dezembro 31, 2008

Feliz Vida!

É oportuno iniciar este último post do ano citando Carlos Nejar:

O tempo é invenção humana, depois o homem também se transforma em invenção do tempo. No primeiro momento, é o tempo como invenção do homem, depois o homem fica tão enrolado na sua própria fundação, na sua própria invenção que ele perde a noção de si mesmo e fica todo ele olhando para o tempo.


Já fui invenção do tempo. Hoje prefiro ignorá-lo, ou melhor, vê-lo sob um outro prisma, onde passado, presente e futuro se fundem em um único fator. Assim, tenho a ilusão de estar mais próxima das estrelas, de redescobrir levezas que não são cortadas por horas, dias, meses ou anos.

Lá fora, a euforia de final de ano toma conta da cidade, com seus ébrios de cervejas, vinhos e esperanças que terminam logo ali. Há barulho, fogos, suores, sorrisos impostos. Todos prontos para dar início ao grande rito de passagem, com direito a contagem regressiva: em poucas horas 2008 vai mudar de roupa e se transformar em 2009. Desta vez, decidi não fazer parte do "grande rito". Quero o dia de hoje com jeito de dia comum, quero a serenidade, sem grandes expectativas, quero agradecer por ter chegado até este ponto do caminho inteira, com bons amigos por perto e a família saudável. Quero ouvir uma canção suave e não pensar no tempo, pelo menos não no tempo que se divide.

Por uma questão de hábito, apenas uma roupa branca, como se estivesse a chamar pela paz, e um gole de Veuve Clicquot à meia-noite. Até porque, sendo o champanhe feito de uvas, ele remete a uma sábia frase de Paracelso, que dá um drible no tempo:


Aquele que imagina que todos os frutos amadurecem ao mesmo tempo, como as cerejas,
nada sabe a respeito das uvas
.

Feliz...

Para quem marca o tempo, Feliz Ano Novo!
Para quem não marca, Feliz Vida!



Posted by meraluz at 08:35 PM

dezembro 15, 2008

Sawabona Shikoba

texto de :: Flávio Gikovate ::


Não é apenas o avanço tecnológico que marcou o inicio deste milênio. As relações afetivas também estão passando por profundas transformações e revolucionando o conceito de amor.

O que se busca hoje é uma relação compatível com os tempos modernos, na qual exista individualidade, respeito, alegria e prazer de estar junto, e não mais uma relação de dependência, em que um responsabiliza o outro pelo seu bem-estar.

A idéia de uma pessoa ser o remédio para nossa felicidade, que nasceu com o romantismo, está fadada a desaparecer neste início de século. O amor romântico parte da premissa de que somos uma fração e precisamos encontrar nossa outra metade para nos sentirmos completos.

Muitas vezes ocorre até um processo de despersonalização que, historicamente, tem atingido mais a mulher. Ela abandona suas características, para se amalgamar ao projeto masculino.

A teoria da ligação entre opostos também vem dessa raiz: o outro tem de saber fazer o que eu não sei. Se sou manso, ele deve ser agressivo, e assim por diante. Uma idéia prática de sobrevivência, e pouco romântica, por sinal.

A palavra de ordem deste século é parceria. Estamos trocando o amor de necessidade, pelo amor de desejo. Eu gosto e desejo a companhia, mas não preciso, o que é muito diferente.

Com o avanço tecnológico, que exige mais tempo individual, as pessoas estão perdendo o pavor de ficar sozinhas, e aprendendo a conviver melhor consigo mesmas. Elas estão começando a perceber que se sentem fração, mas são inteiras. O outro, com o qual se estabelece um elo, também se sente uma fração. Não é príncipe ou salvador de coisa nenhuma. É apenas um companheiro de viagem.

O homem é um animal que vai mudando o mundo, e depois tem de ir se reciclando, para se adaptar ao mundo que fabricou. Estamos entrando na era da individualidade, o que não tem nada a ver com egoísmo. O egoísta não tem energia própria; ele se alimenta da energia que vem do outro, seja ela financeira ou moral.

A nova forma de amor, ou mais amor, tem nova feição e significado.
Visa a aproximação de dois inteiros, e não a união de duas metades.
E ela só é possível para aqueles que conseguem trabalhar sua individualidade. Quanto mais o indivíduo for competente para viver sozinho, mais preparado estará para uma boa relação afetiva.

A solidão é boa, ficar sozinho não é vergonhoso. Ao contrário, dá dignidade à pessoa. As boas relações afetivas são ótimas, são muito parecidas com o ficar sozinho, ninguém exige nada de ninguém e ambos crescem. Relações de dominação e de concessões exageradas são coisas do século passado.

Cada cérebro é único. Nosso modo de pensar e agir não serve de referência para avaliar ninguém. Muitas vezes, pensamos que o outro é nossa alma gêmea e, na verdade, o que fizemos foi inventá-lo ao nosso gosto.

Todas as pessoas deveriam ficar sozinhas de vez em quando, para estabelecer um diálogo interno e descobrir sua força pessoal. Na solidão, o indivíduo entende que a harmonia e a paz de espírito só podem ser encontradas dentro dele mesmo, e não a partir do outro. Ao perceber isso, ele se torna menos crítico e mais compreensivo quanto às diferenças, respeitando a maneira de ser de cada um.

O amor de duas pessoas inteiras é bem mais saudável. Nesse tipo de ligação, há o aconchego, o prazer da companhia e o respeito pelo ser amado. Nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém, algumas vezes você tem de aprender a perdoar a si mesmo...

Caso tenha ficado curioso(a) em saber o significado de SAWABONA, é um cumprimento usado no sul da África quer dizer "EU TE RESPEITO, EU TE VALORIZO, VOCÊ É IMPORTANTE PRA MIM". Em resposta as pessoas dizem SHIKOBA que é "ENTÃO EU EXISTO PRA VOCÊ".

Posted by meraluz at 01:13 PM