setembro 21, 2009

Eu tinha uma espinha na testa...

Anos 80

Eu tinha uma espinha na testa e uma marca de catapora... Tinha também alguns tímidos ideais e uma avidez imoral de aprender tudo. Brincava de ser livre dentro das minhas grades invisíveis. Era o tempo de Hermman Hesse, Castañeda, Nietzsche e tantos outros filósofos que viriam a me fazer mais pensar do que agir. Era o tempo de George Benson, Groover Washington Jr., Return to Forever e - por que não? - Raul Seixas e Belchior. Era o tempo da descoberta da Fotografia e de como enquadrar a existência através da minha velha Pentax (saudades), impiedosamente substituída pela banalidade de uma impostora digital.

Eu tinha uma espinha na testa, lembro-me dela como se ainda estivesse em minha fronte, assim como lembro da minha resistência ao seu registro na foto acima. Afinal, era uma espinha na testa, próxima à marca de catapora: dois ícones da imperfeição. Mas qual o problema se a vida é tão imperfeita? O problema é que, na fotografia, ela, a vida, deve sair toda arrumadinha, pronta para um porta-retrato mentiroso . Poderia photoshopar essa velha foto, se quisesse. Mas não... A poesia seria eliminada, a memória seria aviltada e o tempo trapaceado.

Poderia, ainda, contar mil histórias que se inscreveram nesse mágico intervalo do tempo - um divisor de águas. Poderia falar das minhas andanças e desandanças, de loucuras e lucidez, de sombras e translucidez, nessa época; de viagens subterrâneas e encontros definitivos, que viriam a resultar no produto nunca acabado que sou até aqui.

Mas, por respeito a esse tempo tão rico, tão profundo, prefiro nada dizer. O passado é uma espécie de templo sagrado e calado. Quero guardar em mim essas passagens, os personagens (alguns se foram), o sangue coagulado do corte epistemológico em minhas veias. Em exposição apenas a espinha na testa, capturada à revelia, por mais que um fotógrafo. A espinha secou, a cicatriz da catapora suavizou e algumas pequenas rugas se desenharam pelas mãos implacáveis do tempo, sossegando também a efervescência dos meus sonhos.

Posted by meraluz at 07:38 PM