Logo vão fechar a janela e transferir o calor da discussão para a cama. Em um outro apartamento, crianças brincam alheias ao tempo e ao meu olhar, pulam sobre a cama, atiram travesseiros ao ar. Como gostaria de estar ali entre elas e ser parte desta sequência, que tão bem protagonizei na janela de uma infância feliz. Crianças em movimento sempre nos fazem acreditar que a vida vale a pena. Ao lado, uma mulher troca de roupa, sem muito se importar com os vizinhos. Vai sair. Maquia-se ao espelho, perfuma-se. Faz caras e bocas. Trama seduções, com certeza. Mais em cima, um vulto que não distingüo bem aumenta o som de um rock perdido e vejo a dança de suas sombras. Tenho todas essas cenas em mim, vivi todas em algum outro momento, em algum outro lugar. Errado... Ainda não passei por aquela outra janela. Uma senhora idosa está de frente para a TV. Olha e não vê. Está longe, distante. Talvez revisitando sua juventude, talvez imaginando o que ainda lhe resta para além das vidraças. O tempo tornou-se-lhe indiferente, pois já nada espera. Percorro outras janelas rapidamente. Esta última não me caiu bem aos olhos. À exceção da velha senhora, reconheço todos os quadros. Alguém, por certo, já me observou, enquanto me ocupava em viver. Melhor eu sair agora deste solitário observatório. A cada vez que observamos as janelas de outrem ou as nossas próprias, nos desocupamos da vida tentando explicá-la. E, a despeito de todas as tentativas, nunca a explicamos suficientemente bem. 

A vida é uma janela de frente escancarada, compreendida do lado de fora por alguém que não somos nós.



E, como diria Pessoa:
"Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse.
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.".



::: by meraluz at 12:13 AM - post nº



Sábado, Novembro 08, 2003 :::

Onde eu gostaria de estar agora... Será que perdi o trem?







Sorry, your browser doesn't support Java.

São 7 horas da manhã
Vejo Cristo da janela
O sol já apagou sua luz
E o povo lá embaixo espera
Nas filas dos pontos de ônibus
Procurando aonde ir
São todos seus cicerones
Correm pra não desistir
Dos seus salários de fome
É a esperança que eles tem
Neste filme como extras
Todos querem se dar bem
Num trem pras estrelas
Depois dos navios negreiros
Outras correntezas

Estranho o teu Cristo, Rio
Que olha tão longe, além
Com os braços sempre abertos
Mas sem proteger ninguém
Eu vou forrar as paredes
Do meu quarto de miséria
Com manchetes de jornal
Pra ver que não é nada sério
Eu vou dar o meu desprezo
Pra você que me ensinou
Que a tristeza é uma maneira
Da gente se salvar depois

Num trem pras estrelas
Depois dos navios negreiros
Outras correntezas

(Cazuza/Gilberto Gil)



::: by meraluz at 10:50 PM - post nº



Sexta-feira, Novembro 07, 2003 :::

Ainda sobre o Idoso

Pode não ser o mais prazeroso dos assuntos este, mas não posso esquivar-me de perder alguns minutos com esta reflexão. Não se trata de demagogias. É uma realidade que, acredito, deve ser revista enquanto houver tempo.

Com os avanços tecnológicos e científicos, a média de expectativa de vida aumentou na maioria dos países. "Que maravilha!" - todos diriam. Não, nem todos. Os governos provavelmente lamentariam: "Que tragédia para os cofres públicos!". Sim, porque o idoso é considerado um peso, já que não mais é economicamente ativo e sobrecarrega os sistemas de saúde e de previdência. Ainda assim, na Europa, por exemplo, há um respeito maior para com esta população de mais idade. Por uma questão cultural, talvez, a ela costumam associar valores como sabedoria, experiência e memória viva, nesse velho continente, que assume o "ônus" econômico da longevidade sem precisar maltratá-la. Uma espécie de recompensa à velhice.

No entanto, alguns países insistem em tratar os idosos como dejetos humanos, sobretudo se esses idosos não são economicamente favorecidos. São cruelmente excluídos da sociedade. Infelizmente, meu país se inclui entre aqueles que adotam essa ótica excludente e deturpada. Uma bela demonstração de imaturidade, egoísmo, materialismo e imediatismo.

Em uma sociedade em que os valores se tornam cada vez mais descartáveis fica fácil de entender o mecanismo deste olhar, ou melhor, desta falta de olhar para com o idoso. Os arautos das mudanças sociais muito falam no menor carente. Mas é muito mais fácil falar do menor - carente ou nao. A criança tem o futuro pela frente, a esperança, e mais chances de responder aos investimentos a ela dedicados. Através da educação, o menor pode vir a gerar bons retornos para o Estado (a linguagem é esta). O idoso não, não pode mais nada. Já cumpriu sua missão, já pagou seus impostos, já gastou o máximo de seu suor, já sofreu todas as dores. Não seria justo, então, que os últimos anos de suas vidas fossem, no mínimo, respeitados ou reconhecidos?

