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dezembro 20, 2005 04:29 PM
100 direções e "dead-ends"
E agora?

Direita? Esquerda? Em frente? Retorno? Há situações em que se precisa de uma escolha. Na verdade, escolhas sempre são feitas, ainda que à revelia, já que não escolher é também uma escolha: escolhe-se ser paralisado pela ausência de caminhos ou ser levado pelo vento dos acasos. Nem sempre sabemos o que fazer com as direções, mas sabemos quando alguma delas pode nos levar a becos sem saída, aos "dead-ends". E aí... Aí nada... Olha-se para o céu e voa-se até a altura possível, na contramão do mundo. E tenta-se ser feliz nesse átimo de tempo, até a hora inevitável da escolha: direita, esquerda, volver! (vou ver?). Marchons, marchons! Como obedientes soldados de um mundo aparentemente ordenadinho pelas relações mornas de causa e efeito. 
É que certas estradas, mesmo que sigam na direção errada, são tão bonitas e densas que só a experiência de pass(e)ar por elas já vale a viagem. É que certas estradas são tão plenas que conseguem reunir a um só tempo: todas as direções, um beco sem saída e uma paisagem multicor jamais contemplada em outras rotas. E não terá sido em vão percorrê-las se, ao final delas, chegarmos maiores, melhores e mais humanos, influenciados pela poesia do retrovisor.
Além do mais, saídas sempre haverão de existir... 
Ao fundo uma canção, na voz de Sinatra: Who knows where the road will lead us? Only a fool may say...
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meraluz
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dezembro 20, 2005 04:29 PM
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dezembro 13, 2005 10:26 AM
Os Diferentes
Na falta de algo melhor para deixar aqui, já que o tempo e o eixo paradigmático das palavras andam escassos neste momento, transcrevo uma crônica que gostaria de ter escrito, não pelo valor literário mas pelo seu objeto.
 Os Diferentes - Artur da Tavola
Diferente não é quem pretenda ser. Este é um imitador do que ainda não foi imitado, nunca um ser diferente.
Diferente é quem foi dotado de alguns mais e de alguns menos em hora, momento e lugar errados. Para os outros. Que riem de inveja de não serem assim. E de medo de não agüentarem, caso um dia venham a ser. O diferente é um ser sempre mais próximo da perfeição.
O diferente nunca é um chato. Mas é sempre confundido por pessoas menos sensíveis e avisadas. Suponho encontrar um chato onde está um diferente, talentos são rechaçados; vitórias adiadas; esperanças mortas. UM diferente medroso, este sim acaba transformando-se num chato. Chato é um diferente que não vingou.
Os diferentes, muito inteligentes percebem por que os outros não os entendem. Os diferentes raivosos acabam tendo razão sozinhos, contra o mundo inteiro. Diferente que se preza entende o porquê de quem o agride. Se o diferente se mediocrizar mergulhará no complexo de inferioridade.
O diferente paga sempre o preço de estar - mesmo sem querer – alterando algo, ameaçando rebanhos, carneiros e pastores. O diferente agüenta no lombo a ira do irremediavelmente igual; a inveja do comum; o ódio do mediano. O verdadeiro diferente sabe que nunca tem razão mas que sempre está certo.
O diferente começa a sofrer cedo, já no primário, onde os demais de mãos dadas, e até mesmo alguns professores por omissão ( principalmente os mais grossos ), se unem para transformar o que é peculiaridade e potencial em aleijão e caricatura .O o que é percepção aguçada em " – puxa, fulano, como você é complicado". O que é o embrião de um estilo próprio em: " – Você não está vendo como todo mundo faz ? "
O diferente carrega desde cedo apelidos e marcações nos quais acaba transformando-se. Só os diferentes mais fortes do que o mundo se transformaram ( e se transformam) nos seus grandes modificadores.
Diferente é o que vê mais longe do que o consenso. O que sente antes mesmo dos demais começaram a perceber. Diferente é o que se emociona enquanto todos em torno agridem e gargalham.
Diferente é que engorda mais um pouco; chora onde outros xingam; estuda onde outros burram. Quer onde outros cansam. Espera de onde já não vem. Sonha entre realistas. Concretiza entre sonhadores. Fala de leite em reunião de bêbados. Cria onde o hábito rotiniza. Sofre onde os outros ganham.
