dezembro 17, 2011

Trajetória dos erros

Primeiro, tenta-se a estratégia, a razão pura e kantiana, a lógica dialética, o bom senso, o caminho linear e claro, e todos os recursos racionais. Você sinaliza, aponta, tenta acertar, tenta impedir o pior, mas não lhe ouvem, não lhe atendem, não lhe entendem - ou não querem entender. Depois, vêm as contorções, as confusões, as contrações, as digladiações, as turbulências emocionais, o inconformismo, a impotência. Você quer salvar a história, a qualquer preço, por achar que é uma história maior, mas não lhe ouvem, não lhe atendem, não lhe entendem - ou não querem entender. Segue-se então uma certa melancolia, a frustração de ver que a história lhe escapa das mãos, e já não há como conduzi-la unilateralmente. Você ainda tenta mais um pouco, porém já bem mais desacreditado. Palavras e movimentos se desencontram, sintonias se perdem, encantos se desfazem, e a plenitude vai se esfacelando paulatinamente. Nada mais parece inteiro, absoluto, inabalável, íntegro, no lugar. Não há lugar. Tudo é fração, e, por ser fração, perde força. Mais uma vez, agora sem tantas expectativas, você insiste em refazer o pequeno feudo encantado e feliz. Mas não lhe ouvem, não lhe atendem, não lhe entendem - ou não querem entender. Por fim, e por cansaço de dar murros em ponta de faca, de não compreender e de não ser compreendido, chega-se ao 'tanto faz', que é a mais medíocre das posturas, mas, certamente, a menos dolorosa. Estaria tudo certo, não fosse um único inconveniente do 'tanto faz': o risco de não guardar boas e grandes memórias, limitando-se à pequenez de banalizar tudo o que foi imenso com suas propriedades anestésicas. Mas agora tanto faz...!


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outubro 09, 2011

Memórias cifradas

Um dia eu fui crédula. E, sem barreiras, deixei o amor entrar e de mim se apoderar por completo. Foi coisa de primeira vista, de compreender o sentido da vida inteira num sorriso ou num olhar. Um encontro que aconteceu só para que eu pudesse experimentar o maior êxtase e a maior agonia. Um amor que conheceu a turbulência das ressacas e a mais azul das calmarias; a delicadeza das pétalas e a aspereza dos espinhos; a luz suprema e a escuridão; a magia das músicas e o desespero dos uivos. Era assim, feito de extremos. De pele e de alma; de chegadas e partidas; de generosidades e lacunas; de cuidados e maus tratos.

Viveu-se tudo naquele breve intervalo do tempo. Um sonho encantado, antecipadamente condenado a não existir nos limites do real. No fundo, sabia-se que a realidade e as águas mornas do cotidiano exterminariam todo o sentimento. Assim são os sonhos, enquanto sonhos.

Hoje guardo este amor em meu acervo de histórias eternas e interrompidas. Nada há de apagar cenas e cenários onde a breve sensação de plenitude se fez presente. Cenas e cenários mágicos, só decifráveis por um código interno e secreto entre os personagens, como por exemplo:

- O primeiro almoço e um convite recusado para viajar de trem;
- Um band-aid no meio da trilha da Floresta da Tijuca;
- Um avião no céu, a atrapalhar a partida de tênis;
- Um cavalo alado;
- Uma igrejinha na Lapa;
- Bicicleta e água de coco na orla;
- Um cinzeiro e um dedo quebrado;
- Carimbos de amor...

e tantas outras indeléveis memórias cifradas de felicidade.

Mas teve o lado negro. Também vi o chão sumir sob meus pés ao saber da hora da partida. Sumiu o chão porque não dividiríamos mais o mesmo chão, nem o mesmo céu, nem a mesma luz, nem as mesmas estações. Eu não havia sido preparada para a cisão, o coração não entendia, a pele não entendia. Era um amor entranhado, visceral. Doeu fundo. Rasgou a alma. Devastou os sonhos. E a esperança se calou no adeus. E eu precisei morrer um pouco para sobreviver em uma outra, que ressuscitaria das trevas.

Paixão assim nunca mais. É coisa de exaustão, de ser vivida uma única vez. Ficam na distância e no tempo as melhores lembranças, que afloram eventualmente ao acorde de uma música ou de um lugar testemunhal. E então a gente se pergunta: como foi possível amar assim?


Posted by Blue Note at 12:23 PM

outubro 05, 2010

Waves


Posted by Blue Note at 06:22 PM

maio 19, 2010

Vá...

Vá, vá... Vá, porque a vida segue. Só não me procure em outros rostos, em outras máscaras, em outros seres, pois que será em vão. Bem sabe que não haverá de me encontrar em qualquer outra possibilidade humana. Não beberá em outra fonte a água que bebeu de mim, não ouvirá de outras bocas palavras que ouviu de mim, não escreverá com outras mãos histórias que juntos rabiscamos. Mas vá, vá... Vá viver novas histórias, novos sonhos ou mentiras; experimentar novos 'sentires', talvez melhores, talvez não, mas nunca iguais. Vá buscar novos caminhos, novos carinhos - artifícios de iludir e distrair a solidão que todos, no fundo, somos. E, se quiser ser feliz, dissolva as nossas memórias, apague delas minhas impressões digitais e livre-se dos códigos secretos. Navigare necesse est, vivere non est necesse. Há outros inexplorados oceanos à espera. Meus mares já foram sondados e perderam o mistério. Vá, vá... Refaça a história ou deixe esta tarefa por conta do destino, se quiser lavar as mãos ao invés de usá-las. Mas, por favor, me exclua do passado, porque sempre preferi ser um eterno presente, assim como a música, que vibra, do começo ao fim, a cada vez que toca, sem se prender ao tempo. Limpe das lembrancas os tropeços e as trapaças, apague todas as pistas. Não me queira bem, não me queira mal. Vá, vá... Vá, porque você já se tinha ido mesmo antes do decreto do fim. Vá, antes que eu compreenda que você não era você, e minha compreensão se entristeça. Vá, porque preciso ir também. Vá, porque, na verdade, você nunca esteve em mim. E, se possível, tente ser feliz... Eu farei o mesmo.


