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janeiro 28, 2006 05:02 PM
Encontros e desencontros
Nenhum encontro acontece por acaso. Conseguimos explicar alguns, outros não. Mas, certamente, cada encontro tem sua razão de ser, até os mais efêmeros. Quanto aos desencontros, eles só passam a existir quando não respeitamos o tempo de duração de cada encontro ou quando não conseguimos compreender suas razões. Assim, para evitarmos um desencontro, é preciso contar com a sensibilidade de perceber o momento certo de partir. E partir é sempre tão difícil... Mas, ao entendermos que a missão foi cumprida, o melhor é bater em retirada para que encantos não se quebrem, para que as memórias sejam ternas e suaves como as boas canções, para que a passagem pelo outro permaneça especial e leve como cheiro de alfazema.
Às vezes, nossa missão num determinado encontro é tão somente a de ajudar o outro a sorrir, a se distrair de suas dores, a plantar uma flor no caos, a acender uma ou outra luz, até que a travessia para um novo ciclo seja feita. Insistir em ficar, ao percebermos que o outro já consegue sorrir sem a nossa interferência, que já pisa em terra firme e estabiliza seu universo, é bobagem. Já não seremos tão necessários. A missão foi cumprida e o encontro justificado. Levamos dele os bons momentos, as descobertas, os risos e o aprendizado compartilhados, além da certeza de que seguiremos mais crescidos. E, a despeito da dificuldade das partidas e das ausências, levamos ainda a dor feliz de saber que aquele que fica atingiu, enfim, seu ponto de bem-estar.
Permanecer no encontro, após o cumprimento de uma missão, só faz sentido se o outro mostrar, explicitamente ou não, a importância de se ficar mais um pouco - ou muito mais -, pois que não há nada mais sem sentido num encontro do que a sua desimportância.
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meraluz
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janeiro 28, 2006 05:02 PM
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janeiro 27, 2006 01:25 PM
Eu detesto literaturas de auto-ajuda!

Já faz algum tempo que um bombardeio de manuais de auto-ajuda tomou conta, exitosamente, do mercado de ilusões e de iludidos. Um psicanalista amigo meu diz que esse tipo de literatura ou textos "bem-intencionados", no final, acabam por recrudescer os estados depressivos. Comparando os manuais de auto-ajuda a manuais de fuga momentânea dos problemas, alega que é exatamene esta fuga que culminará na catástrofe da depressão, porque não há como estar na vida sem experimentar frustrações, e fugir delas é um mal maior.
Não há fórmulas exatas para a felicidade, para o sucesso, para estrondos sexuais. Tudo mentira! O maior beneficiado desse tipo de literatura é o autor medíocre, que engorda sua conta bancária, às custas de uma mercadoria cuja demanda é cada vez maior em nossos dias: a esperança dos tolos.
Então não se iluda. Após ingerir essas "pílulas de otimismo", você não será um ser humano melhor nem seus problemas deixarão de existir. Não conquistará a pessoa amada, não atingirá o sucesso profissional, não se transformará num atleta sexual, nem resgatará sua auto-estima com essas "guidelines" da alienação. O mundo não olhará pra você como uma criatura iluminada e bem resolvida. Tudo mentira! Não será através desses textos - literariamente baratos, em sua maioria - que o leitor encontrará a password do
bem-estar e da felicidade.
Para mim, soa mais verdadeiro afirmar que o melhor ainda é não ter medo de ir ao fundo do poço e de si mesmo para, posteriormente, ajudar a si mesmo na promoção de algum bem-estar. Resumindo todo esse blablablá: o melhor é deixar a vida se precipitar, sem literaturas.
Deixa a vida me levar...
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meraluz
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janeiro 27, 2006 01:25 PM
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janeiro 19, 2006 10:32 AM
O coração, este insano...

Não, não discuta com esse louco. Sim, louco, porque tudo o que não se submete aos desígnios da razão é assim classificado. E, na briga entre os dois, o corpo e a alma adoecem. Vivo de duelar comigo mesma para calar a voz desse insano, para não deixar que comande meus movimentos. Mas tentar calá-lo com o pensamento lúcido, com argumentos lógicos e empíricos, pode custar tão caro quanto deixá-lo gritar ensandecido. Paga-se o preço da imobilidade. Razão e coração em litígio resultam na imobilização da vida como consequência. E ninguém, de sã consciência, pretende deter a vida; no máximo, algumas dores que ela produz. Só que, na tentativa de impedir a repetição de dores já processadas pela memória, ou seja, pela razão, acabamos interferindo na verdade dos sentidos.
