agosto 29, 2010
Votem no meu blog! :)
Estou concorrendo ao 2º Prêmio Blogbooks com o blog "Por quê? - Crônicas das Sobrevivências", que nada mais é do que uma seleção de textos extraídos deste Quelque Chose.
Agradeceria àqueles que gostam dos meus textos se pudessem votar no meu blog. Pode votar quantas vezes quiser até o dia 12/09/2010.
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meraluz
at 02:56 PM
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fevereiro 17, 2010
Desperdício
Por que levamos anos para conhecer uma pessoa e, quando achamos que finalmente já a conhecemos, chega um vento, um fato, um dado novo, e nos mostra que o que conhecemos não passou de uma farsa mal-acabada? Isso,sim, é o que eu chamo de desperdício de tempo e de boas intenções...
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meraluz
at 10:32 AM
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fevereiro 10, 2010
'Lixeiratura'
Por que as histórias terminam? Para que outras se iniciem. E tudo é história, até a ausência de histórias. Algumas são marcantes, outras marcadas. Algumas são banais, outras legais. Algumas são extensas, outras intensas. Algumas inesquecíveis, outras impossíveis. Algumas são doidas, outras são doídas. Tudo é história. Que importa se a próxima será melhor ou pior? Memorável ou medíocre? Que importa o final? Importa é ir virando as páginas e se fazer contar, ainda que lancemos a vida numa grande "lixeiratura".
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meraluz
at 01:05 AM
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fevereiro 7, 2010
A dor de não despencar
E então, quando menos se espera, a gente leva um golpe. Até aí nada de inusitado. Golpes acontecem a todo instante, a diferença está em como cada um lida com eles. Então eu pergunto: de quem é a dor maior? De quem se descabela, se desorienta, se fragiliza, veste o papel de vítima, inspira culpa, cuidados e piedade? Ou de quem segura a onda; daquele que, como uma árvore, morre de pé, que reza sua dor em silêncio, que briga com todas as tensões e encara o rosto feio das mágoas para, num esforço sobre-humano, tentar seguir em frente sem fazer alardes, sem insistências vãs, sem se tornar um peso pra quem quer que seja? Fica no ar a questão. O sibilante choro dos 'ingênuos' ou a discreta contenção dos 'fortes'? Seria o frágil tão frágil e o forte tão forte? Muitas vezes, é justamente o inverso, e é preciso relativizar.
Já estive nos dois lados. No começo dessa longa estrada, fiz barulho, gritei, chorei e apelei, inconformada. E, enquanto duelava comigo e com o mundo, achando que não suportaria golpes e perdas, a dor ia se dissipando, sem que eu percebesse, até sumir por completo. Passado algum tempo, já nem me lembraria mais das tão dramáticas contusões. Era muito fácil passar para uma próxima etapa, até por causa das hemorragias. Ainda havia uma sucessão de golpes pela frente. Mas, ao longo dessa corrente de desassossegos, passei a achar feio as reações intempestivas, primárias e estridentes. Ainda que eu conseguisse lucrar algo com elas, nada acontecia pelo que eu era, pelo fluxo natural da vida, mas pela pressão, pelo pieguismo, pelo cansaço, e muitas vezes pelo desconforto que eu, intencionalmente, causava no outro.
Então passei para o outro lado, 'precisei ser forte'. Não desmontar, não despencar, não desarrumar os cabelos, não borrar a maquiagem, não me esquecer das outras peças da engrenagem, por mais lacerante que fosse uma situação. Não que os 'fracos' confessos sejam seres desprezíveis, mas é que a vida não os perdoa, e, no fundo, nem eles mesmos. Fraquezas todos temos, ou não seríamos humanos. Mas a vida não gosta da sua cara (da fraqueza), tampouco a respeita. E aos que não querem pagar o preço de expor suas fraquezas não resta outra escolha senão se armar de uma pseudofortaleza. E aí, além de sofrerem as dores lancinantes de golpes, perdas ou danos, ainda carregarão o peso dessa consciência. E como dói não poder despencar! Como dói ter de prosseguir nas frias trilhas dessa relativa e aparente lucidez. Como dói não berrar a nossa dor, neutralizar nossos espasmos, sofrer para dentro.
As pessoas olharão para esses 'frágeis às avessas' e dirão: "Eles sabem se virar, são bem resolvidos!". E muito pouco lhes darão, por acharem que não é necessário. Mais ocupadas com os carentes de plantão que as sugam, são incapazes de imaginar como é pungente, naqueles que 'sabem se virar', a dor de não despencar. Estão longe de perceber que, para que isso acontecesse, foi preciso que esses patéticos 'equilibristas', que trazem na alma um quê quase chapliniano, fizessem morrer dentro deles um pedaço da própria vida. Um pedaço que morreu de pé, sem despencar.