Posted by Blue Note at 10:11 PM

maio 17, 2010

FLAMENGO É ISSO!

E mais:

Um texto de Rica Perrone (que se diz são paulino), para ficar registrado:

Era um dia frio, sem chuva. Seria um dia chato, não fosse o Maracanã lotado e a expectativa de um título. Ele não era fanático, sequer tinha visto o estádio lotado na vida, até então. Tinha 13 anos e torcia, timidamente, para o Palmeiras, apesar de morar no RJ.

Naquele domingo seu pai o levou na final. De bandeira, camisa e ingresso na mão, chegou assustado com a multidão. Entrou faltando 15 minutos pra começar e, quando olhou em volta, disse: “Pai, quantas pessoas tem aqui?!?”.

- Muitas, filho… uma nação inteira, disse o pai.

Aquela multidão explodiu em faixas, bandeiras e papel picado minutos depois. O garotinho se encolheu com medo e sentou. Com 1 minuto de jogo a torcida levantou e não deixou que o guri visse mais nada. Ele ouvia, sentia, mas não assistia.

Seu pai, rubro-negro fanático, não tinha muita esperança de que seu pivete palmeirense um dia se envolvesse com futebol. Jamais mostrou grande interesse, e só torcia porque tinha um amigo que era palmeiras.

O Flamengo saiu ganhando, mas não bastava. Tinha que ser com 2 gols de diferença, ou nada. Seu pai explicou que “faltava um”, e o garotinho não entendeu. Afinal… vitória não é vitória de qualquer jeito?

Sofreu um gol, e ele não tirou sarro do pai como sempre fazia. Ficou triste, como que contagiado pela multidão. O outro lado, 40% do estádio apenas, fazia barulho, e ele ouvia o silencio da nação a sua volta. Segundo ele, o silencio mais dolorido que já escutou na vida.

O Flamengo fez o segundo, e o garotinho, se envolvendo com o jogo, vibrou. Pulou no colo do seu pai e o abraçou como se fosse um legítimo urubuzinho.

Não era, ainda.

A torcida começou a cantar o hino, que ele sabia de cor de tanto ouvir o pai cantar. Pela primeira vez, cantou num estádio, e fez parte da nação. A angustia de milhares não passou em branco. Em mais alguns minutos o garotinho suava e já rezava de mãos grudadas ao peito.

O Flamengo virou, mas não bastava.

CONTINUA...

Posted by Blue Note at 12:39 PM

janeiro 02, 2010

Para Iara

Dia 2 de janeiro, aniversário de Iarinha - minha melhor e maior amiga; a irmã que meu coração escolheu, desde os 7 anos de idade. Décadas se passaram e cá estamos, unidas pelo mesmo afeto de sempre. Este post (fora do meu estilo e um tanto sentimentaloide, eu diria) é pra você, Iaiá.

iaraemarcia.jpg

Você lembra, Iaiá? Lembra quando brincávamos de miss no corredor do seu prédio? Você me dava as melhores medidas (tornozelo 21, cintura 58, busto 42, etc.), e eu, por ignorância métrica, esculhambava com as suas (tornozelo 15, cintura 75, busto 50, etc.)?

Você lembra, Iaiá? Lembra dos doces da Pastitália, que devorávamos em êxtase? Mil-folhas, bombas de chocolate, palmiers (você adorava palmiers).

Você lembra, Iaiá? Lembra quando eu exibia minhas unhas compridas, no auge dos meus 13 anos, e você, de maldade, passava a tesoura nelas, dizendo que era moda?

Você lembra, Iaiá? Da turma de Lambari, naquela noite estrelada, quando caminhávamos pelo campinho de futebol cantando "A Estrela Dalva" para as estrelas?

Você lembra Iaiá? Lembra daquele dia, num barzinho lá da Barra, em que eu, eufórica, dizia ter visto um disco voador, e você me desmoralizava na frente do povo, falando que eu costumava ver discos voadores toda vez que bebia?

Você lembra, Iaiá? Daquela cena na boate em Lambari, quando distraidamete, ao gesticular com ênfase, entornei um cálice de vinho tinto na bata branquinha e engomada que você ostentava, toda exibida? Pensei que fosse me fuzilar com os olhos. Desde então, você nunca mais sentou de frente pra mim, quando bebíamos, alegando que eu tinha problemas de coordenação motora.

Você lembra, Iaiá? Quando fomos a Teresópolis no seu fusca vermelho pegar um flagra do Edu (meu namorado de 5 anos) com outra? E pegamos - adeus namoro. Lembra que na volta, você desceu a serra ventada, para que ele não nos alcançasse? Foi a única vez que fiz Teresópolis-Rio em 40 mins. E eu nem chorei, né?

Você lembra, Iaiá? Daquela Semana Santa em Arraial do Cabo? Aconteceu de tudo na simpática casinha estilo mediterrâneo que a gente alugou: rato no quarto, campainha disparando na madrugada, um auê só. Estavam conosco aquela porra louca apiranhada da minha amiga Sônia e a sua romântica amiga Jurema. Eu nunca me esqueci da lua na estrada, quando resolvemos esticar a noite em Búzios. Que lua!... No rádio do carro tocava Djavan.

Você lembra, Iaiá? Daquele réveillon em uma cobertura no bairro do Flamengo, casa de uns amigos meus, quando o meu chapéu vermelho voou pelos ares? Você achou que eu ia voar junto, atrás do chapéu, que eu tanto amava, e armou o maior escândalo, a ponto de o pessoal te apelidar de "rolo compressor"?

Você lembra, Iaiá? Quando você foi me buscar às 5 da manhã na Tijuca, porque não tinha táxi e eu tinha brigado com o meu então namorado, o fotógrafo doidão, numa festa? Se fosse hoje, certamente eu teria sido assaltada.

Você lembra, Iaiá? De quando eu estava no auge da crise conjugal com o M., e você entrava lá em casa com o dedo em riste pra cima dele, pagando geral e discutindo com meu ex-marido por mim? (risos) E eu, que não gostava muito do esforço das brigas (muito trabalho), ia pro quarto, e deixava os dois batendo boca?

