outubro 09, 2011

Memórias cifradas

Um dia eu fui crédula. E, sem barreiras, deixei o amor entrar e de mim se apoderar por completo. Foi coisa de primeira vista, de compreender o sentido da vida inteira num sorriso ou num olhar. Um encontro que aconteceu só para que eu pudesse experimentar o maior êxtase e a maior agonia. Um amor que conheceu a turbulência das ressacas e a mais azul das calmarias; a delicadeza das pétalas e a aspereza dos espinhos; a luz suprema e a escuridão; a magia das músicas e o desespero dos uivos. Era assim, feito de extremos. De pele e de alma; de chegadas e partidas; de generosidades e lacunas; de cuidados e maus tratos.

Viveu-se tudo naquele breve intervalo do tempo. Um sonho encantado, antecipadamente condenado a não existir nos limites do real. No fundo, sabia-se que a realidade e as águas mornas do cotidiano exterminariam todo o sentimento. Assim são os sonhos, enquanto sonhos.

Hoje guardo este amor em meu acervo de histórias eternas e interrompidas. Nada há de apagar cenas e cenários onde a breve sensação de plenitude se fez presente. Cenas e cenários mágicos, só decifráveis por um código interno e secreto entre os personagens, como por exemplo:

- O primeiro almoço e um convite recusado para viajar de trem;
- Um band-aid no meio da trilha da Floresta da Tijuca;
- Um avião no céu, a atrapalhar a partida de tênis;
- Um cavalo alado;
- Uma igrejinha na Lapa;
- Bicicleta e água de coco na orla;
- Um cinzeiro e um dedo quebrado;
- Carimbos de amor...

e tantas outras indeléveis memórias cifradas de felicidade.

Mas teve o lado negro. Também vi o chão sumir sob meus pés ao saber da hora da partida. Sumiu o chão porque não dividiríamos mais o mesmo chão, nem o mesmo céu, nem a mesma luz, nem as mesmas estações. Eu não havia sido preparada para a cisão, o coração não entendia, a pele não entendia. Era um amor entranhado, visceral. Doeu fundo. Rasgou a alma. Devastou os sonhos. E a esperança se calou no adeus. E eu precisei morrer um pouco para sobreviver em uma outra, que ressuscitaria das trevas.

Paixão assim nunca mais. É coisa de exaustão, de ser vivida uma única vez. Ficam na distância e no tempo as melhores lembranças, que afloram eventualmente ao acorde de uma música ou de um lugar testemunhal. E então a gente se pergunta: como foi possível amar assim?

Posted by meraluz at 12:23 PM