Diferente é o que fica doendo onde a alegria impera. Aceita empregos que ninguém supõe. Perde horas em coisas que só ele sabe importantes. Engorda onde não deve. Diz sempre na hora de calar. Cala nas horas erradas. Não desiste de lutar pela Harmonia. Fala de amor no meio da guerra. Deixa o adversário fazer o gol porque gosta mais de jogar que de ganhar.
Diferente é o que aprendeu a superar o riso, o deboche, o escárnio e a consciência dolosa de que a média é má porque igual. Os diferentes aí estão : enfermos; paralíticos; machucados; engordados; magros demais; bonitos demais; inteligentes em excesso; bons demais para aquele cargo; excepcionais; narigudos; barrigudos; joelhudos; de pé grande; feios; de roupas erradas; cheios de espinhas; de mumunha; de malícia e de baba. Os diferentes aí estão, doendo e doendo, mas procurando ser , conseguindo ser , sendo muito mais.
A alma dos diferentes é feita de uma luz além. Sua estrela tem moradas deslumbrantes que eles guardam para os poucos capazes de os sentir e entender. Nessas moradas estão tesouros da ternura humana. De que só os diferentes são capazes.
Não mexa com o amor de um diferente. A menos que você seja suficientemente forte para suportá-lo depois.
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meraluz
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dezembro 13, 2005 10:26 AM
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dezembro 3, 2005 01:18 AM
Palavras
Ah, se eu pudesse ser irresponsável com as palavras, desferi-las ao vento, a quem bem entendesse e a qualquer momento... Deixá-las à vontade, despidas de qualquer pudor, libertas de qualquer nexo ou coerência, mantidas à maxima distância possível da instância cerebral, que é onde o "bom comportamento" se processa. Mas não... Tenho que enchê-las de razão e de cuidados, porque sei de seus poderes; sei que, uma vez proferidas, não mais voltarão à minha boca. A palavra imprudente pode criar um caos - seja em quem a emite, seja em quem a recebe. Pior, pode criar paraísos inexistentes, impérios que terminam logo ali, sensações que fogem ao controle e erros, muitos erros em sua tradução aos sentimentos.
Tudo se faz com palavras, e tudo se desfaz com elas. Banalizá-las ou silenciá-las, eis a saída. Banalizar é medíocre, mas inócuo, porque usamos muitos verbos para dizer nada. Silenciar pode ser mais grave, porque há silêncios que são capazes de dizer tudo sem verbo nenhum. Porém, banalizar e silenciar têm em comum a proteção do verbo maior: sentir. E é isso que me impede de ser irresponsável com as palavras: a preservação do sentir - do meu próprio e o do meu interlocutor (ou leitor).
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meraluz
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dezembro 3, 2005 01:18 AM
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dezembro 1, 2005 08:11 PM
Timidez, o cacete! Isso é medo de rejeição!
Meu amigo H. me diz que é tímido com mulheres, ao que eu respondo, sem perder a oportunidade de lançar-lhe uma risadinha sarcástica: "Timidez o cacete! Você tem é pavor à rejeição. Seu orgulho de macho só lhe permite atirar no certo. Daí chama de timidez à iniciativa que não teve coragem de tomar, por não suportar a possibilidade de um NÃO".
Pela sua expressão, minha resposta não agradou muito, óbvio. Mas H. não contestou. Parou, pensou e admitiu que eu poderia ter "alguma" razão (imagine se iria me dar total razão?). Diante do seu semblante desconcertado, pensei comigo: "Na mosca!".
Há quem confunda timidez com esse tal pavor à rejeição. O tímido não tem que ter necessariamente fobia à rejeição e vice-versa. Muitos fatores podem compor o perfil de um tímido, inclusive a própria natureza. No caso de H., sei que não é timidez porque já o conheço de velhos carnavais. Ninguém gosta da rejeição porque ninguém é masoquista, é um fato. Mas o baixo grau de resistência que se tem a ela pode tornar a vida muito complicada, uma vez que deixamos de arriscar determinados movimentos que podem resultar num final feliz - ou mesmo num momento feliz, o que já terá valido a pena. Acomodamo-nos na situação de espera, na dependência do movimento do outro, que pode acontecer ou não. E se o outro for um igual? Quanto se terá perdido?
Penso que vencer a timidez é mais difícil que vencer o medo à rejeição. Pois, nesta última situação, é apenas uma palavrinha que precisa ser trabalhada: "não". Se a vida é feita de tantos "nãos", viver como se eles não existissem é viver de forma irreal e é também se negar às felizes possibilidades do "sim".
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meraluz
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dezembro 1, 2005 08:11 PM
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