Vá, vá... Vá, porque a vida segue. Só não me procure em outros rostos, em outras máscaras, em outros seres, pois que será em vão. Bem sabe que não haverá de me encontrar em qualquer outra possibilidade humana. Não beberá em outra fonte a água que bebeu de mim, não ouvirá de outras bocas palavras que ouviu de mim, não escreverá com outras mãos histórias que juntos rabiscamos. Mas vá, vá... Vá viver novas histórias, novos sonhos ou mentiras; experimentar novos 'sentires', talvez melhores, talvez não, mas nunca iguais. Vá buscar novos caminhos, novos carinhos - artifícios de iludir e distrair a solidão que todos, no fundo, somos. E, se quiser ser feliz, dissolva as nossas memórias, apague delas minhas impressões digitais e livre-se dos códigos secretos. Navigare necesse est, vivere non est necesse. Há outros inexplorados oceanos à espera. Meus mares já foram sondados e perderam o mistério. Vá, vá... Refaça a história ou deixe esta tarefa por conta do destino, se quiser lavar as mãos ao invés de usá-las. Mas, por favor, me exclua do passado, porque sempre preferi ser um eterno presente, assim como a música, que vibra, do começo ao fim, a cada vez que toca, sem se prender ao tempo. Limpe das lembrancas os tropeços e as trapaças, apague todas as pistas. Não me queira bem, não me queira mal. Vá, vá... Vá, porque você já se tinha ido mesmo antes do decreto do fim. Vá, antes que eu compreenda que você não era você, e minha compreensão se entristeça. Vá, porque preciso ir também. Vá, porque, na verdade, você nunca esteve em mim. E, se possível, tente ser feliz... Eu farei o mesmo.
Posted by meraluz at maio 19, 2010 10:11 PM