dezembro 15, 2005

Hoje, excepcionalmente cartártica e intimista...

Mas não é que ouvi algo de "um certo alguém" que não me saiu da cabeça? Difícil alguma coisa me bolar assim, mas é que o comentário em questão desencadeou uma série de pensamentos que eu não queria pensar, porque ando afastada das abstrações existencialistas. A frase propulsora foi algo como: "Assim você se arrisca a ficar sem história nenhuma..." - Ô, frasezinha miserável essa, hein?...

Ah, sim, o contexto: não entendi bem, mas acho que o contexto remetia a alguma coisa do tipo "quem tem muitas histórias não tem nenhuma". E eu tive algumas histórias. Não muitas, porque foram longas e profusas. Mas algumas. Na medida exata das minhas demandas interiores.

Arriscar-me a ficar sem histórias já não é possível, porque minhas histórias já foram contadas e eu sou um mero resultado delas, o que já é uma outra história. Mas o comentário bateu mal porque eu tive que me repensar toda só pra poder afirmar com certeza, pra mim mesma, que não me banalizei ao longo da vida. Morro de medo de ser confundida com um ser volúvel. Não gosto dos volúveis, e isso é válido até para Vinícius de Moraes, com toda a licença poética que ele esbanja.

Parêntesis: Vinícius que me perdoe, mas a tradução de todo o seu fascinante lirismo se resume a uma puta infantilidade dos sentidos, que se cansam facilmente quando acaba a festa. Poetinha, tenho profundo respeito pela sua magnífica obra, mas que você é um pobre diabo insatisfeito, ah isso é. E seus êxtases semânticos nunca me convenceram!

Mas, voltando à origem deste texto, ou à vaca fria, que é um termo esdrúxulo...

neverending.jpgNunca desejei o fim de minhas histórias, dos meus romances, dos meus projetos, das minhas causas ou sei lá que nome isso deva ter - nomear é sempre um perigo. Morri um pouco ao fim de cada uma delas. Mas, por outro lado, tudo fiz para torná-las grandes e boas de contar, me aprendi e aprendi um pouco mais do mundo ao vivê-las. Já vivi histórias maiores do que o meu próprio ser. E tudo fiz para preservá-las. Se elas se findaram, foi porque assim tinha de ser. Foi porque não tive a felicidade de encontrar o objeto exato das minhas buscas, a criatura que coubesse exatamente dentro da minha vida, do meu amor ou da minha idéia de amor. Não encontrei, paciência... Se vou encontrar? Pode ser, já que sou uma criatura viva num mundo de tantas possibilidades. Mas não tenho idéia fixa. Errado seria viver qualquer coisa, viver por viver, me perder de mim. E de mim não me perdi não...

O grande espetáculo que esperava viver não aconteceu, pelo menos até aqui. Todos os episódios anteriores, e dos quais não retiro a importância, não passaram de "quases" que acabei confundindo com a grande história definitiva, com a "história sem fim", e que, por terem sido "quases", sucumbiram. Não sei se essa "história sem fim" existe mesmo. Queria muito que existisse, mesmo sem poder vivenciá-la nesta minha passagem pelo planeta. Mas não importa... Importa é que, ao final de tudo, o saldo que fica é o seguinte:

Minha história sou eu, que não me perdi nas variações do meu tema central. Percorri escalas semitonadas mas sempre soube retornar ao meu acorde inicial. Não foi fácil compreender que portos seguros não existem, a não ser dentro de nós mesmos. Algumas pessoas precisam dessa ilusão, não sou eu que vou estragar sua festa. Mas a vida, definitivamente, não é um porto seguro, pois o tempo não pára, ainda que paralisem todos.

Posted by meraluz at dezembro 15, 2005 02:09 AM