Você lembra, Iaiá? Das manhãs de domingos em que a gente ia ler o jornal no Restaurante dos Esquilos, na Floresta da Tijuca? Parecia até que D.Pedro ia adentrar o recinto a qualquer momento.

Você lembra, Iaiá? Daquela cena no restaurante Sol & Mar, quando você se desmanchava em elogios ao texto que César tinha publicado no jornal pra mim, dizendo que as "meninas" do seu trabalho chegaram a chorar, e o Hermes, em sua espontaneidade, detonou a autoestima do "trovador", dizendo: "Mas lá só tem ignorante!"?

Você lembra, Iaiá? Dos finais de semana no sítio em Macacu? Você passava mais tempo dormindo com o seu parzinho na época do que outra coisa. Muito sociável mesmo... :)

Você lembra, Iaiá? De como nossas mães eram amigas?

Você lembra, Iaiá? Das praias nos finais de semana em São Conrado, em frente ao único "prédio branco" da orla? Hoje tá tudo diferente. E das batidas de pêssego do Cavaco? E das batidas de coco do Osvaldo?

São tantas as cenas, tantos os cenários, tantas as memórias, tantas as cumplicidades. Quando nos conhecemos, nos castelos encantados da nossa infância, selávamos, sem saber, um pacto que duraria por toda uma vida. Ninguém me conhece melhor que você; ninguém, além de você, conhece meus códigos secretos. A gente se entende pelo olhar, pelo tom de voz e pelo silêncio. Obrigada por ter nascido, por ter se transformado na melhor amiga que alguém pode ter, pelo carinho sincero que nunca morreu. Apesar de hoje você estar geograficamente um pouco mais distante, tudo permanece no lugar. Não há fronteiras nem distâncias que possam afetar uma amizade deste quilate.

FELIZ ANIVERSÁRIO!

Da sua amiga de sempre.
M.


Posted by Blue Note at 08:23 PM

dezembro 16, 2009

Trilhos de Luz

easy rider

Hoje pego o primeiro trem

Que sai da tua estação.

Longe, pra sempre longe

Do teu sentido sem sentido

Da tua ausência de direção.

Não mais paisagens

Que os sonhos inventaram;

Reversa viagem

Ao meu próprio lugar.

Meu trem chegou...

Parto pra sempre

Do lugar que é teu.

Na bagagem, os verbos

Que a gente esqueceu:

Viver, querer, transcender...

Meu trem chegou...

Um outro trem, com rota inversa

Daquele que te levou

Para longe de mim,

Para longe de ti.

Adeus, parto em busca

De todas as buscas de mim

Trilhos de luz, sim.

(1997)

Extraído da coletânea: http://www.eletras.net/coffee/poemas.htm


Posted by Blue Note at 09:42 PM

dezembro 02, 2009

Caminhos e descaminhos

Se um dia a presença se transformar eu ausência, fique com o melhor de mim. Descarte meus lixos, meus lodos, meus resíduos mais tóxicos, minhas sombras... Cate pelo asfalto dessa imensa estrada de nós dois a poesia, os risos, as asas, os nonsenses sem peso, as piadas que foram salvas, os sofismas inúteis, todas as músicas, todas as estrelas e todas as cores. São matérias-primas suficientes para compor uma boa memória e uma saudade encantada.

Não sei por quanto tempo mais habitarei a sua vida ou você a minha. Por mim, ficaria para sempre, enquanto houvesse sentido. Mas 'para sempre' talvez seja muito tempo. Afinal, os ventos sopram mudanças, levam e trazem novas 'acontecências', novos caminhos, novos olhares, novos personagens, deslocam pedras e dunas. Somos feitos de asas e não de algemas, e justo por isso sabemos que podemos nos desintegrar no espaço a qualquer momento, ou, ao contrário, nos mantermos imortais. Sabemos que podemos desafiar o tempo ou chegar a algum 'no way out' acidental. É o possibilismo que nos conduz.

Nem sei por que me explico tanto quanto a isso. Há uma linguagem silenciosa e eloquente que fala para além das palavras, que tudo sabe e a tudo explica. Não sei quanto chão ainda temos. Não importa. Importa é que houve sabedoria em não termos acelerado os passos ao longo do caminho. Só desta forma conseguiríamos prolongá-lo o máximo possível. Fomos bons andarilhos, daqueles que olham para os lados e percebem a inocência das marias-sem-vergonha e a profundidade dos penhascos, sem as urgências das chegadas. Onde haveria de dar esse caminho não era questão de nosso interesse. Nada de linearidades. O importante era perambularmos de mãos dadas, enquanto a vida permitisse. Enquanto fosse bom e houvesse paz.

Assim, em nome da beleza do caminho e do caminhar que se fez até aqui, quero que guarde o meu melhor, caso um dia nossas mãos se desenlacem ou o fim do caminho - se é que ele tem mesmo um fim - detenha os nossos passos nômades.


Posted by Blue Note at 11:01 PM

novembro 26, 2009

Amigos, eternos amores

amores de amigos

Não conseguiria me imaginar sem meus amigos. Não, não falo de amigos de circunstâncias, conveniência ou de personagens sociais. Falo dos laços fraternos que escolhemos em vida, para além da genética. Se algum dia não me restar mais qualquer motivo para ser feliz, ainda assim eu serei feliz por saber que os tenho. E sei que os tenho para sempre. Sim, para sempre, porque amizade verdadeira não fenece, não morre, não sucumbe.

E as nossas histórias se misturam e se respeitam. E o nosso cotidiano se faz trocar. E sabemos que estamos lado a lado, sem cobranças, sem a preocupação da perda, nas alegrias e nas tristezas. E assim vamos juntos atravessando o tempo, que muda nossas formas mas não muda nosso afeto.