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meraluz
at 12:00 AM
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fevereiro 3, 2010
A história de Maria Vitória
Agora que passara dos 30, Maria Vitória cismou de querer casar. Queria ter filhos, constituir família, de preferência com um parceiro que fosse homem de bem e lhe pudesse oferecer padrão de vida estável. Queria se casar. Já estava cansada de aventuras, de amores efêmeros, de viver o imprevisível. Com o tempo, sua meta transformou-se em obsessão. Procurava marido em qualquer canto; nas ruas, nas festas, em velórios e casórios. Nas noitadas não, porque homens disponíveis em casas noturnas eram... noturnos. Ou seja, não passavam mesmo de uma noite; uma noite lasciva - regada a champagne ou cerveja, dependendo do nível. Voltou-se ela, portanto, para este fim: casar e levar uma vida certinha. Frequentava cursos e inventava atividades em cujo ambiente pudesse estar aquele que viria a realizar o seu sonho maior. Queria tudo nos moldes tradicionais: casar na igreja, vestida de branco, jogar o buquê, posar para fotos cruzando tacinhas de cristal... Enfim, tudo a que tinha direito.
Porém, apesar de envidar todos os seus esforços nessa busca alucinada, o noivo nunca aparecia. O tempo passava e o máximo que conseguia era uma série de promessas baratas, com posterior saída à francesa. Quando o sujeito desconfiava da real intenção de Maria Vitória, dava logo um jeito de inventar viagens, problemas, doenças ou qualquer outro tipo de pretexto para pular fora do barco que o levaria à 'forca'. Mas Maria Vitória não desistia, queria porque queria casar. Àquela altura já era uma questão de honra. Não iria morrer solteirona. Começou a ficar deprimida, recolhida. Esquivou-se dos amigos, deixou de lado tudo o que a fazia sorrir ou deleitar-se, de alguma forma. Desorientada, entrou para a Igreja Universal do Reino de Deus. Lá certamente haveria de encontrar um marido. E finalmente, em nome de Jesus, encontrou. Aleluia, irmãos! Ezequiel era seu nome, um pequeno comerciante, de pouca cultura, mas trabalhador, honesto e... fanático. (clique aqui para continuar a história de Maria Vitória)
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meraluz
at 02:08 AM
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janeiro 27, 2010
Não ficar no problema, porém sem dele fugir.
Optar por não ficar no problema não significa dele fugir. Fugir do problema é quando se desconversa, quando não se enfrenta as verdades, quando não se encara os fatos, quando se mascara uma realidade. A fuga é um movimento fácil. E é o que a maioria faz para evitar desconfortos imediatos. Há sempre uma porta que foi esquecida aberta ou passagens subterrâneas que levam à ilusão de um outro lugar.
Já escolher não ficar no problema exige muito mais de nossas forças e de nossa compreensão. Neste caso, a gente enxerga tudo, constata o obstáculo e sai sem fugir, espreitado pelo olhar vigilante da consciência. Sai porque entende que permanecer no que foi percebido como problema é o caminho mais fácil para se perder e se ralar. A fuga, mais cedo ou mais tarde, será sempre surpreendida pela própria vida que vem nos cobrar. Mas a opção consciente de não ficar é quase um ato de heroísmo, é uma escolha dolorosa para evitar dores maiores.
Um problema é sempre um problema, desde o momento de seu diagnóstico. E insistir nele é uma teimosia improfícua. A melhor solução é, a meu ver, tentar eliminá-lo, sobretudo se o impasse não se resolve e torna a se repetir e repetir. Porém, sem fugir... Assumindo todos os ônus e riscos, sentindo as dores de todas as lesões que essa escolha ocasiona.
Mas, afinal, o que é um problema, aqui neste contexto? - alguém poderá indagar. Um problema é tudo aquilo que suprime o bem-estar, que gera tensão, desassossegos ou inseguranças, eu diria. E quem gosta e consegue conviver com isso a longo prazo pode estar a um passo da insensatez. Eu não, eu não...
Fugir não fujo, mas escolho não ficar.
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meraluz
at 10:54 PM
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janeiro 24, 2010
Poema sem poema
Eu queria fazer um poema
Sem regras, sem temas...
Mas como fazê-lo
Se de mim levaram a poesia?
Como fazê-lo
Com a palavra crua e fria?
Por isso, e só por isso, peço:
Devolvam-me a poesia,
O meu olhar de crença,
O sentido dos meus dias,
As veias da existência.
Do contrário,
Como fazer um poema?
Como fazer um poema
De mãos vazias?
