
Arrisco-me a desenhar você em palavras porque qualquer tentativa de significação sempre exorta e depura um pouco da confusa abstração de certas ideias, sensações ou sentimentos. O olhar para fora em contraposição ao olhar de dentro desmitifica e clareia. Como é possível que faça parte de mim, sem fazer parte da minha vida? Como é possível que desperte em mim a própria vida, se nossas vidas não se encontram?
Você é como aquela canção antiga que vou ouvir sempre e sempre, e, a cada vez que ouvi-la, uma nota antes despercebida se apresentará. Você é como uma velha cabana onde tenho a impressão de já ter morado, com os móveis fora do lugar, a roupa estendida no varal, o chiar de uma chaleira sobre o fogo anunciando que a água ferveu. Vestígios de pés descalços pelo chão, lençóis desarrumados, horta no quintal, livro largado no sofá, marcado no capítulo interrompido por algum desejo mais importante que o desejo de leitura... Quem sabe já nos tenhamos encontrado antes, há séculos, milênios, em alguma longínqua estrela, sei lá...?
Uma vez rabisquei em algum lugar: "Se não te posso ter, contenta-me a fugaz ideia de te ter". E isso já é tanto... Querer você, reconhecer você, como se tivesse encontrado a password que dá acesso a um núcleo secreto do meu próprio sistema... Isso é tanto... Tanto e tão pouco. Tão simples e tão complexo. Tão delicado e tão denso. Tão software e tão hardware.
Onde essa estrada vai dar? Quem há de saber? Na verdade, o destino pouco importa. O mais provável é que não dê em lugar algum, à exceção das instâncias imaginárias. Mas pra que precisamos chegar a algum lugar, se às vezes parece que o nosso lugar é dentro um do outro, na forma que nos é possível?
O tempo passa e heroicamente continuamos a driblá-lo, entre palavras, músicas, imagens, ícones inventados, até onde der. Mas, se por acaso esse tempo - que faz e desfaz - triunfar e exterminar nossa "sweet connection", ao menos poderemos, com nossas memórias, desta ou de outras vidas, dizer: "Valeu! Conseguimos extrair o 'macro' do 'micro'. Conseguimos deixar por aí um rastro estelar, que certamente terá se estendido ao cosmo, na expectativa de, ao seu modo, se fazer eterno."
Posted by meraluz at novembro 7, 2009 11:00 AM