março 05, 2006

Gabriel

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O moleque tinha seis meses quando o vi pela primeira vez. Notei, de cara, que não se tratava apenas de mais uma criatura que acabava de chegar ao mundo, como tantas outras. Gabriel era especial. Entendi logo que não deveria esperar dele as reações comuns das crianças que se submetem facilmente às regras da conveniências mortais, a despeito de seus suaves traços angelicais. Não, ele não haveria de ser um submisso às regras do jogo, seu destino era a liberdade. Quando bebê, chorava muito, esgoelava-se, como se quisesse marcar para sempre sua presença num mundo ocupado demais para ouvir as pessoas. Depois que completou um ano, ao contrário, raramente chorava. Destemido por natureza. Parecia não conhecer o medo. Isso me fascinava. Havia eletricidade suficiente para gerar muita luz dentro daquele menino louro e. Gabriel me emocionava.

Lembro de uma vez em que o guri, ainda pequeno, como pouco mais de 2 anos, levou umas boas palmadas do pai. Não lembro o motivo da fúria que ele despertou no pai, só lembro que Gabriel não verteu uma lágrima sequer. A cada palmada, olhava fundo e sério dentro dos olhos de seu paterno repreensor, levando-o à loucura por não apresentar a reação esperada. Já nessa época parecia ter total domínio sobre a mente e o corpo. E era apenas uma criança... Uma criança risonha, de personalidade pronta e muito, muito sensível. Com menos de um ano, soltamos o guri na piscina do clube e ele saiu nadando sozinho. Naquela hora virou um Netuno - e assim continua, pelo visto, surfando na Prainha, nas Maldivas, Hawaii ou em Atlântidas perdidas. O encanto e o espanto.

Podia eu ter dado mais de mim ao Gabi, muito mais. Não deu tempo. Havia as minhas crises com o pai, havia o Rafael, seu irmão, que necessitava de mais atenção naquele momento, havia sempre uma razão que nunca vai justificar o pouco que pude dar. O jeito independente do moleque, que se virava sempre sozinho, em qualquer situação, me deixava descansada. Grande erro. Fiquei lhe devendo muitas horas, dias, anos de atenção. Não só eu como quase todos deixamos nas mãos de Gabi a difícil tarefa de se safar por si diante da vida e de seus perigos, na maior parte do tempo. Infelizmente, não posso dar um "rewind" para consertar ou cobrir esta lacuna, só posso lamentar. Mas eu gostava desse menino, de cabelos dourados ao vento e um microtênis vermelho, como se fosse meu filho. Ele não sabe disto e talvez nunca venha a saber. O tempo passou. A vida nos prepara ciladas e imprevistos. Achava que fosse ter todo o tempo do mundo para ver Gabriel crescer e fazer suas descobertas. Mas não deu. Precisei sair de cena e me distanciar de meus pimpolhos, que eram um pouco meus àquela altura, mas não tão meus a ponto de perpetuar o nosso contato. Poucos momentos me doeram tanto quanto este de precisar partir deles. Havia tanto por dizer e fazer, mas eu precisava ir. Retardei esse vôo até onde pude, pelo menos por uns 4 anos. Não tive como explicar e saí quase à francesa. De qualquer forma, muito ocupado em ser criança, ele não entenderia nada dessas pasmaceiras existenciais demais, adultas demais, que certamente hoje deve entender, porque virou "gente grande". Mas hoje é hoje. Hoje é longe. Só que pra mim, Gabriel sempre será um menino.

Recentemente, ouvi de uma pessoa conhecida que Gabriel andava tendo comportamentos irreverentes e atípicos. Vi com uma certa desconfiança aquele tipo de veredicto sobre o menino, porque, sendo Gabi uma criatura especial, sabia que ele teria de enfrentar a incompreensão de algumas mentes supostamente "SiAmRoN", de tantos "fiéis seguidores" dos manuais de um mundo insano e sem noção. Nem perdi meu tempo em tentar contra-argumentar, dizendo que pessoas especiais, de uma ou de outra forma, são naturalmente absolvidas ao ferirem um pouco essas normas de boa conduta que a sociedade nos impõe, como se fôssemos cobaias pavlovianas. Eu sabia que Gabi não seria um caozinho adestrável, ou facilmente adestrável. Ele era como o vento, e não se pode impedir o vento de ventar... Tempos depois, descobri na Internet um clipe (risosss) protagonizado por ele que me fez rolar de rir. Nesse clip o moleke "descerebrado" fazia o diabo com as leis da natureza - no mar, na terra, no ar. Pulava do telhado, surfava no asfalto, descia escada de skate, se estabacava e ria, ria. Era o mesmo domínio do corpo, o mesmo sorriso sacana daquele meu guri incontrolável, o mesmo jeito, quase kamikaze, de mergulhar de cabeça na vida. É claro que temi por ele, por sua intregridade física, e mostrei o clipe ao pai (não sei o que aconteceu depois). Mas, ao mesmo tempo, fiquei completamente fascinada com aquela ausência de medo, com aquela overdose de vida que não se dobra.

Gabriel sempre foi e sempre vai ser um menino especial e diferente, independente de idades e maturidades, e só os igualmente especiais e diferentes poderão compreendê-lo na íntegra.

Saudade do guri... E também do Rafinha, seu irmão mais sensato... Queria que fossem felizes neste "mondo cane".

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detalhe sugestivo na foto:
enquanto Rafael, sempre cauteloso, tenta me deter (atrás), Gabriel me puxa com força para frente, chutando o que vem pela frente. :)

Posted by meraluz at março 5, 2006 06:06 PM