Sem idas, sem vindas,
Sem voltas, sem revoltas?
Devolvam meus suspiros,
Meus ais, meus trilhos,
Para que eu possa, enfim,
Reencontrar os versos
Que pertencem a mim.
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meraluz
at 03:14 PM
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janeiro 20, 2010
Existe 'caso mal resolvido'?
Já acreditei nessa história de 'casos mal resolvidos'. Mas, com o tempo (e com a psicanálise, claro), compreendi que eles não existem. Os protagonistas desses 'casos' é que ficam bem ou mal resolvidos. Há quem pense que para resolver uma história que não terminou do jeito desejado é preciso esgotar todas as palavras ou mergulhar até o mais profundo talvegue de um rio de emoções desencontradas. É um ponto de vista, mas não o meu. Se alguém me diz: "Tal relação ficou mal resolvida", limito-me a comentar: "Então pronto! Ficou resolvida como 'mal resolvida.'" Isso porque muitas soluções são mais facilmente encontradas dentro - e não fora - de nós. A conversa que temos realmente de ter é com os nossos próprios botões, e a partir dos fatos disponíveis. Uma sequência de fatos e de comportamentos é eloquente o bastante para fornecer o diagnóstico (e o prognóstico) de qualquer relacionamento.
Além disso, se pensarmos bem, nenhum final é feliz, ideal, satisfatório. Sair de uma relação com as palavras certas, dissecando o adeus em minúcias, numa interminável e desgastante sessão de perguntas e respostas, também pode ser doloroso. E, ainda por cima, não é garantia de que os sentimentos não se tornarão recorrentes. Talvez o mais indolor dos finais seja aquele em que o sentimento se dissolve durante a própria relação. Assim, sem a força desse sentimento, que morreu sem ser percebido, todo o resto se transforma em desimportâncias, e o ponto final acontece quase que naturalmente, sem traumas, nem expectativas, nem recalcitrâncias. Mas nem sempre é assim.
Em conversa com amigos, sempre vem à tona esse papo de "casos mal resolvidos". Quase todo mundo tem um pra contar. Ouço-os se queixarem, com frequência, de que, em suas frustradas relações, "ficou algo por dizer", "ficou algo por entender", e que "é preciso um último diálogo" para virar a página definitivamente (se é que o definitivo é mesmo definitivo). Mas será que a vida útil do romance não foi feita para acabar justamente naquela página? Nem todas as histórias são brindadas com finais felizes e esclarecedores, o que, em hipótese alguma, é motivo para menosprezar a sua importância. E depender da outra parte para determinar cada final de caso, à nossa conveniência, admitamos, é bastante trabalhoso.
Também não é incomum ver pessoas acorrentadas a impasses de seu passado, ao longo de anos, até mesmo décadas. Neste caso, nem o tempo, que sempre ajuda a pulverizar dores, mágoas e culpas, conseguiu ser um bom remédio. E aí a coisa pode acabar assumindo níveis patológicos. É preciso tomar cuidado. Não há nada pior do que se tornar um prisioneiro, principalmente do passado, que é tão estático quanto as velhas fotografias que o representam sem nada poder fazer.
Não estou aqui a subestimar a dor de ninguém. Sei que lidar com sentimentos não coisa é fácil, sobretudo com sentimentos que um dia foram feridos. Mas penso que, se sedimentarmos o eixo de nossa órbita em nós mesmos, e não no outro, tudo ficará mais claro. Por exemplo, um sintoma de saudade não precisa ser torturante, nem condicionado ao personagem que a ela deu origem. A saudade é nossa e só nossa; permitamo-nos senti-la, sem resistências, por alguns momentos, e pronto! Depois ela se vai, ainda que venha nos revisitar mais adiante. Não temos necessariamente que agir ou criar expectativas por causa de súbitas nostalgias; isso gera tensão. Certamente, com a sucessão de novas experiências e urgências, certas lembranças tendem a se tornar cada vez mais raras. Se uma história terminou era porque assim tinha de ser. E que importa se ela pode ou não retornar amanhã? Amanhã é amanhã, e viver é uma urgência. Tudo faz parte dessa louca aventura de existir: o bem, o mal, o prazer, a dor, os erros, os acertos, as dúvidas, as certezas, tudo... E nada permanece no lugar o tempo todo. Só nós, que moramos dentro de nós... Vivamos, pois, a partir de nossa única e inevitável existência.
