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novembro 25, 2005 02:32 PM
Dançando à beira do precipício

"Não olhe muito tempo para dentro do abismo, que o abismo começa a olhar dentro de você" - Nietzsche estava ébrio de lucidez ao criar este aforismo. Não, eu não olho. Eu danço, danço. Danço, à beira do abismo, a dança da libertação, a dança do absurdo, que é o real sentido da existência. Imóvel em suas turvas profundezas, o precipício espera o passo em falso que me levará até ele. Enquanto isso, danço ao longo do limite que separa a luz do breu, encantada pela música que me chama, que me chama, tentando provocar o desastre da razão e dos axiomas comuns. Lucidez de mãos áridas, que vive de interromper todas as danças e todas as músicas. Lucidez que me chama de volta, mas eu não ouço.
Danço à beira do abismo sem olhá-lo, erguendo a face aos céus, ao sol, às chuvas e às estrelas. Olhar para o abismo é olhar também para o medo. E, permanecer entre o medo que trava e os desejos que movem, é queda certa. O que eu quero é dançar até que a música termine, que as orquestras silenciem e todos os compassos se extinguam. Através dos movimentos em allegro que inspiram essa dança, confundo o abismo, de modo a não deixá-lo olhar para dentro de mim. Que seja a última dança, que ensaie aos acordes do adágio do perigo. Não importa.
E assim será, até as última notas, até a última clave de Sol. Depois, se eu cair e sobreviver, terei ao menos compreendido os mistérios das danças e das músicas, que desconhecem o tempo e as razões para se fazerem ouvir.
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meraluz
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novembro 25, 2005 02:32 PM
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novembro 16, 2005 11:27 PM
A estranha
Mora em mim uma estranha que me assusta e é maior do que eu. Assusta-me porque é nua e simples, porque não está presa a lugar algum. Nem à pele, nem a passados, nem a futuros. E, para que a estranha não subverta a minha imobilizada desordem, deixo-a trancada. Ela esmurra todas as portas e grita por liberdade.

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meraluz
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novembro 16, 2005 11:27 PM
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novembro 9, 2005 02:53 PM
Frequente estereótipo do vazio
Lá vai ele... De aventura em aventura, tentando se distrair de si, de algum casamento falido, talvez, do medo de abrir os olhos, de uma suposta insatisfação crônica, do vazio real, dos sonhos que não realizou e dos que não realizará. Mas ele sonha... Mas ele vai... Vai devagar, sem pressa alguma, porque pressa pode levar a lugares que não pode ou não quer chegar. Empurra com a barriga as ilusões bem construídas, as aventuras momentâneas, frágeis prisioneiras de seu vasto imaginário. Troca de ilusões, troca de emoções, troca de aventuras. Precisa ganhar tempo. Precisa sentir que vive, às custas da vida de alguém que lhe acredita.
E lá vai ele... Alguns, ao decifrarem suas fraquezas, dirão: "Pobre covarde!". Outros tomarão nosso personagem como um contumaz sonhador, um adepto do entretenimento passageiro, que não representa perigo à ordem social. Mas ele não se importa. Tanto faz o que dele pensarão. De aventura em aventura, o homem sem rosto vai passando por passar, com ares de vivre pour vivre. Inventa paixões imaginárias, se perde irresponsavelmente dentro delas, se perde dentro dele. Vive de se perder. Precisa se perder para não se achar. Perde-se com hora marcada. Até o momento em que avista o último limiar das margens que dividem a policromia de suas fantasias da monocromia de uma cinzenta realidade, a qual nunca ousará desafiar.
Lá vai ele... Não tão inócuo quanto parece. O invólucro da aparente sensatez e e da falsa alegria é mero artifício para colecionar mais um sonho, mais uma aventura. Falta-lhe coragem para se libertar, mas finge ser livre. Acredita que acredita em seu personagem, ainda que este se desfigure no último limite e ao primeiro obstáculo. Então é hora de fugir, foge de uma aventura para outra. Foge por não querer ver sua imagem refletida nos olhos de quem o contempla, ameaçando desmontar seus cenários surreais.
E lá vai ele... Deixando tombar os sonhos, ferindo um, ferindo outro, pelo meio do caminho, sem se dar conta. De aventura em aventura, ele se convence de que é tudo aquilo que gostaria de ser. E seria, se tivesse coragem. Porém SER exige coragem e coragem exige do SER.
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novembro 9, 2005 02:53 PM
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novembro 7, 2005 06:20 PM
Voyeurismo

Teu olhar...
Que me perfura com as 7 notas musicais,
Que me atravessa a bordo de um 14 Bis,
Que esconde os 7 Erros
Que ecoa aos 4 ventos
Transgride os 10 mandamentos,
Resume os 5 sentidos
E inventa sextos, sétimos, oitavos...
Teu olhar...
Que me diz sei lá o quê,
Que rasga a fantasia,
E não se deixa ver,
Que talvez guarde o mistério
De não ter mistério algum,
Que chama,
Que chama...
Teu olhar...
Meio SIM, meio NÃO
Meio quente, meio frio
Meio em paz, meio jazz
Meio-dia, meia-noite,
Tanto faz,
Tanto faz...
Teu olhar...
Que chora e que ri,
Tão longe daqui,
Tão longe e aqui,
Que remete a
Poetas e palhaços,
A profanos e sagrados,
A homens e guris.
E que finjo que não vi...
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meraluz
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novembro 7, 2005 06:20 PM
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novembro 5, 2005 06:07 PM
Ilusão de ótica

A questão não é se a pessoa era boa ou ruim, mas se houve ou não um engano de nossa parte. E nisso somos totalmente responsáveis. Não há nada mais triste do que admitir que um olhar crédulo errou ao tentar construir as melhores imagens a partir de um determinado ser.
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meraluz
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novembro 5, 2005 06:07 PM
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