"Quanto mais o trabalho intelectual se deixa envolver e dominar pela atividade industrial rude e violenta, sem tradição e bom gosto, e quanto mais as ciências e as escolas se empenham em privar-nos de nossa liberdade e personalidade e inculcar-nos como ideal, desde a infância, a condição de um esforço obrigatório e acelerado, tanto mais entra em decadência e cai em descrédito e desuso, ao lado de outras artes "antiquadas", também a arte do lazer. Não que houvéssemos jamais alcançado a mestria nessa arte: a ociosidade, aperfeiçoada como arte, só foi, em todas as épocas, cultivada no Ocidente por ingênuos diletantes." (Hermann Hesse, in A Arte dos Ociosos)

Agora estou absolutamente convencida: a criatividade só é possível no ócio. Nesses dias em que a necessidade impõe com suas mãos tiranas que eu mergulhe em obrigações e esgotamento mental, fui tomada por essa definitiva certeza. É no ócio, e somente no ócio, que se torna possível criar, amar, existir verdadeiramente. É preciso não conhecer as pressões para ter olhos de ver. É preciso não se sujeitar ao tempo dos relógios e se desprender de qualquer condição de sobrevivência para se deliciar com os próprios sentidos, todos os sentidos.
Tudo o que se faça pela sobrevivência não é vida nem vivência. Aliás, o correto deveria ser "subvivência", a exemplo da "subsistência". Artaud argumentava lá no seu Teatro da Crueldade que a fome é soberana. E ainda mais essa... Não há como negar essa soberania. Talvez por isso nossa força de trabalho seja referida como "o suor pelo pão de cada dia". Mas é um suor sem calor esse que acontece para evitar a fome física. Tenho outras fomes soberanas, a fome da alma, do espírito, dos desejos, dos mistérios que também precisam de alimento. Obrigo-me a ignorar temporariamente essas fomes subsidiárias, mas não menos soberanas. Nada faço por elas enquanto suo em nome do outros pães.
E, ao final do dia, sinto que nada fiz de meu. Clamo para experimentar novamente os momentos de ócios encantados, onde realmente posso encontrar aquilo e aqueles que me dão prazer, onde posso encontrar a mim mesma, onde posso, enfim, criar e recriar a vida em sua maior expressão.
Socorro! Eu preciso de ócio!
Posted by meraluz at maio 18, 2004 07:04 PM | TrackBack