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meraluz
at 01:26 PM
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janeiro 11, 2010
Os doces estertores dos 20 anos
Quando eu era jovem (mais jovem ;) ) e comecei a descobrir o fascinante mundo das ideias, tudo parecia possível, tangível, instigante, desafiador. É próprio da juventude as paixões levadas ao extremo. É próprio da juventude levantar bandeiras, mergulhar visceralmente em ideais grandiosos, querer arrumar o mundo. E eu não fugi à regra. No passado, junto com meus jovens companheiros de ideais, também queria mudar o mundo. Nosso templo era o Diretório Acadêmico, nossos gurus os autores de doutrinas radicais e perfeitas no papel (no caso, Marx, Hegels, Trotsky, Sartre, Gide, Nietzsche, Artaud, etc. etc.). Ganhávamos as ruas, fazíamos barulho, clamávamos por justiça, inspirados pelo gigantismo de sonhos que seriam exterminados aos primeiros lampejos da maturidade, e nem desconfiávamos disto. Deve ser uma questão hormonal essa ebulição dos 20 anos, isso da vontade de poder, de ser tomado por fúrias exacerbadas contra instituições e sistemas opressores e decadentes. A juventude quer e precisa lutar! Causas não faltam nunca. Fundos musicais muito menos.
Não que sonhos e paixões feneçam na maturidade, mas nesse estágio eles acontecem, incontestavelmente, de forma mais modesta, mais silenciosa, menos agressiva e menos coletiva. Com o tempo, eu, pelo menos, fui percebendo que as ideias que me insuflavam eram, de certa forma, influenciadas pelos grandes pensadores - em especial, os libertários -, e por isso mesmo não eram exatamente minhas. Com o tempo, compreendi que o mundo não muda fácil; quando muito, passa-se de uma ditadura a outra, de um extremo a outro, de um erro a outro. Com o tempo, compreendi que valores mudam, rebeldia sossega, euforias passam. E, no final das contas, acabamos, muitas vezes, por nos surpreender agindo "como nossos pais".
Sinto uma imensa saudade daquela imperativa (e hiperativa) avidez juvenil, que gritava alto, muito alto... Era um verdadeiro poema. Na verdade, ela não morreu, porque tornou-se parte integrante da minha história e responsável pelo resultado que hoje sou. Mas os ventos nos atiram à maturidade, ainda que à revelia. E isso não chega a ser um caos. A maior vantagem da maturidade é que nela podemos ser crianças, jovens ou maduros, conforme as circunstâncias, só que com o discernimento de saber usar esses estados de ser na hora apropriada. E a maior desvantagem é não termos mais tanto tempo para errar, tombar e recomeçar. Daí porque a voz da razão, muitas vezes, precisa calar a voz das paixões na marra.
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meraluz
at 04:50 PM
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janeiro 9, 2010
O exorcismo pelas palavras

Por que escrevo? Ao contrário do que sugerem as tirinhas do Calvin aí em cima, que ironizam a prolixidade vazia do eruditismo teórico-existencialista :), escrevo para me libertar de mim, para equacionar melhor os meus dilemas, trilemas, quadrilemas, etc. Ou para entender mais claramente o compasso da humanidade, para dar forma ao que, de tão abstrato, incomoda. Escrevo para me exorcizar. Poderia compor uma canção, se tivesse talento musical; mas não é o caso. Poderia pagar um analista, o efeito seria quase o mesmo. Mas, depois de anos e anos de terapia, e de conhecer o processo de cor e salteado, seria uma alternativa pouco excitante para mim, que tenho necessidade de criar. (Parêntesis: devo assinalar aqui que recomendo sempre uma boa psicoterapia para que os mortais se percam menos de si próprios. A mim fez-me um enorme bem.) Assim, já que gozo de alguma intimidade com as palavras e não tenho problemas com a autoexpressão, prefiro escrever.
Meus textos não são necessariamente as minhas verdades e, em absoluto, têm a pretensão de se tornar universais ou imperativos. Até porque a palavra sempre muda conforme o olhar e o momento vivido. Muitas vezes transformo em verbos o que gostaria de ser ou deles faço uso para tentar explicar certos estados de confusão. Da mesma forma, o que escrevo hoje pode vir a ser o que virei a criticar amanhã. Seja como for, a palavra (principalmente a escrita) muitas vezes me serve como bom sistema de drenagem. Precisamos purgar, fazer emergir, ejetar o que se acumula dentro de nós. O ser humano privado de expressão perde o sentido.
Alegro-me, portanto, quando alguns textos que aqui expurgo me ajudam a oxigenar o pensamento. E não são raras as vezes em que acabo influenciada pelas minhas próprias palavras. Pode parecer um paradoxo que a autora influencie a si própria. Mas não penso como Mário Quintana, quando diz: "Nunca me releio... Tenho um medo enorme de me influenciar. É verdadeiramente catastrófico quando um autor se transforma no seu discípulo." Ao contrário do poeta, eu sempre me releio. Gosto de acompanhar as variações, as mudanças, as nuances da minha existência semântica. E não tenho medo de influenciar a mim mesma, se a influência for boa.
