Há quem diga que o jogo (ou seja, as farsas) no relacionamento humano - e, mais particularmente, no relacionamento afetivo - é uma prática mal-intencionada. Eu não diria tanto. Há momentos em que o jogo se faz necessário, para que se atinja um objetivo importante, onde a transparência não obteve êxito. Bonito mesmo não é, mas vejo-o como um passo atrás para dar dois à frente.
Nunca me orgulhei de ter lançado mão de joguinhos artificiais para chegar onde pretendi. E só fiz uso deles como uma última opção para preservar a mim mesma ou certos sentimentos que me são caros. Também não considero proeza alguma dizer que esses jogos funcionaram. A psicologia humana, de um modo geral, é bastante previsível, e é para ela que as táticas se voltam. Não fosse essa tal psicologia humana tão contraditória, frágil e conturbada, os jogos afetivos não seriam necessários.
Ocorre que, na maioria das vezes, a transparência pode se voltar contra nós, tornando-dos vulneráveis, presas fáceis nas mãos daqueles que conhecem bem a dinâmica das manipulações. De fato, a transparência é o estado ideal de seres e coisas (que o diga Julian Assange), mas é preciso saber quando, como e com quem usá-la, para não sair ferido das relações interpessoais. Quem sabe num futuro mais evoluído, de seres mais amadurecidos, ela, a transparência, consiga progressos maiores?
Sinto uma profunda ternura pelos 'transparentes', por aqueles que vivem com o coração escancarado e mal sabem esconder uma fraqueza, uma emoção ou um defeito. Talvez até por já ter sido assim em outros tempos, onde tudo era mais leve por ser menos racional. Mas, em compensação, quantos sofrimentos viriam depois, quantas quebradas de cara, pisadas de bola, lesões ao amor-próprio? Inevitável foi, a partir de então, conhecer as regras do jogo e os movimentos comuns das peças humanas.
Com isso, quero dizer apenas que "jogar" pode não ser tão censurável quanto parece. Desde que se jogue limpo, sem prejuízo de terceiros, e que não se permaneça no jogo. Permanecer nele é pouco inteligente, porque aí nunca teremos uma relação verdadeira ou confiável. Porque teremos que inventar e reinventar sucessivos artifícios para garantir o continuismo da relação. Porque não teremos o alívio e a liberdade de ser o que somos, e isso cansa, exaure, encarcera. Seremos prisioneiros das nossas próprias farsas e retóricas. Assim, uma vez atingido o objetivo principal, o melhor a fazer é nos livrarmos daquele joguinho básico que fizemos para criar a situação favorável e pontual de que precisávamos.
Posted by meraluz at fevereiro 1, 2011 02:20 PM