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outubro 31, 2005 01:04 PM
Gostar

Gostar é verbo livre, simples e definitivo. A gente olha, a gente gosta e fim. Não precisa de porquês, nem de previsões, nem de instruções. Não é operação cerebral, intelectual ou qualquer outra que se deixe comandar pelos ditames da razão. Mas feliz de quem, nesse mundo programado para títeres assépticos, ainda pode, despretensiosamente, gostar de alguém ou de alguma coisa, sem associá-los a uma função perfeita, a uma relação de causa e efeito ou de competitividade. Gostar por gostar.
Nem sempre se pode ter o que se gosta, é verdade. Mas e daí? O gostar espontâneo não inclui a posse. Pode-se gostar sem desejar para si objeto da nossa simpatia. Gostar de vê-lo existir, simplesmente. É um sublime exercício de liberdade. Não é imperativo possuir aquilo que se gosta.
Canso de ouvir perguntas do tipo: "Mas o que você vê nisso?", "O que você vê nele/nela?". São perguntas desnecessárias, que eu, particularmente, nunca ouso dirigi-las a alguém. É impossível determinar o conjunto de fatores e motivações que revestem o "gostar" de alguém. Gostar não é um ato, não é uma decisão, muito menos uma imposição. Não importa se esse gosto é conveniente ou não, se é sensato ou não, se é profícuo ou não. Experimentar essa sensação, por si, já é uma forma de felicidade.
O que pode gerar frustrações, a partir de um gosto, é começar a perseguir a coisa/pessoa gostada, de modo a aprisioná-la em um contexto. As manifestações espontâneas da alma não devem ser conduzidas pela ideia de posse. A gente gosta de estrelas, de sol, de lua, de céu azul sem precisar possui-los.
Com o tempo, é natural que gostemos cada vez mais de menos coisas/pessoas. Não deveria ser assim. Mas é... Porque o tempo nos torna seletivos e acaba sofisticando, talvez, o complexo de fatores que interferem no gostar. O tempo, também, com suas repetições de fatos e fenômenos, nos faz ver que este ou aquele gostar equivoca-se, sendo muitas vezes um mero capricho ou uma fantasia confundidos com o livre gostar, desprovido de contaminações. Porém, por mais que o tempo estabeleça suas filtragens, ele nada pode contra esse sentimento, tecido com fios de liberdade e de despojados desejos.
Gostar é simples como um espirro, um aceno, um suspiro, um espasmo. O que complica o gostar é não gostar de gostar ou vedar essa livre sensação com expectativas em demasia. Cada gosto anda livre por seu próprio caminho, até criar sua história ou, após cumprir seu tempo de permanência, deixar de existir ou dar lugar a novos gostos.
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meraluz
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outubro 31, 2005 01:04 PM
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outubro 22, 2005 03:16 PM
Pessoa ao acaso

Criei um link para ler poemas aleatórios de Fernando Pessoa. Eu precisava fazer algo por ELE, meu guru de todas as horas. Meu doce esquizofrênico, conhecedor dos mais profundos mistérios da alma humana.
Leia um poema aleatório e veja o que ELE tem a dizer pra você hoje:
http://www.quelquechose.net/fpessoa.htm
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meraluz
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outubro 22, 2005 03:16 PM
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outubro 20, 2005 11:53 PM
Maldita sensatez
Questiono-me se esse centramento, essa sensatez, chega com a idade... Sinto falta das minhas loucuras, da vocação para transgredir, de não me importar com causas, efeitos ou coerências. Não faz muito tempo, a vida era um caleidoscópio, imprevisível em suas cores e desenhos. Os desejos eram tão fartos que não cabiam na existência. Eu não precisava fazer sentido, nem muito menos explicá-lo. Atirava-me à vida e aos sonhos, sem medidas, sem contenções. Era bom, era ruim, era tudo. Tudo no mais pleno estado de ser.
Aí vem o tempo - esse repetidor e emulador de experiências, esse aniquilador de substâncias redivivas, esse sinalizador de perigos, esse pretenso sábio no ofício da auto-preservação - calar em mim as hipérboles, os derramamentos, os delírios, a loucura que me conduzia às nuvens ou aos mais profundos subterrâneos. Seria isso a "insustentável leveza do ser"? De tão esvaziada, flutuo sem peso e vejo a vida à distância, como se estivesse a observar um velho e conhecido fenômeno. Razão é sabedoria? Duvido muito. Não se constrói grandes histórias com ela. Porém, com as minhas loucuras criei histórias sem fim. E, se elas me extenuaram, valeu o preço!
Maldita sensatez essa, que me faz ficar no exato e seguro lugar em que estou.
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meraluz
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outubro 20, 2005 11:53 PM
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