Para mim, escrever é uma hemorragia salvadora. Acho que todos deveriam tentar, de alguma forma. Danem-se os erros de português, as sintaxes e as regências indevidas. Isso é detalhe. O que importa é se libertar do peso das ideias que efervescem e expeli-las ao léu, do jeito possível. Fica tudo tão mais leve depois da expulsão dos verbos que deixaram de acontecer ou que aconteceram de modo errado...
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meraluz
at 03:09 PM
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Não há forma ideal de sair de cena
Qual a forma ideal de se dizer adeus, de abandonar a cena e o personagem? Não há. Todos os movimentos de saída ferem (a começar pelo próprio parto que nos dá a vida). O apagar das luzes dói de qualquer maneira, seja esta civilizada ou irascível. Se as pessoas chegam à porta de saída é porque, de algum modo, se magoaram, se frustraram ou quebraram algo que antes era importante e agora deixou de ser. E isso inviabiliza qualquer despedida ideal.
Contudo, creio que a pior forma de se ausentar - já que a melhor não existe - é aquela em que não se pontua; aquela em que as palavras, ao invés da pronúncia que as libertariam, escolhem fazer o caminho de volta ao pensamento, saturando-o, intoxicando-o e confundindo-o. Aí, tudo o que não foi dito pode demorar a se esgotar, pode se subverter ou tomar formas ásperas e inadequadas. E, inevitavelmente, surgirão dúvidas recalcitrantes, recorrentes, que atormentarão por algum tempo - o tempo necessário para a dissolução do edema emocional -, por meios bem menos naturais. Sim, porque o tempo é sempre o tempo, esse senhor que tudo resolve, mais cedo ou mais tarde, de uma forma ou de outra.
O silêncio e a moderação nas rupturas podem ser imponentes, educados e elegantes, mas são também pusilânimes. Há muito mais verdade nas impulsividades momentaneamente ofensivas ou destemperadas, que a emoção deixa escapar, do que na omissão comportada dos verbos. Além disso, quem ousaria recriminar a verdade, que, por ser verdade, já chega carregada de perdão, ao contrário das farsas do silêncio?
Parece que o mundo, em geral, não está preparado para as verdades; nem para dizê-las, nem para ouvi-las. E isso torna certas saídas muito mais torturantes, muito mais feias, antiestéticas. Mas, como não há mesmo uma forma ideal de sair de cena, e como somos um núcleo de imperfeições, resta-nos seguir em frente nesse desvio (ou atalho) do modo possível, cuidando para que não nos tornemos um ser humano pior. Afinal, há sempre uma nova estrada a cada saída. E a vida é mesmo essa sucessão de encontros, desencontros e reencontros.
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meraluz
at 12:18 AM
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janeiro 6, 2010
Sem metades
Não me deem metades. Não me acessem pela metade. Não gosto de metades. Nem mesmo de caras metades (onde dois ficam reduzidos a um). Não gosto de metade do caminho, não gosto de pessoas pela metade, de conversas pela metade, de meias verdades, de meias mentiras. Se não posso ter a unidade, se não posso ser a unidade, prefiro então pequenos dízimos, quando não o nada. Os dízimos pelo menos funcionam como modestas sugestões, preâmbulos de alguma coisa, qualquer coisa que pretenda a sua integralidade mais adiante. Mas metades não, porque não são nem uma coisa, nem outra. Ou pior: podem ser uma coisa e outra, sem a convicção de ser. Metade de mim não sou eu. Viver pelo meio eu não vivo. Tudo o que eu puder ser, viver ou doar é integral, ainda que seja por um minuto, ainda que não haja sequências, ainda que eu viva o supérfluo ou a contradição. Essa divisão no meio é ingrata. E eu, que só sei ser inteira, em cada minúsculo movimento, vivo batendo de frente com a vida, repleta de meios-termos e de seres de meias-faces.
Note-se aqui que não falo de extremos, mas de inteiros, de um... Não falo de intermediários, mas de metades. É preciso não confundir intermezzos com metades. As primaveras, por exemplo, são agradáveis estações intermediárias, mas são primaveras inteiras e cumprem todo o seu ciclo. Gosto do intermediário, do equilíbrio, só não gosto de metades, do “pela metade”, do meio sim ou meio não. Metades são medíocres. Se não puderem me dar o inteiro, deem-me o nada, mas nunca a metade. Metades não matam minha sede, que é grande e inteira.