"O coração tem razões que a própria razão desconhece" - Mentira, Blaise Pascal! Ele não tem razão alguma. É um descerebrado. Ele tem, sim, vontades e o mistério de sua linguagem própria, de seus caminhos próprios, que nenhuma gramática decifrará, que nenhuma cartografia reproduzirá, que nenhum manual de boa conduta dentro das previsíveis ordenações psicossociais explicará. O que se pode esperar de um elemento cuja função, no sentido restrito, é bombear sangue e fazê-lo circular por todo um organismo, e, no sentido lato, produzir vida a partir dos mais inusitados desejos, suprimir a noção do tempo, do espaço e do ridículo? É um louco, doido varrido. Um desprocessador de princípios, por natureza.
Por essas e outras, o melhor é parar de brigar com ele. Mas, por outro lado, não hei de lhe dar plenos poderes. Ah, isso não! Porque o demente, em suas distrações e encantamentos, pode nos conduzir a abismos sem volta. Proponho-me à mais difícil das tarefas: conciliá-lo com a razão. Deixar que ambos caminhem de mãos dadas e sem atritos. Se conseguir algum êxito nesta árdua façanha, terei comigo o equilíbrio necessário para garantir alguma paz, sem sacrificar o melhor da vida: senti-la em plenitude.
Ficamos assim: se o "louco" começar a provocar emoções destrutivas, a razão, agora mais humilde, entra em cena para negociar uma forma de preservar a própria vida que o coração produz e garantir algum bem-estar interior. E o coração, por sua vez, empresta à razão crítica um pouco mais de delicadeza e sensibilidade, de modo a não deixá-la esterilizar de todo as mágicas e a capacidade de se surpreender e se emocionar.
Mas discutir com ele, não. Bobagem, perda de tempo. Fazê-lo adormecer na marra, pura ilusão, pois o doido varrido despertará subitamente à primeira distração, quando menos se espera ("Sentir é estar distraído" - quanta sabedoria em Fernando Pessoa!). Entrar em guerra com ele é, no mínimo, preparar o caminho das depressões e da amargura, porquanto se aprisiona a vida, e isso não fica nada bem na fita. Deixá-lo falar, mas sem que precise berrar. Só uns gritinhos de vez em quando. Deixá-lo se manifestar, assim como quem canta uma canção suave. O ruídos dos desassossegos só acontecem quando razão e coração insistem em falar, simultaneamente e em idiomas completamente distintos, sobre o mesmo objeto. Se a razão, teórica e pedante, disser "Não vá por aí, que, segundo o pensamento lógico, há chances se machucar", o coração deve responder: "Vou porque a vida me chama, mas quero contar com sua ajuda, se precisar voltar."
Creio que assim fica mais fácil. Teoricamente, teoricamente... Afinal, há quem diga que "a vida tem sempre razão". Tem?
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meraluz
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janeiro 19, 2006 10:32 AM
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janeiro 12, 2006 10:43 AM
É que eu pensei que...

Eu pensei que...
Que importa o que eu pensei se, no final, a gente embaralha pessoas, coisas e circunstâncias e dá tudo no mesmo? É o mesmo jogo, a mesma fórmula barata para os fenômenos da existência e seus personagens, que caem sempre num materialismo contumaz.
É que, às vezes, por não suportarmos essa ideia, a gente comete o erro de "pensar que" pode ser tudo muito diferente.
Mas, como costumo assinalar de vez em quando, com dois ou três "E daís?" a gente consegue desconstruir até a Teoria da Relatividade de Einstein, cuja língua pra fora, a zombar do mundo, tornou-se um registro histórico de impacto muito maior.
É que eu pensei que...
- E daí?
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meraluz
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janeiro 12, 2006 10:43 AM
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janeiro 7, 2006 10:17 PM
Quando se abre mão de um sonho?
Quando se abre mão de um sonho? Os medrosos dirão: - Quando há possibilidade de se transformar o sonho em realidade, que sempre implica o duplo risco da perda do sonho e da realidade sonhada, sem oferecer garantias.