Assim como eu, eles não são perfeitos. Se fossem perfeitos não seriam amigos. Tampouco nos agradam o tempo todo. Mas são parte de nós. Tenho orgulho da minha 'tribo'. Há os que me irritam com as campanhas antitabagistas, outros que me xingam porque furei compromissos, os que torcem o nariz porque falo o que não querem ouvir, em nome da sinceridade, e por aí vai. Mas assim é a vida, feita de diferenças, atrasos e desencontros. Entre uma declaração de afeto aqui e uma discussão ali, sabemos que representamos um bem precioso na vida de cada um. Sabemos que eles nos querem felizes, assim como torcemos por eles com toda a nossa força.

Como dizia Quintana, a amizade é um amor que nunca morre. E eu amo cada um desses personagens do meu afeto. Nunca poderia agradecer o que já fizeram por mim. E alguns nem sabem o tanto que já fizeram.

Meus amigos, meus eternos amores, obrigada por existirem!


Posted by Blue Note at 05:30 PM

novembro 15, 2009

Tem horas que...

nervousbreakdown.jpg

Tem horas que a gente tem vontade de mandar tudo à merda. Mas tudo o quê? Uma realidade, um sonho, um hábito, uma situação, uma relação, um projeto, não importa. O fato é que tem horas que a gente tem vontade de pressionar o "reset" e detonar todas as construções - reais ou imaginárias - existentes em nosso pequeno feudo. Geralmente, esses momentos ocorrem ou porque não estamos recebendo as respostas esperadas, ou porque nos sentimos diante de uma situação sem saída (no way out), ou porque há um detalhe fora do lugar, ou porque simplesmente não estamos num bom dia.

Porém, nessas horas em que a gente tem vontade de mandar tudo à merda, o melhor a fazer é dar uma pausa e aguardar um pouco. Precisamos saber exatamente o que estamos mandando à merda. E, na impulsividade, no imediatismo, não é possível ter essa consciência. Pode haver erros de interpretação, oscilações de humor, visões turvas e tantos outros fatores que são amigos da confusão. Então, nesses momentos de pouca tolerância, enfiemos a insatisfação momentânea naquele lugar e aguardemos um pouco mais. Não precisamos aguardar muito. Só o tempo de recobrar a real capacidade de avaliação dos fatos. Precisamos de certezas para medidas radicais. Precisamos constatar que os erros se repetem, que o detalhe fora do lugar não vai mesmo voltar ao seu local de origem, que não houve falhas de interpretação, e que não estamos num mau momento, daqueles de extrema sensibilidade, onde tudo adquire dimensões gigantescas e ilusórias.

Uma vez constatados os erros - ou as deficiências -, aí sim, podemos - e devemos - mandar tudo à merda. E sem estardalhaço, sem destemperos, sem gritos; se possível, até em silêncio, pois trata-se de uma decisão interior. Desta forma - e só desta forma -, não correremos o risco de futuros arrependimentos ou de cometer injustiças. Isso só levaria à desmoralização de nossos atos. Problemas devem ser eliminados. Mas antes é preciso saber se o problema é realmente um problema ou se é um problema ocasionalmente inventado, um problema-fantasma.


Posted by Blue Note at 02:14 PM

novembro 07, 2009

Você em palavras

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Arrisco-me a desenhar você em palavras porque qualquer tentativa de significação sempre exorta e depura um pouco da confusa abstração de certas ideias, sensações ou sentimentos. O olhar para fora em contraposição ao olhar de dentro desmitifica e clareia. Como é possível que faça parte de mim, sem fazer parte da minha vida? Como é possível que desperte em mim a própria vida, se nossas vidas não se encontram?

Você é como aquela canção antiga que vou ouvir sempre e sempre, e, a cada vez que ouvi-la, uma nota antes despercebida se apresentará. Você é como uma velha cabana onde tenho a impressão de já ter morado, com os móveis fora do lugar, a roupa estendida no varal, o chiar de uma chaleira sobre o fogo anunciando que a água ferveu. Vestígios de pés descalços pelo chão, lençóis desarrumados, horta no quintal, livro largado no sofá, marcado no capítulo interrompido por algum desejo mais importante que o desejo de leitura... Quem sabe já nos tenhamos encontrado antes, há séculos, milênios, em alguma longínqua estrela, sei lá...?

Uma vez rabisquei em algum lugar: "Se não te posso ter, contenta-me a fugaz ideia de te ter". E isso já é tanto... Querer você, reconhecer você, como se tivesse encontrado a password que dá acesso a um núcleo secreto do meu próprio sistema... Isso é tanto... Tanto e tão pouco. Tão simples e tão complexo. Tão delicado e tão denso. Tão software e tão hardware.

Onde essa estrada vai dar? Quem há de saber? Na verdade, o destino pouco importa. O mais provável é que não dê em lugar algum, à exceção das instâncias imaginárias. Mas pra que precisamos chegar a algum lugar, se às vezes parece que o nosso lugar é dentro um do outro, na forma que nos é possível?

O tempo passa e heroicamente continuamos a driblá-lo, entre palavras, músicas, imagens, ícones inventados, até onde der. Mas, se por acaso esse tempo - que faz e desfaz - triunfar e exterminar nossa "sweet connection", ao menos poderemos, com nossas memórias, desta ou de outras vidas, dizer: "Valeu! Conseguimos extrair o 'macro' do 'micro'. Conseguimos deixar por aí um rastro estelar, que certamente terá se estendido ao cosmo, na expectativa de, ao seu modo, se fazer eterno."


Posted by Blue Note at 11:00 AM

setembro 21, 2009

Eu tinha uma espinha na testa...

Anos 80

Eu tinha uma espinha na testa e uma marca de catapora... Tinha também alguns tímidos ideais e uma avidez imoral de aprender tudo. Brincava de ser livre dentro das minhas grades invisíveis. Era o tempo de Hermman Hesse, Castañeda, Nietzsche e tantos outros filósofos que viriam a me fazer mais pensar do que agir. Era o tempo de George Benson, Groover Washington Jr., Return to Forever e - por que não? - Raul Seixas e Belchior. Era o tempo da descoberta da Fotografia e de como enquadrar a existência através da minha velha Pentax (saudades), impiedosamente substituída pela banalidade de uma impostora digital.