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meraluz
at 08:15 PM
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dezembro 25, 2009
Abstração
Sou uma abstração. Minha vida, minha história, minhas circunstâncias não passam de pretextos para que eu possa me fazer representar dentro de um mundo insano, feito de pesadas concretudes. Uma abstração. Esta é minha verdadeira identidade. Algo que se confunde com as lânguidas notas de um blues, algo como partículas que se expandem e vibram no ar, como nuvens que não se prendem por muito tempo a uma forma. Como invólucro, um corpo acidental, que funciona como receptáculo e referência gravitacional apenas - ai, como pesam os corpos!... Quem me toca nem sempre toca em mim. Em contrapartida, há tantos que me tocam sem me tocar: poetas, músicos, animais, pessoas que nunca vi...
Sou uma abstração, sem muita causa, sem muito efeito, sem muita compreensão da existência.
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meraluz
at 05:41 PM
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dezembro 17, 2009
Trajetória dos erros
Primeiro, tenta-se a estratégia, a razão pura e kantiana, a lógica dialética, o bom senso, o caminho linear e claro, e todos os recursos racionais. Você sinaliza, aponta, tenta acertar, tenta impedir o pior, mas não lhe ouvem, não lhe atendem, não lhe entendem - ou não querem entender. Depois, vêm as contorções, as confusões, as contrações, as digladiações, as turbulências emocionais, o inconformismo, a impotência. Você quer salvar a história, a qualquer preço, por achar que é uma história maior, mas não lhe ouvem, não lhe atendem, não lhe entendem - ou não querem entender. Segue-se então uma certa melancolia, a frustração de ver que a história lhe escapa das mãos, e já não há como conduzi-la unilateralmente. Você ainda tenta mais um pouco, porém já bem mais desacreditado. Palavras e movimentos se desencontram, sintonias se perdem, encantos se desfazem, e a plenitude vai se esfacelando paulatinamente. Nada mais parece inteiro, absoluto, inabalável, íntegro, no lugar. Não há lugar. Tudo é fração, e, por ser fração, perde força. Mais uma vez, agora sem tantas expectativas, você insiste em refazer o pequeno feudo encantado e feliz. Mas não lhe ouvem, não lhe atendem, não lhe entendem - ou não querem entender. Por fim, e por cansaço de dar murros em ponta de faca, de não compreender e de não ser compreendido, chega-se ao 'tanto faz', que é a mais medíocre das posturas, mas, certamente, a menos dolorosa. Estaria tudo certo, não fosse um inconveniente do 'tanto faz': ele é incapaz de garantir grandes memórias, limitando-se à pequenez de banalizar tudo o que foi imenso com suas propriedades anestésicas. Mas agora tanto faz...!
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meraluz
at 07:40 PM
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dezembro 5, 2009
Os imaturos do amor

A cada vez que me envolvo com alguém, um temor irrompe: estarei me envolvendo com um imaturo de amor? Sim, porque, quando atingimos um certo nível de maturação de sentimentos, cruzar com os imaturos é o que de pior pode acontecer. Seria impossível trilhar o mesmo caminho e na mesma direção.
Não há como reconhecê-los a um primeiro momento. Este é o problema. Só depois de um certo tempo é que podemos identificá-los. São aqueles que precisam experimentar a sensação de perda para compreender a real importância do outro; são os que não se preocupam em alimentar o afeto por, ilusoriamente, 'acharem' que têm a pessoa nas mãos; os que ignoram que, com a sequência de suas ações ou não ações, podem ser esquecidos; os que precisam de desafios permanentes para se motivarem numa relação. Oh, não! Ao menor sinal de detecção de um imaturo de amor, eu abandono o barco, por mais que a correnteza me castigue. Não manipularei, muito menos me deixarei manipular.
Prosseguir seria pouco inteligente e deveras trabalhoso. Os imaturos de amor exigem que a gente parta pro jogo, que crie situações artificiais, impedindo-nos, assim, de repousarmos o sentimento, os movimentos... Para mim, particularmente, seria muito fácil o jogo. Já aprendi o suficiente com a vida. E, exatamente por ter aprendido a jogar, é que aprendi também a não querer o jogo. Sei exatamente quais são os movimentos de atração e de repulsão. Mas ficar refém de jogo? Não, nunca. Jogando uma vez, terei de jogar sempre. Situação pobre e muito, muito, extenuante.
Dou-me ao luxo, depois de tantos açoites, de querer um pouco mais do que isso, ainda que esse pouco mais seja a fidelidade a mim mesma e a paz interior. E, quantos aos imaturos de amor, que a vida venha a lhes ensinar um dia que o amor de verdade se constrói na tessitura das simplicidades, das verdades e da saúde.
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meraluz
at 05:25 PM
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novembro 15, 2009
Tem horas que...

