Primeiro, tenta-se a estratégia, a razão pura e kantiana, a lógica dialética, o bom senso, o caminho linear e claro, e todos os recursos racionais. Você sinaliza, aponta, tenta acertar, tenta impedir o pior, mas não lhe ouvem, não lhe atendem, não lhe entendem - ou não querem entender. Depois, vêm as contorções, as confusões, as contrações, as digladiações, as turbulências emocionais, o inconformismo, a impotência. Você quer salvar a história, a qualquer preço, por achar que é uma história maior, mas não lhe ouvem, não lhe atendem, não lhe entendem - ou não querem entender. Segue-se então uma certa melancolia, a frustração de ver que a história lhe escapa das mãos, e já não há como conduzi-la unilateralmente. Você ainda tenta mais um pouco, porém já bem mais desacreditado. Palavras e movimentos se desencontram, sintonias se perdem, encantos se desfazem, e a plenitude vai se esfacelando paulatinamente. Nada mais parece inteiro, absoluto, inabalável, íntegro, no lugar. Não há lugar. Tudo é fração, e, por ser fração, perde força. Mais uma vez, agora sem tantas expectativas, você insiste em refazer o pequeno feudo encantado e feliz. Mas não lhe ouvem, não lhe atendem, não lhe entendem - ou não querem entender. Por fim, e por cansaço de dar murros em ponta de faca, de não compreender e de não ser compreendido, chega-se ao 'tanto faz', que é a mais medíocre das posturas, mas, certamente, a menos dolorosa. Estaria tudo certo, não fosse um único inconveniente do 'tanto faz': o risco de não guardar boas e grandes memórias, limitando-se à pequenez de banalizar tudo o que foi imenso com suas propriedades anestésicas. Mas agora tanto faz...!

Hoje pego o primeiro trem
Que sai da tua estação.
Longe, pra sempre longe
Do teu sentido sem sentido
Da tua ausência de direção.
Não mais paisagens
Que os sonhos inventaram;
Reversa viagem
Ao meu próprio lugar.
Meu trem chegou...
Parto pra sempre
Do lugar que é teu.
Na bagagem, os verbos
Que a gente esqueceu:
Viver, querer, transcender...
Meu trem chegou...
Um outro trem, com rota inversa
Daquele que te levou
Para longe de mim,
Para longe de ti.
Adeus, parto em busca
De todas as buscas de mim
Trilhos de luz, sim.
(1997)
Extraído da coletânea: http://www.eletras.net/coffee/poemas.htm
Se um dia a presença se transformar eu ausência, fique com o melhor de mim. Descarte meus lixos, meus lodos, meus resíduos mais tóxicos, minhas sombras... Cate pelo asfalto dessa imensa estrada de nós dois a poesia, os risos, as asas, os nonsenses sem peso, as piadas que foram salvas, os sofismas inúteis, todas as músicas, todas as estrelas e todas as cores. São matérias-primas suficientes para compor uma boa memória e uma saudade encantada.
Não sei por quanto tempo mais habitarei a sua vida ou você a minha. Por mim, ficaria para sempre, enquanto houvesse sentido. Mas 'para sempre' talvez seja muito tempo. Afinal, os ventos sopram mudanças, levam e trazem novas 'acontecências', novos caminhos, novos olhares, novos personagens, deslocam pedras e dunas. Somos feitos de asas e não de algemas, e justo por isso sabemos que podemos nos desintegrar no espaço a qualquer momento, ou, ao contrário, nos mantermos imortais. Sabemos que podemos desafiar o tempo ou chegar a algum 'no way out' acidental. É o possibilismo que nos conduz.
Nem sei por que me explico tanto quanto a isso. Há uma linguagem silenciosa e eloquente que fala para além das palavras, que tudo sabe e a tudo explica. Não sei quanto chão ainda temos. Não importa. Importa é que houve sabedoria em não termos acelerado os passos ao longo do caminho. Só desta forma conseguiríamos prolongá-lo o máximo possível. Fomos bons andarilhos, daqueles que olham para os lados e percebem a inocência das marias-sem-vergonha e a profundidade dos penhascos, sem as urgências das chegadas. Onde haveria de dar esse caminho não era questão de nosso interesse. Nada de linearidades. O importante era perambularmos de mãos dadas, enquanto a vida permitisse. Enquanto fosse bom e houvesse paz.
Assim, em nome da beleza do caminho e do caminhar que se fez até aqui, quero que guarde o meu melhor, caso um dia nossas mãos se desenlacem ou o fim do caminho - se é que ele tem mesmo um fim - detenha os nossos passos nômades.