Questiono-me se esse centramento, essa sensatez, chega com a idade... Sinto falta das minhas loucuras, da vocação para transgredir, de não me importar com causas, efeitos ou coerências. Não faz muito tempo, a vida era um caleidoscópio, imprevisível em suas cores e desenhos. Os desejos eram tão fartos que não cabiam na existência. Eu não precisava fazer sentido, nem muito menos explicá-lo. Atirava-me à vida e aos sonhos, sem medidas, sem contenções. Era bom, era ruim, era tudo. Tudo no mais pleno estado de ser.
Aí vem o tempo - esse repetidor e emulador de experiências, esse aniquilador de substâncias redivivas, esse sinalizador de perigos, esse pretenso sábio no ofício da auto-preservação - calar em mim as hipérboles, os derramamentos, os delírios, a loucura que me conduzia às nuvens ou aos mais profundos subterrâneos. Seria isso a "insustentável leveza do ser"? De tão esvaziada, flutuo sem peso e vejo a vida à distância, como se estivesse a observar um velho e conhecido fenômeno. Razão é sabedoria? Duvido muito. Não se constrói grandes histórias com ela. Porém, com as minhas loucuras criei histórias sem fim. E, se elas me extenuaram, valeu o preço!
Maldita sensatez essa, que me faz ficar no exato e seguro lugar em que estou.