Tem horas que a gente tem vontade de mandar tudo à merda. Mas tudo o quê? Uma realidade, um sonho, um hábito, uma situação, uma relação, um projeto, não importa. O fato é que tem horas que a gente tem vontade de pressionar o "reset" e detonar todas as construções - reais ou imaginárias - existentes em nosso pequeno feudo. Geralmente, esses momentos ocorrem ou porque não estamos recebendo as respostas esperadas, ou porque nos sentimos diante de uma situação sem saída (no way out), ou porque há um detalhe fora do lugar, ou porque simplesmente não estamos num bom dia.
Porém, nessas horas em que a gente tem vontade de mandar tudo à merda, o melhor a fazer é dar uma pausa e aguardar um pouco. Precisamos saber exatamente o que estamos mandando à merda. E, na impulsividade, no imediatismo, não é possível ter essa consciência. Pode haver erros de interpretação, oscilações de humor, visões turvas e tantos outros fatores que são amigos da confusão. Então, nesses momentos de pouca tolerância, enfiemos a insatisfação momentânea naquele lugar e aguardemos um pouco mais. Não precisamos aguardar muito. Só o tempo de recobrar a real capacidade de avaliação dos fatos. Precisamos de certezas para medidas radicais. Precisamos constatar que os erros se repetem, que o detalhe fora do lugar não vai mesmo voltar ao seu local de origem, que não houve falhas de interpretação, e que não estamos num mau momento, daqueles de extrema sensibilidade, onde tudo adquire dimensões gigantescas e ilusórias.
Uma vez constatados os erros - ou as deficiências -, aí sim, podemos - e devemos - mandar tudo à merda. E sem estardalhaço, sem destemperos, sem gritos; se possível, até em silêncio, pois trata-se de uma decisão interior. Desta forma - e só desta forma -, não correremos o risco de futuros arrependimentos ou de cometer injustiças. Isso só levaria à desmoralização de nossos atos. Problemas devem ser eliminados. Mas antes é preciso saber se o problema é realmente um problema ou se é um problema ocasionalmente inventado, um problema-fantasma.
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meraluz
at 01:36 PM
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novembro 11, 2009
Apagão - ou como enxergar melhor na escuridão
E de repente tudo se apagou. Primeiro o susto, depois a indignação de ser obrigada a parar. Seguiu-se uma certa aflição. E, vendo que nada poderia fazer para que as engrenagens do século XXI voltassem a funcionar desesperadamente, resolvi experimentar a pureza do ar e do som. Pasmei ao perceber que, na escuridão, conseguia me enxergar melhor. Abri as janelas. Por sorte, soprava uma brisa salvadora pós-chuva, que me livraria do intenso calor. Já não havia desconforto. E relaxei, como nunca o fizera antes. Dispensei as velas. Uau! O caos urbano parado por quase 3 horas! Quanta paz, quanto silêncio! Troquei segredos com as nuvens, com a noite, com o cosmo. Todas as máquinas desligadas, todos os circuitos anulados. Era a vida em sua verdade, a natureza por si, sem nenhuma parafernália a acelerá-la. Pensei em como devia ser mais vida a vida de antigamente, sem TV, sem computadores, sem celulares. Familiares e amigos deviam se reunir mais, conversar mais, contemplar mais... Devia-se ouvir melhor os ruídos do vento, da chuva, da própria alma; sentir melhor a força dos céus, das árvores, das estrelas. Nenhuma pressa, nenhuma neura, nenhum artifício. Apenas a música aparecia como vítima nesse episódio de falta de energia - mas havia ainda alguma carga nas baterias do MP3 player ou rádio. Sim, ainda havia a música, além da ária magnífica na voz da natureza... Com este pensamento e uma sensação de paz, dormi convencida de que a civilização, embora inevitável, é um grande erro.
Eu não sei quem foi que apagou as luzes das cidades. Pode ter sido um boicote, um colapso da infraestrutura mal cuidada, um mero acidente. Apressaram-se em colocar a culpa na meteorologia, o que eu duvido muito. Mas danem-se os culpados. Eles nem imaginam o bem que me fizeram. Consegui acender minhas luzes no apagão.
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meraluz
at 05:38 PM
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outubro 20, 2009
Adoro os 'losers'
Adoro os 'losers' - na tradução literal, 'perdedores'; na minha tradução, 'vencedores'. Vencedores porque resistem às imposições do sistema, aos modismos de uma sociedade esvaziada de valores, mantendo, a um preço alto talvez, a fidelidade à própria essência.
