É oportuno iniciar este último post do ano citando Carlos Nejar:
O tempo é invenção humana, depois o homem também se transforma em invenção do tempo. No primeiro momento, é o tempo como invenção do homem, depois o homem fica tão enrolado na sua própria fundação, na sua própria invenção que ele perde a noção de si mesmo e fica todo ele olhando para o tempo.
Já fui invenção do tempo. Hoje prefiro ignorá-lo, ou melhor, vê-lo sob um outro prisma, onde passado, presente e futuro se fundem em um único fator. Assim, tenho a ilusão de estar mais próxima das estrelas, de redescobrir levezas que não são cortadas por horas, dias, meses ou anos.
Lá fora, a euforia de final de ano toma conta da cidade, com seus ébrios de cervejas, vinhos e esperanças que terminam logo ali. Há barulho, fogos, suores, sorrisos impostos. Todos prontos para dar início ao grande rito de passagem, com direito a contagem regressiva: em poucas horas 2008 vai mudar de roupa e se transformar em 2009. Desta vez, decidi não fazer parte do "grande rito". Quero o dia de hoje com jeito de dia comum, quero a serenidade, sem grandes expectativas, quero agradecer por ter chegado até este ponto do caminho inteira, com bons amigos por perto e a família saudável. Quero ouvir uma canção suave e não pensar no tempo, pelo menos não no tempo que se divide.
Por uma questão de hábito, apenas uma roupa branca, como se estivesse a chamar pela paz, e um gole de Veuve Clicquot à meia-noite. Até porque, sendo o champanhe feito de uvas, ele remete a uma sábia frase de Paracelso, que dá um drible no tempo:
Aquele que imagina que todos os frutos amadurecem ao mesmo tempo, como as cerejas,
nada sabe a respeito das uvas.

Para quem marca o tempo, Feliz Ano Novo!
Para quem não marca, Feliz Vida!