Eu tinha uma espinha na testa, lembro-me dela como se ainda estivesse em minha fronte, assim como lembro da minha resistência ao seu registro na foto acima. Afinal, era uma espinha na testa, próxima à marca de catapora: dois ícones da imperfeição. Mas qual o problema se a vida é tão imperfeita? O problema é que, na fotografia, ela, a vida, deve sair toda arrumadinha, pronta para um porta-retrato mentiroso . Poderia photoshopar essa velha foto, se quisesse. Mas não... A poesia seria eliminada, a memória seria aviltada e o tempo trapaceado.

Poderia, ainda, contar mil histórias que se inscreveram nesse mágico intervalo do tempo - um divisor de águas. Poderia falar das minhas andanças e desandanças, de loucuras e lucidez, de sombras e translucidez, nessa época; de viagens subterrâneas e encontros definitivos, que viriam a resultar no produto nunca acabado que sou até aqui.

Mas, por respeito a esse tempo tão rico, tão profundo, prefiro nada dizer. O passado é uma espécie de templo sagrado e calado. Quero guardar em mim essas passagens, os personagens (alguns se foram), o sangue coagulado do corte epistemológico em minhas veias. Em exposição apenas a espinha na testa, capturada à revelia, por mais que um fotógrafo. A espinha secou, a cicatriz da catapora suavizou e algumas pequenas rugas se desenharam pelas mãos implacáveis do tempo, sossegando também a efervescência dos meus sonhos.


Posted by Blue Note at 07:38 PM

julho 19, 2009

Sobre a hora de partir

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Qual é a hora exata de partir? Difícil, muito difícil precisar esse "timing". Arriscaria dizer aqui que é quando o desconforto e uma sucessão de pequenas frustrações se sobrepõem ao bem-estar e à frequência do riso. Mas aí tem o coração no meio, atrapalhando tudo, atrasando as partidas, soprando esperanças de que amanhã tudo pode voltar a ser colorido e dizendo que as sintonias são assim mesmo intermitentes. Melhor não dar muito ouvidos a esse crédulo desvairado. A hora de partir é uma decisão, e decisões são tomadas com a cabeça, sem impulsos, sem pontos vulneráveis. Exigem que se pense, que se avalie, que se quantifique e, sobretudo, que se enxergue a realidade dos fatos. Não há nada mais concreto do que fatos. Adiar partidas para a hora do crepúsculo, para o momento em que os desejos começam a anoitecer ou a ser anoitecidos à nossa revelia é muito pior. É melhor sair enquanto emitimos alguma luz, enquanto pudermos, pelo menos, deixar na saída motivos para que sintam a nossa falta. Somos nós que determinamos o nosso próprio tamanho e o tamanho da nossa importância.

Sim, é doloroso sair de cena, se despedir de um espetáculo, de um sonho, de um laço ou de qualquer história que nos aqueça o coração. Mas mais doloroso é assistir ao ocaso dos sentimentos, é esperar por algum gesto ou alguma palavra que não vai acontecer ou reacontecer. Mais doloroso é chegar no "tanto faz". Mais doloroso é deixar que o tempo nos transforme, aos olhos do outro (ou vice-versa), em alguém comum, banal, qualquer. Não, isso não. Melhor sermos uma grande memória do que um pequeno fato que enfraquece e não mais consegue mover moinhos ou surpreender. Mas dói, e como dói... O único consolo é que, se a dor já for uma velha conhecida nossa, saberemos como lidar com ela até iniciarmos uma nova história (ou não).


Posted by Blue Note at 12:07 AM

junho 27, 2009

Goodbye, Michael :(

R.I.P., Michael. Eu tinha uma imensa ternura pela sua controversa, porém delicada, personalidade.
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A Stranger in Moscow

Gosto, particularmente desta música, que parece espelhar, em letra e melodia, toda a infinita solidão do Rei do Pop (pop, soul, rap e rock, mais exatamente).

Stranger in Moscow

Letra:

I was wandering in the rain
Mask of life, feelin’ insane
Swift and sudden fall from grace
Sunny days seem far away
Kremlin’s shadow belittlin’ me
Stalin’s tomb won’t let me be
On and on and on it came
Wish the rain would just let me be

How does it feel
(How does it feel)
How does it feel
How does it feel
When you’re alone
And you’re cold inside

Here abandoned in my fame
Armageddon of the brain
KGB was doggin’ me
Take my name and just let me be
Then a begger boy called my name
Happy days will drown the pain
On and on and on it came
In the rain, and again, and again
Take my name and just let me be

How does it feel
(How does it feel)
How does it feel
How does it feel
(How does it feel)
How does it feel
(How does it feel now)
How does it feel
How does it feel
When you’re alone
And you’re cold inside

How does it feel
(How does it feel)
How does it feel
How does it feel
How does it feel
How does it feel
(How does it feel now)
How does it feel
How does it feel
When you’re alone
And you’re cold inside

Like a stranger in Moscow
(Lord have mercy)
Like a stranger in Moscow
(Lord have mercy)
We’re talkin’ danger
We’re talkin’ danger baby
Like a stranger in Moscow
We’re talkin’ danger
We’re talkin’ danger baby
Like a stranger in Moscow
I’m livin’ lonely
I’m livin’ lonely, baby
A stranger in Moscow


Posted by Blue Note at 11:47 AM

maio 24, 2009

Declaração de amor no JB

Foi bonito. Eu fingi que acreditei. As metáforas são a perdição da lucidez...

Acho que foi num Dia dos Namorados qualquer. A matéria era paga, claro. Foi publicada no Jornal do Brasil. Não sei se eu merecia todas essas hipérboles. Mas era um lindo texto, que ocupou 1/4 da página e fez muita gente se emocionar.


