Não, não é loucura afirmar aqui que sinto um misterioso prazer em certos sofrimentos. Tampouco devo admitir qualquer sinal de masoquismo nisto. Não escolheria eu sofrer ou gostar de sofrer. Então não é loucura, segundo meu entendimento de loucura. O prazer a que me refiro diz respeito a dores mais mansas, que não agonizam nem conhecem as urgências. Dores como as de uma saudade conformada ou daqueles sonhos que já nascem sentenciados, mas que se aceitam como sonhos; dores como as de precisar adiar o agora, transferindo calmamente para o futuro a expulsão dos verbos trancafiados no peito; dores inexplicáveis do próprio processo existencial, e mais tantas outras formas desses sofreres quase que em paz. Há, sim, um certo "prazer" - se é que posso chamar assim - em sofrer por causas que fazem de nós uma consequência maior. É como se neste prazer morasse a resposta para os supostos vazios e um sentido reconfortante qualquer . Quem não se perdeu de si, durante as mudanças das estações, talvez consiga compreender esses prazeres e sofreres. Quem não se perdeu de si pode escolher chorar ou sorrir na intermitência dos diferentes episódios que se sucedem, e se sucedem e-se-su-ce-dem... Quem não se perdeu de si pode sofrer sem precisar ser triste. Quem não se perdeu de si não terá vivido em vão e saberá inscrever partituras de sinfonias inesquecíveis na própria história, as quais poderão ser executadas com um olhar ou um gesto talvez...
"Lembra de mim,
Se existe um pouco de prazer em sofrer,
Querer te ver talvez eu fosse capaz,
Perto daqui, ou tarde demais.
Lembra de mim..."
(trecho da música "Lembra de Mim", de Ivan Lins)