Gosto de quem não se importa com o último modelo das parafernálias tecnológicas que nos tiram cada vez mais a capacidade de criar. Gosto dos que não têm vergonha de dizer que a grana não vai dar praquele mês; dos que vivem a vida com um jeito 'vintage' de ser; dos que não tem corpos esculpidos em academias; dos desajeitados; dos ligeiramente desarrumados (desde que respeitem os hábitos básicos de higiene); dos que não fazem pose; dos que não se importam com calendários festivos; dos que não pensam nem agem como a unanimidade. Gosto deles porque me remetem à verdade, à pureza de sentimentos e pensamentos.
Se é mais ou menos difícil conviver com os "losers", não sei dizer. Mas sei que qualquer conviviência é difícil, e, já que é assim, prefiro conviver com alguém de verdade, ou próximo a ela.
Ah, como são nostálgicos os 'losers'!
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meraluz
at 06:24 PM
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outubro 10, 2009
A dor e a delícia de ser livre

Decerto já devo ter escrito sobre o tema que me vem à mente agora. Mas não importa... Vamos falar de liberdade.
Liberdade é um sentimento (e um estado) que dá medo, mas sem o qual eu não saberia viver. Estranho, não? Como conjugar liberdade e medo? São sensações paradoxais. O medo imobiliza, a liberdade movimenta. É mais ou menos como diz a velha canção de Beto Guedes: "O medo de amar é o medo de ser livre..." (mas falemos do amor mais adiante).
Esse medo de ser livre só acontece quando paramos para pensar a liberdade, e não quando a vivenciamos, já que pensar é prender. Não dura muito. E ele existe porque a liberdade vive sempre sob constante ameaça. Esbarra aqui, ali, nos personagens do nosso afeto, nas limitações mundanas, no direito do outro, nas decisões tomadas ou a tomar... Enfim, a liberdade é um constante exercício, e parte dela é ilusão. Sabemos bem que em plenitude ela não existe, nem para os pássaros. E a fração que nos cabe, quando a conseguimos, custa caro. Muito caro...
Para chegar a essa relativa liberdade, precisei antes ser prisioneira. Assassinei sonhos, feri pessoas, abri mão de falsas ilusões e falsas seguranças, cortei vínculos importantes, mergulhei no escuro. Mas, sim, valeu a pena. Valeu a pena porque era a minha vocação e a forma mais honesta de encontrar a mim mesma.
E justamente por isso nunca consegui entender uma relação de amor que não fosse livre. Amar com liberdade é um desafio torturante, porque, com o passar do tempo, vamos querendo formas e plataformas, muitas mãos e muitos chãos. É quase uma tendência natural essa de se construir portos seguros, fazendo-os maiores até do que o mar, e exercer um certo controle sobre o outro. Até compreendermos que nada disso garante a permanência dos amores, leva tempo. Compreender que todo sentimento é livre porque é intangível e não vísivel a olho nu, que todo desejo é livre porque é um sopro e uma abstração interna, implica que sejamos antes ilustres prisioneiros de nossos erros. Na dor nos libertamos.
Contudo, acredito eu, é só na liberdade que o amor se faz pleno. O amor e todo o resto. O ir e vir por vontade própria, a não vigilância do verbo, dos gestos, a ausência de imposições, o peito aberto e sem opressões, são a única certeza de que é possível repousar em um sentimento, seja ele qual for, e em nós mesmos.
Sejamos o barco e o vento do nosso próprio oceano.
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meraluz
at 10:10 PM
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setembro 23, 2009
O passado é um templo sagrado
Como boa aquariana, não dou dada a fustigar o passado. Não porque o despreze. Absolutamente, é justo o contrário. Não o revolvo para que nada fique desarrumado em seu altar. O passado é um templo sagrado. Revisitações implicam o risco de uma nova leitura, possivelmente menos grandiosa. Tenho um solene respeito pela estrada pregressa, incluindo suas partes sombrias, incluindo as feridas e desacertos que encontrei ao longo do caminho que me trouxe até aqui. Tudo valeu, tudo foi elevado à condição de mito. Não fico por aí procurando antigos personagens ou recantos de minha história. Temo, com isso, banalizar sua importância. E, se por alguma coincidência ou obra do acaso, os reencontro, morro de medo. Morro de medo de conspurcar a história que escrevemos juntos, história que o tempo sacralizou. Rever lugares ou personagens do passado, no fundo, é como assassinarmos, por um lado, uma saudade que não morre, e, por outro, parte do encanto e mistério que a vida esconde.
Sei que, no final, nada muda tanto assim e as essências se preservam. Mas essências são essências e existências são existências. Se o tempo não interfere muito naquelas, nestas ele é determinante. Sartre devia estar certo ao dizer que a existência precede a essência.
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meraluz
at 01:29 PM
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