Posted by Blue Note at 11:25 AM

maio 05, 2009

Sistema defensivo

Perigo à vista. Levantar todos os muros. Trancar portas e janelas. Apagar todas as luzes, para não provocar suspeitas de que estou em casa. Usar disfarces à luz do sol, todo e qualquer andrajo que seja o oposto de mim. E, se de nada adiantar, se o invasor chegar perto, correr, correr, correr, numa fuga alucinada, sem olhar pra trás. Questão de sobrevivência. É preciso proteger o coração e, sobretudo, a razão. É preciso assegurar o controle da nossa própria existência. É preciso, de todas as maneiras, evitar que roubem de nós a lucidez. Não me iludo. O invasor é belo mas é mau. Quer me estraçalhar, me detonar, me jogar ao chão, pelo simples prazer de, com a ponta de sua espada afiada, tocar meu peito e dizer: "touché!". O invasor é mau e mente. Talvez nem saiba que mente. Mas mente, e com tanta veracidade e beleza, que quase me faz acreditar que ele é todo o Bem. Levantar os muros, trancar as portas, para que eu não escape de mim.


Posted by Blue Note at 10:00 PM

abril 25, 2009

Eu era feliz?

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(passeio no passado)

Eu era feliz? Não necessariamente. Eu tinha vontade.

Eu fui feliz? Não permanentemente. Eu tive hiatos.

Eu sou feliz? Não, infelizmente. Tampouco infeliz sou.

Eu serei feliz? Mas que mania tem o ser humano de querer ser feliz!

Sejamos grandes, com ou sem felicidade!

Come on, Fernando Pessoa! Explain it to them:

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa.

Põe quanto és
No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive

(na pele de Ricardo Reis)


Posted by Blue Note at 01:59 AM

abril 14, 2009

Para se livrar da dor, deixe a dor doer!

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Melhor é não cairmos na tolice de lutar contra as dores. Essa medição de forças só ocasionaria dores adicionais. Aprendi que o caminho mais curto para se libertar da dor é deixá-la doer em paz, sem tensionar o corpo, sem amaldiçoá-la, sem a ânsia de um estado mais confortável. Dores existem. Tentar negá-las ou eliminá-las é negar a vida. Mas passam. Sempre passam. Vão e voltam ao longo desse acontecimento chamado vida. É a resposta que deve ser dada, por exemplo, a uma ausência, uma perda, uma impossibilidade, um machucado, uma disfunção, uma solidão, um sonho inexequível ou qualquer outra situação contrária ao êxtase ou ao bem-estar físico ou emocional.

Deixemos a dor doer. Estabeleçamos com ela relações de cumplicidade. Tentemos compreender a nós mesmo ao compreendê-la. Ela passa, ela sempre passa. Por si só, sai em busca de soluções e troca de lugar com algum possível prazer, só para nos ajudar. Basta que não lutemos contra ela ou contra seus movimentos em nós.

É conveniente, porém, que não mostremos a cara da dor ao grande público. A dor é íntima, é nossa e de mais ninguém. Não gosta de aparecer, pelo menos para muitos. Se soubermos acolhê-la sem alardes, então, quando ela se for, nos descobrirems mais fortalecidos e teremos aprendido a alçar voos mais vastos.


Posted by Blue Note at 03:22 PM

março 07, 2009

Imagem congelada

Não sei quem disparou o obturador que aprisionou esse instante da minha existência. Já se vão alguns anos. Como as fotos são perversas! Olho para mim mesma daqui do futuro e zombo dessa moça em desvantagem, parada no tempo. Em que pensava? O que sentia? De quantas coisas não sabia? Para onde andou depois do que o sol se pôs? Não lembro. Mas, certamente, andou e andou muito, até chegar em mim, que sou ela sem que ela saiba disto. Estou livre no futuro e ela presa na imagem. Sua juventude, guardei em mim. Ela não guardou nada, sequer imaginou os caminhos que percorri em seu lugar. Foi duro, foi duro chegar até aqui. Árduo trajeto de tropeços e recomeços, de êxtases e feridas. Perdi um pouco do viço de sua pele, das formas de seu corpo, do seu bronzeado de cetim, dos seus ingênuos sonhos. Mas, por outro lado, ganhei uma acervo de histórias e olhos de ver. Ganhei consistência, resistência... Segui adiante enquanto ela ficou lá parada num tempo que não volta mais.

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Posted by Blue Note at 04:58 PM

dezembro 31, 2008

Feliz Vida!

É oportuno iniciar este último post do ano citando Carlos Nejar:

O tempo é invenção humana, depois o homem também se transforma em invenção do tempo. No primeiro momento, é o tempo como invenção do homem, depois o homem fica tão enrolado na sua própria fundação, na sua própria invenção que ele perde a noção de si mesmo e fica todo ele olhando para o tempo.


Já fui invenção do tempo. Hoje prefiro ignorá-lo, ou melhor, vê-lo sob um outro prisma, onde passado, presente e futuro se fundem em um único fator. Assim, tenho a ilusão de estar mais próxima das estrelas, de redescobrir levezas que não são cortadas por horas, dias, meses ou anos.

Lá fora, a euforia de final de ano toma conta da cidade, com seus ébrios de cervejas, vinhos e esperanças que terminam logo ali. Há barulho, fogos, suores, sorrisos impostos. Todos prontos para dar início ao grande rito de passagem, com direito a contagem regressiva: em poucas horas 2008 vai mudar de roupa e se transformar em 2009. Desta vez, decidi não fazer parte do "grande rito". Quero o dia de hoje com jeito de dia comum, quero a serenidade, sem grandes expectativas, quero agradecer por ter chegado até este ponto do caminho inteira, com bons amigos por perto e a família saudável. Quero ouvir uma canção suave e não pensar no tempo, pelo menos não no tempo que se divide.

Por uma questão de hábito, apenas uma roupa branca, como se estivesse a chamar pela paz, e um gole de Veuve Clicquot à meia-noite. Até porque, sendo o champanhe feito de uvas, ele remete a uma sábia frase de Paracelso, que dá um drible no tempo:


Aquele que imagina que todos os frutos amadurecem ao mesmo tempo, como as cerejas,
nada sabe a respeito das uvas
.

Feliz...

Para quem marca o tempo, Feliz Ano Novo!
Para quem não marca, Feliz Vida!