Os aventureiros: - Nunca! É pagar para ver. Se não der certo, muda-se de sonho. E, de sonho em sonho, vamos trapaceando a realidade.
Os lunáticos: - Sonho? Que sonho? - uma vez que moram em suas permanentes fantasias.
Os céticos: - Não acreditamos em sonhos.
Os românticos: - Acreditamos em um final feliz, no amor e na justiça! Nunca abriremos mão de sonhar.
Os pessimistas: - Quando esse sonho pode se transformar em pesadelo, o que é muito comum.
Os otimistas: - O impossível demora mais um pouco.
Os práticos: - Quando a previsão para a realização desse sonho exceder seu prazo-limite, trazendo prejuízos reais.
Os egoístas: - Atropelaremos todos os que se interpuserem no caminho de nossos sonhos!
Os insensatos: - Na hora da colisão!
Os sensatos: - Quando há grandes possibilidades de esse sonho vir a nos ferir.
Os altruístas: - Quando há uma possibilidade de esse sonho vir a ferir os personagens do nosso afeto.
Porém, apesar das divergências, haverá sempre o mesmo ponto em comum: todos sonham, até os céticos.
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meraluz
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janeiro 7, 2006 10:17 PM
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Algumas grandes de Fernando Pessoa

Costumo rabiscar meus livros, assinalando aquilo que me falou à alma. A coletânea de Pessoa, por exemplo, está quase toda marcada. Reproduzo aqui alguns trechos que marcaram as minhas próprias páginas:
- Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos, se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias, mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro ouvindo correr o rio e vendo-o... (Ricardo Reis)
- Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo. E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar... Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio. (A.Caeiro)
- Pobres das flores nos canteiros dos jardins regulares. Parecem ter medo da polícia... (A.Caeiro)
- Temos, todos que vivemos, uma vida que é vivida e outra que é pensada, e a única vida que temos é essa que é dividida entre a verdadeira e a errada.
- Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora; E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse, Que nunca é o que se vê quando se abre a janela. (A.Caeiro)
- Eu não tenho filosofia; tenho sentidos... Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é, Mas porque a amo, e amo-a por isso. Porque quem ama nunca sabe o que ama, nem sabe por que ama, nem o que é amar... Amar é a eterna inocência, e a única inocência não pensar...
- Ai que prazer não cumprir um dever, ter um livro pra ler e não o fazer!
- Para ser grande, sê inteiro; nada teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa, põe quanto és no mínimo que fazes.
- Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã... Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã, e assim será possível; mas hoje não..
- Arre, estou farto de semideuses! Onde é que há gente no mundo? Então só eu que é vil e errôneo nesta terra?
- O amor causa-me horror; é abandono, intimidade... Não sei ser inconsciente... E tenho para tudo [...] a consciência, o pensamento aberto, tornando-o impossível... E sinto horror a abrir o ser a alguém.
- A ciência, a ciência, a ciência... Ah, como tudo é nulo e vão! A pobreza da inteligência ante a riqueza da emoção!
- Se alguém bater um dia à tua porta, dizendo que é um emissário meu, não acredites; nem que seja eu. Que o meu vaidoso orgulho não comporta bater sequer à porta irreal do céu.
- Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica. Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo. Com todo o direito a sê-lo, ouviram?
- Tão abstrata é a idéia de teu ser que me vem de te olhar que, ao entreter meus olhos nos teus, perco-os de vista...
- O teu silêncio é uma nau com todas as velas pandas...
- O universo não é idéia minha, minha idéia do universo é que é idéia minha.
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E mais, muito mais... Um blog inteiro seria insuficiente. Pessoa é mais que poesia, é um profundo conhecedor das angústias e das delícias da alma humana.
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meraluz
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janeiro 7, 2006 11:31 AM
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janeiro 6, 2006 01:32 PM
Um pouco de Roland Barthes
(in Fragmentos do Discurso Amoroso, 13ª ed., 1995 - Ed. Francisco Alves - pg.98)
Sobre "Eu-te-amo" "Passada a primeira confissão, "eu te amo" não quer dizer mais nada; apenas retoma de um modo enigmático, de tanto que ela parece vazia, a antiga mensagem (que talvez não tenha passado por essas palavras). Eu o repito fora de toda pertinência; ele sai da linguagem, divaga, onde?
...
