Não costumo dar tiros mortais na esperança alheia. Por mais inexequível que uma situação me pareça, por mais que ouça histórias de realizações improváveis, não tenho o direito de apagar a última chama de quem pouco tem ao que se apegar. Não quero deixar ninguém no escuro. O escuro é um lugar feio, onde muitos só sobrevivem a partir de uma última fresta de luz - a esperança -, independentemente de futuras concretizações.
A esperança é o alimento do desesperado, a possibilidade de fortalecimento dos temporariamente frágeis, uma filha que as incertezas devastadoras são levadas a gerar para que a alma não morra.
Assim, quando estou diante algum coração partido, sempre assinalo que a força interior é capaz de modificar cenários e enredos, até mesmo os mais imobilizados. Sempre aceno com as possibilidades apaziguadoras que moram no futuro. E sempre recorro a Pessoa, que diz: "A esp'rança é um dever do sentimento".
Se esta esperança que não matei vai morrer ali adiante, se vai se transformar em realidade, não sabemos. Mas não é o mais importante. O importante é que sua ausência, num momento indevido, torna impossível o sossego da alma. Sem ela, fica impossível caminhar. E é preciso caminhar.
E, quem sabe, ao caminhar, novas e melhores histórias vão tomando o lugar daquelas histórias que não se realizaram; quem sabe, ao caminhar, a esperança cumpra o seu papel transformador e aquilo que parecia impossível possa ser tocado. Quem sabe? O importante é que, de uma forma ou de outra, teremos sido salvos por ela, a esperança, que é um dever do sentimento.
Posted by meraluz at outubro 20, 2004 03:36 PM | TrackBack