Posted by Blue Note at 08:35 PM

dezembro 15, 2008

Sawabona Shikoba

texto de :: Flávio Gikovate ::


Não é apenas o avanço tecnológico que marcou o inicio deste milênio. As relações afetivas também estão passando por profundas transformações e revolucionando o conceito de amor.

O que se busca hoje é uma relação compatível com os tempos modernos, na qual exista individualidade, respeito, alegria e prazer de estar junto, e não mais uma relação de dependência, em que um responsabiliza o outro pelo seu bem-estar.

A idéia de uma pessoa ser o remédio para nossa felicidade, que nasceu com o romantismo, está fadada a desaparecer neste início de século. O amor romântico parte da premissa de que somos uma fração e precisamos encontrar nossa outra metade para nos sentirmos completos.

Muitas vezes ocorre até um processo de despersonalização que, historicamente, tem atingido mais a mulher. Ela abandona suas características, para se amalgamar ao projeto masculino.

A teoria da ligação entre opostos também vem dessa raiz: o outro tem de saber fazer o que eu não sei. Se sou manso, ele deve ser agressivo, e assim por diante. Uma idéia prática de sobrevivência, e pouco romântica, por sinal.

A palavra de ordem deste século é parceria. Estamos trocando o amor de necessidade, pelo amor de desejo. Eu gosto e desejo a companhia, mas não preciso, o que é muito diferente.

Com o avanço tecnológico, que exige mais tempo individual, as pessoas estão perdendo o pavor de ficar sozinhas, e aprendendo a conviver melhor consigo mesmas. Elas estão começando a perceber que se sentem fração, mas são inteiras. O outro, com o qual se estabelece um elo, também se sente uma fração. Não é príncipe ou salvador de coisa nenhuma. É apenas um companheiro de viagem.

O homem é um animal que vai mudando o mundo, e depois tem de ir se reciclando, para se adaptar ao mundo que fabricou. Estamos entrando na era da individualidade, o que não tem nada a ver com egoísmo. O egoísta não tem energia própria; ele se alimenta da energia que vem do outro, seja ela financeira ou moral.

A nova forma de amor, ou mais amor, tem nova feição e significado.
Visa a aproximação de dois inteiros, e não a união de duas metades.
E ela só é possível para aqueles que conseguem trabalhar sua individualidade. Quanto mais o indivíduo for competente para viver sozinho, mais preparado estará para uma boa relação afetiva.

A solidão é boa, ficar sozinho não é vergonhoso. Ao contrário, dá dignidade à pessoa. As boas relações afetivas são ótimas, são muito parecidas com o ficar sozinho, ninguém exige nada de ninguém e ambos crescem. Relações de dominação e de concessões exageradas são coisas do século passado.

Cada cérebro é único. Nosso modo de pensar e agir não serve de referência para avaliar ninguém. Muitas vezes, pensamos que o outro é nossa alma gêmea e, na verdade, o que fizemos foi inventá-lo ao nosso gosto.

Todas as pessoas deveriam ficar sozinhas de vez em quando, para estabelecer um diálogo interno e descobrir sua força pessoal. Na solidão, o indivíduo entende que a harmonia e a paz de espírito só podem ser encontradas dentro dele mesmo, e não a partir do outro. Ao perceber isso, ele se torna menos crítico e mais compreensivo quanto às diferenças, respeitando a maneira de ser de cada um.

O amor de duas pessoas inteiras é bem mais saudável. Nesse tipo de ligação, há o aconchego, o prazer da companhia e o respeito pelo ser amado. Nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém, algumas vezes você tem de aprender a perdoar a si mesmo...

Caso tenha ficado curioso(a) em saber o significado de SAWABONA, é um cumprimento usado no sul da África quer dizer "EU TE RESPEITO, EU TE VALORIZO, VOCÊ É IMPORTANTE PRA MIM". Em resposta as pessoas dizem SHIKOBA que é "ENTÃO EU EXISTO PRA VOCÊ".


Posted by Blue Note at 01:13 PM

outubro 23, 2008

Se o Gabeira Ganhar

(Martha Medeiros, Jornal Zero Hora, 08/10/2008)

Vote Gabeira!

“Sempre fomos amigos, ele é uma pessoa capaz e não pretendo vencer a qualquer preço.” O autor dessa frase é Fernando Gabeira, avisando que não engrossará o tom da campanha para enfrentar Eduardo Paes no segundo turno pela prefeitura do Rio.

Infelizmente, algumas mulheres e homens íntegros costumam dar férias para sua integridade durante campanhas eleitorais. Nessa hora, todo mundo vira leão e quer devorar o outro. Imagine um candidato admitir, antes do resultado final, que o adversário é um homem capaz. Por essas e outras é que a grande novidade desta eleição foi a votação expressiva de Gabeira, a despeito de todos os preconceitos que poderiam barrar a alavancagem de sua candidatura. Isso, por si só, já é uma vitória do Brasil – não só do Rio de Janeiro.

Se Gabeira ganhar, será a prova de que o brasileiro está votando de forma mais consciente e que cansou de ficar se lamentando em balcão de bar, repetindo a ladainha de que político é tudo igual.

Se Gabeira ganhar, saberemos que existe uma parcela da população que não tem medo de quem possui uma mentalidade aberta e que está apostando em novos horizontes, em quem tem experiência não só política, mas de vida.

Se Gabeira ganhar, finalmente teremos em um cargo público um homem que conversa com o eleitor feito gente grande, dizendo exatamente o que pensa, em vez de apelar para discursos fleumáticos e repetitivos, entulhado de jargões.

Se Gabeira ganhar, vai ser a recompensa merecida por ele ter peitado Severino Cavalcanti, dando nele um cala-boca que todos nós gostaríamos de ter dado na ocasião do “mensalinho”.

Se Gabeira ganhar, não será apenas o deputado federal que assumirá o cargo, mas também o escritor e jornalista que tantas vezes defendeu as liberdades individuais, os direitos humanos, as formas alternativas de viver em sociedade e que possui uma consciência ecológica que vem de muito antes disso virar moda.

