maio 19, 2004

Cuidado com o cuidado

Aconteceu há alguns anos atrás. Alguém cruzou meu caminho, sem que eu esperasse. Daí seguimos juntos por um certo hiato do tempo, do tempo possível. E ele cuidou de mim. Jamais esquecerei disto. É... Acho que ele me encontrou para cuidar de mim. E cuidou como ninguém mais saberia cuidar. Essa coisa do cuidar e ser cuidado é algo tão sublime e perigoso que fica impossível esquecer. Nunca mais ninguém cuidou de mim. Pelo menos não como ele, que conhecia as hipérboles deste ofício. Nem eu também deixei que o fizessem, sempre soube que nenhum outro faria melhor. Escolhi então ficar com o registro daquelas mãos que zelavam tão bem. Meti-me a cuidar de mim eu mesma depois que a vida me separou do meu "cuidador". Aprendi a fazê-lo, porém com alguns desleixos. Não deixo mais este papel para outrem. Até porque a condição de ser cuidada por alguém implica, por vezes, um certo comodismo, uma postura algo infantil, que prioriza mais receber do que dar. É preciso fazê-lo com consciência. E tanto é assim que só hoje consigo compreender a grandeza de cada ínfimo detalhe daquelas cenas. Desde a preocupação com a minha carência vitamínica até a realização mais perfeita dos desvairados sonhos que me surgiam. O excessivo conforto de me deixar cuidar por mãos tão delicadas não me permitiu avaliar, à época, quão fundamental era aquilo tudo. Estava muito ocupada em me deixar cuidar para fazer avaliações. Talvez eu achasse que ele cuidaria de mim até o último de meus dias. Talvez eu achasse que ele devesse compreender e cuidar também dos nossos erros. Talvez eu achasse que nem o tempo avançaria e nem os caminhos se desviariam. Mas não foi assim. A vida tem armadilhas para as quais nem todo o cuidado do mundo é suficiente.

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Mas tudo terá valido a pena se, agora que já aprendi os segredos do cuidar, conseguir transmitir, de alguma forma, a importância de se cuidar um do outro, na acepção mais plena da palavra "importância", sem medo de ser feliz. Não é uma missão fácil dentro de um mundo que tem medo de amar e escolhe individualismos defensivos para não arriscar as dores dos desencontros. (E isto é válido também para mim.)

Posted by meraluz at maio 19, 2004 06:37 PM | TrackBack