janeiro 07, 2006

Algumas grandes de Fernando Pessoa

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Costumo rabiscar meus livros, assinalando aquilo que me falou à alma. A coletânea de Pessoa, por exemplo, está quase toda marcada. Reproduzo aqui alguns trechos que marcaram as minhas próprias páginas:

- Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos, se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias, mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro ouvindo correr o rio e vendo-o... (Ricardo Reis)

- Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo. E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar... Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio. (A.Caeiro)

- Pobres das flores nos canteiros dos jardins regulares. Parecem ter medo da polícia... (A.Caeiro)

- Temos, todos que vivemos, uma vida que é vivida e outra que é pensada, e a única vida que temos é essa que é dividida entre a verdadeira e a errada.

- Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora; E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse, Que nunca é o que se vê quando se abre a janela. (A.Caeiro)

- Eu não tenho filosofia; tenho sentidos... Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é, Mas porque a amo, e amo-a por isso. Porque quem ama nunca sabe o que ama, nem sabe por que ama, nem o que é amar... Amar é a eterna inocência, e a única inocência não pensar...

- Ai que prazer não cumprir um dever, ter um livro pra ler e não o fazer!

- Para ser grande, sê inteiro; nada teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa, põe quanto és no mínimo que fazes.

- Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã... Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã, e assim será possível; mas hoje não..

- Arre, estou farto de semideuses! Onde é que há gente no mundo? Então só eu que é vil e errôneo nesta terra?

- O amor causa-me horror; é abandono, intimidade... Não sei ser inconsciente... E tenho para tudo [...] a consciência, o pensamento aberto, tornando-o impossível... E sinto horror a abrir o ser a alguém.

- A ciência, a ciência, a ciência... Ah, como tudo é nulo e vão! A pobreza da inteligência ante a riqueza da emoção!

- Se alguém bater um dia à tua porta, dizendo que é um emissário meu, não acredites; nem que seja eu. Que o meu vaidoso orgulho não comporta bater sequer à porta irreal do céu.

- Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica. Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo. Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

- Tão abstrata é a idéia de teu ser que me vem de te olhar que, ao entreter meus olhos nos teus, perco-os de vista...

- O teu silêncio é uma nau com todas as velas pandas...

- O universo não é idéia minha, minha idéia do universo é que é idéia minha.

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E mais, muito mais... Um blog inteiro seria insuficiente. Pessoa é mais que poesia, é um profundo conhecedor das angústias e das delícias da alma humana.

Posted by meraluz at janeiro 7, 2006 11:31 AM