Muitos políticos – inclusive Fogaça e Maria do Rosário, que disputarão o segundo turno aqui em Porto Alegre – já eliminaram a pose de super-heróis e a prosa característica dos “profissionais” do ramo, aqueles que dizem apenas o que o eleitor quer ouvir, sem compromisso com a viabilidade do que está sendo dito. Mas Fernando Gabeira, pela projeção nacional que tem e pela cidade problemática que pretende governar, é o fato eleitoral de 2008. É interesse de todos que o Rio resolva suas dificuldades, e que a política brasileira espane a caretice e ganhe um perfil mais corajoso e cosmopolita. Se ele será um bom prefeito, caso vença? Não tenho bola de cristal. Mas ter superado a desconfiança diante da sua biografia incomum já é motivo para comemorarmos."


Posted by Blue Note at 01:35 PM

junho 07, 2008

I pray for St. John Coltrane...

Templo para John Coltrane em San Francisco, onde seus fiéis seguidores tocam, cantam e dançam, em louvor ao deus do jazz.

Leia mais aqui.


Posted by Blue Note at 10:31 PM

março 01, 2008

Feliz Aniversário, Ma-ra-vi-lho-sa!

Feliz Aniversário, minha linda, maravilhosa, indescritível cidade. De tão apaixonada que sou por ti, jamais poderia ter nascido em outro lugar. Tua beleza me comove, porque é uma pintura diferente a cada dia, com novas luzes e cores, nessa explosão verde-azul. Tua gente risonha, cheia de charme - cariocas de nascimento, de adoção e de coração - é feita de festa, irreverência e alegria.

Rio de Janeiro - 443 anos

Infelizmente, teus "guardiões" não vieram para a festa com os merecidos e ansiados presentes. Condenaram-te ao abandono, ao risco, à desordem, à violência, às ruas sem iluminação, à impunidade dos que te ferem, à sujeira, poluição, às praças e jardins maltratados, a pouco investimento em tua cultura farta. Ignora teus detratores, Maravilhosa. Eles passarão. Talvez por isso tuas lágrimas caem hoje na forma de uma tímida chuva. Mas não tem nada não. Novos tempos virão, e com eles novos homens, espero, que hão de te cobrir de mimos e flores. Consola-te, pois, que tua beleza resiste a tudo, teu sorriso resiste a tudo, e teu Redentor, lá de cima, continua a te/nos abençoar.

Feliz Aniversário, minha paixão desvairada! Jamais irei me cansar de cantar tuas belezas, que inspiraram e continuam a inspirar tantas canções. Jamais vou me cansar de tuas mutantes paisagens e da voz rouca de tuas ruas.

Cariocas, de nascimento e de coração, brindemos hoje a este lugar encantado, que a todos ama e acolhe, sem distinção; a esta cidade que, não por acaso, resolveram chamar de "maravilhosa". A magia atende pelo nome de Rio de Janeiro, uma mocinha de 453 anos, nascida em 1.º de março de 1565, com a vocação de ser feliz.

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Não percam hoje, na Praia de Ipanema:

Haverá uma homenagem aos 50 anos de “Chega de Saudade”, música de Vinícius e Tom que marca o início da Bossa Nova, sendo considerado como o dia do ritmo. A prefeitura vai aproveitar a ocasião e comemorar os 443 anos da cidade do Rio de Janeiro.

Diversos artistas se reunirão na Praia de Ipanema para os festejos, entre eles estão cotados nomes como Maria Rita, Leila Pinheiro, Roberto Menescal, Fernanda Takai, Emílio Santiago, Joyce, Bossacucanova, João Donato, Carlos Lyra, Wanda Sá, Leny Andrade, Zimbo Trio, Marcos Valle e Oscar Castro Neves.

Para finalizar a festa, todos apresentarão juntos a canção “Se Todos Fossem Iguais a Você”.


Posted by Blue Note at 10:05 AM

fevereiro 15, 2008

Vida má

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Esta é a última foto do meu Brankinho, já bem doente. Minha ligação com esse gatinho se dava a nível cósmico. Alguma conexão mágica me unia a ele. Ao lado há um outro gato, o amigo de fé. A foto é o espelho da solidariedade. O amigo, convencido de que nada mais poderia fazer para reanimá-lo, limitou-se a ficar horas com a cabeça deitada sobre ele, em comunhão e cumplicidade, como se quisesse aliviar seu sofrimento. Ficaram ali juntinhos e em silêncio por toda uma tarde. Há quem diga que animais são seres inferiores. Mas eu insisto em discordar: são muito mais sábios do nós, reles humanos.

Meu Brankinho foi definhando após a ingestão de um antibiótico, ministrado por causa de tártaro, segundo informou a veterinária. Morreu. Não morreu de tártaro, obviamente, mas por causa dos efeitos violentos do antibiótico num corpinho já debilitado. Foi tão generoso que adiou sua partida, só para não ter que morrer no meu aniversário. Esperou até o dia seguinte.

Mas a morte não é nada. A vida é que é bandida, perversa. Foi a vida que o fez agonizar por mais de 10 horas, brigando à procura de ar, lutando para preservá-la, entre convulsões, dores e espasmos. Por mais de uma vez, levantei para levá-lo ao "sacrifício" e abreviar seu sofrimento. Mas, neste momento, ele emitia algum sinal de vida. Miava e arregalava os olhinhos como se dissesse: "Não! Deixa eu ficar mais um pouco com vocês". Não deveria eu ter lhe dado ouvidos. Abreviar o sofrimento da sua inocência era o mínimo que eu poderia fazer. Teria de sacrificá-lo, sim, já que o estado se agravava.

Há um vazio enorme agora dentro de mim. Não sei quando vou me recuperar deste dia, de ter presenciado tanta aflição e sofrimento. Em vão, tento me consolar, repetindo que ele deve estar em algum bom lugar, passeando nas nuvens, sem a prisão do corpo frágil e pesado, ao mesmo tempo.

Descanse em paz, meu Brankinho. Foram 10 anos de alegria.


Posted by Blue Note at 06:56 PM