Visitei, por alguns anos, um asilo muito pobre de velhinhos. Ali vi uma realidade perversa, de maus tratos e intolerância. Mas ali também aprendi muito. Aquelas "crianças ao avesso" ensinaram-me coisas intransmissíveis como: resignação, paz, tolerância e até mesmo que era possível arrancar alguma alegria dos últimos momentos da vida e das privações. A sociedade os desprezava, mas eles não desprezavam ninguém. Pareciam compreender o que, para mim, é incompreensível.

Quando não somos um deles, pensamos ser imortais, temos uma pressa avassaladora e uma tola urgência de resultados. Governantes e legisladores não fazem outra coisa se não legitimar essa pobreza de espírito, essa falta de humanidade, muito alimentada pela execrável cultura americana do "winner" x "looser". O idoso é equivocadamente considerado um "looser". Quando não somos um deles, pensamos que nunca seremos um deles, pois ser assim significa ser um "looser", dentro deste sistema de valores. E ignoramos tudo o que os mais velhos teriam para ensinar. Nem sequer os ouvimos. Tanto pior.

Só tenho a lamentar, menos pelos idosos do que por nossa sociedade doente. Esta, sim, está muito mais doente. De uma doença contagiosa, que extermina o lado humano do cidadão e sua noção de solidariedade.

O espetáculo a que assisti nesta semana, com as consequências do bloqueio dos benefícios aos maiores de 80 anos, é a pura legitimação de tudo isto. Há fraudes na Previdência, é claro. Mas certamente não são os idosos os responsáveis por isso, e há formas menos penosas e mais justas de se combater esse tipo de infração. Pergunto: por que nenhum mal acontece à maioria dos grandes sonegadores? Ousaria responder: não interessa ao Estado mexer com gente graúda. Mas a resposta iria além: é porque o homem está perdendo seus princípios mais dignos. E nisto o idoso leva uma vantagem e tanta, por ter conhecido melhores tempos no passado, enquanto que um futuro negro espera pelas novas gerações, se não houver mudanças intrínsecas, antes das extrínsecas, desde já.

De acordo com a atual taxa de expectativa de vida, provavelmente seremos um deles. Melhor pensarmos nisto.

::: by meraluz at 1:19 PM - post nº



Quinta-feira, Novembro 06, 2003 :::

EU VIVO NUM PAÍS QUE NÃO RESPEITA O IDOSO. QUE "PREOCUPAÇÃO SOCIAL" É ESTA? SENTI VERGONHA E SENTI POR ELES, TÃO ESQUECIDOS E AVILTADOS NA DOLOROSA PORTA DE SAÍDA DESTA VIDA.



::: by meraluz at 11:59 PM - post nº



Segunda-feira, Novembro 03, 2003 :::

Sinfonia Natural

Dentre todas as músicas que a Natureza toca, a do vento frio é a que menos gosto. Há um gemido neste sopro, um uivo solitário e extemporâneo. É adágio angustiado. Geme o vento agora, por trás da janela fechada, como se quisesse penetrar minha intimidade, como se quisesse varrer meus restos de sonhos. Aqui não vai entrar. Não quero ouvir essa triste melodia, tão diferente das outras sonoridades naturais.

A chuva canta uma canção fagueira, talvez por saber que faz a festa de muitos jardins. Barulho de chuva é sempre bom de ouvir. É a sonoridade dos pingos soltos que despencam do céu. São sonatas de água, que lavam, levam, renovam e dançam por entre terras, telhados, vidraças e guarda-chuvas coloridos.

O som do mar é sinfonia de beleza profunda, seja em ressaca ou calmaria. Música de mar é mistério. Canção solene que nos convida a mergulhos em azuis infinitos. É murmúrio de ondas que avançam intrépidas, e, no final, abrem seu sorriso de espuma branca, felizes por fundirem-se com a areia. É mágico ouvir o mar.

O rio compõe um prelúdio tristonho. Constante e melancólica partitura que segue sinuosa entre sombras e pedras . Mas o rio sabe que, em algum momento, há de encontrar o mar, quando passará a executar um "allegro".

A sonoridade do roçar das folhas é sensual como o toque timído dos apaixonados. Parecem trocar segredos frugais entre si. Cochicham e conspiram sobre uma possível felicidade verdejante.

O trovão é zangado e escandaloso. Soa como as aberturas de Wagner. Ecoa tão claramente e é tão escancarado em suas respostas, que nem chega a assustar de verdade. É o típico som do "muito barulho em torno de nada". Logo se cansa de vociferar, vencido pelas estrelas.

Mas o vento cinza, esse só entoa a angústia de um espectro que vaga sem lugar certo. E eu gostaria que ele parasse de soprar em meus ouvidos músicas tão distantes, réquiens tão inconsoláveis.

::: by meraluz at 1:19 AM - post nº