Eu-te-amo não tem empregos. Essa palavra, tanto quanto a de uma criança, não está submetida a nenhuma imposição social; pode ser uma palavra sublime, solene, frívola, pode ser uma palavra erótica, pornográfica. É uma palavra que se desloca socialmente.
Eu-te-amo não tem nuances. Dispensa as explicações, as organizações, os graus e os escrúpulos. De uma certa forma - paradoxo exorbitante da linguagem -, dizer "eu-te-amo" é fazer como se não existisse nenhum teatro da fala, e é uma palavra sempre verdadeira (não tem outro referente a não ser seu proferimento: é um performativo).
...
Eu-te-amo - Eu-também
Eu fantasio aquilo que é empiricamente impossível: que nossos dois proferimentos sejam ditos ao mesmo tempo; que um não suceda ao outro, como se dependesse dele. O proferimento não devia ser duplo (desdobrado): só lhe convém o clarão único, onde duas forças se reúnem (separadas, desencontradas, elas não passariam de um comum acordo). O clarão único realiza, pois, essa coisa rara: a abolição de toda contabilidade. A troca, o dom, o roubo (únicas formas conhecidas da economia) implicam, cada um a seu modo, objetos heterogêneos e um tempo desencontrado: meu desejo em troca de outra coisa - e o tempo de que se precisa para a transmissão. O proferimento simultâneo funda um movimento cujo modelo é socialmente desconhecido, impensável; nosso proferimento, que não é troca, nem dom, nem roubo, surge de fogos cruzados, designa um gasto que não recai em lugar nenhum e do qual todo pensamento de reserva é abolido pela própria comunidade: entramos um pelo outro no materialismo absoluto."
--------------------------------- Nota pessoal: penso que os filósofos deviam tentar amar mais e explicar menos. Mas que, lexicalmente falando, o Barthes escreve bonito, ah escreve! :))
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janeiro 6, 2006 01:32 PM
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janeiro 4, 2006 12:47 PM
É simples!

É preciso revolver todos os resíduos, desconstruir mundos, sofrer tudo, desprocessar ideias, tocar na loucura, para redescobrir o sentido da vida nas simplicidades e na linguagem dos puros. É simples: abrir mão das coisas de pensar em benefício das coisas de sentir. E, se houver medo de sentir, é porque não se abriu mão das coisas de pensar. Nos meus dias, tudo o que vejo é um medo enorme - quase sempre inconfesso - das vontades simples. Parece que conviver com as simplicidades tornou-se um movimento inviável. Mas, despida dos dogmas na contramão, eu simplesmente, insisto nelas...
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meraluz
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janeiro 4, 2006 12:47 PM
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janeiro 2, 2006 07:46 PM
Quando o SIM diz NÃO...
A gente fala, a gente sinaliza, a gente mostra o perigo, a gente chama de volta, e não veem, não ouvem. Por meses, anos, tentamos alertar que, se certos erros não forem sanados, tudo se vai no escorredouro do tempo, de modo irreversível. E que haverá um momento em que todos os esforços terão sido em vão. Mas parece que não nos ouvem. E, se ouvem, não nos acreditam. Nada fazem, nada tentam mudar, continuam a repetir os mesmos movimentos - ou a ausência deles - como se fossem divindades acima do bem e do mal, que pudessem assumir todos os controles do destino e daqueles que por ele passam.
Então, chega a hora inapelável do NÃO, e tudo muda. Quando todas as tentativas já se exauriram, aí conseguem enxergar o SIM. Querem porque querem o SIM, quase que obstinadamente. Chegam a prometer o mundo, sem ao menos consultá-lo sobre sua disponibilidade de ser ofertado. Mas é só porque o SIM agora está longe, inacessível, fora de controle. Aí tentam fazer em um dia o que se recusaram a fazer durante anos. Insistem em nos convencer de que tudo será diferente, de que tudo será como antes amanhã... Não, não e não. Quando se deixa escapar o tempo dos reparos, não há mais o que se fazer. O tempo oxidou todos os componentes da história e suas possibilidades. Nada resta a não ser imagens congeladas de um passado remoto, quase irreal. É assim...
Não sei por que alguns só compreendem o SIM no momento inexorável do NÃO. Pergunto-me se o homem não precisa da eterna insatisfação para dar continuidade à sua sobrevivência emocional. É uma pena... É uma pena... Não era pra ser assim.
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meraluz
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janeiro 2, 2006 07:46 PM
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