outubro 15, 2004

Grande angular, pontos de vista e greves.

Lembro que, quando fotografava, não era muito adepta à lente "grande angular". Sempre dava preferência às tele-objetivas que aproximavam e evidenciavam um alvo singular do meu interesse, desprezando todo o cenário à sua volta. O panorama geral e completo ficava esquecido e meu olhar enquadrava no visor apenas o que me interessava. E o objeto-alvo adquiria uma evidência, uma ênfase irreal em relação a mil outros objetos que compunham um determinado contexto. Hoje, pensei na importância da "grande angular", tão democrática e tão isenta. Por que pensei nesta lente tão distanciadora? Por causa da greve dos bancários. Não, não estranhem. Explico.

Meu primeiro emprego foi no Banco do Brasil, do qual ousei me demitir. E, por algumas vezes, participei de greves e piquetes, talvez mais por uma questão ideológica do que pelas reivindicações em si. Pacientemente, diante das portas fechadas, tentava convencer os clientes das injustiças sociais e abusivas sofridas pelo trabalhador. Tele-objetiva nos meus problemas. Uns compreendiam, outros esbravejavam. Tele-objetiva nos problemas deles.

Hoje, passados alguns anos, surpreendi-me esbravejando contra os grevistas. Estava do lado oposto e tudo o que conseguia ver era que esta greve me infernizava (e continua a infernizar) a vida. Não queria saber das razões daqueles que atrapalhavam todo o meu cotidiano. Tele-objetiva nos meus problemas. Parei e pensei. Hora de usar a "grande angular" e enquadrar a cena dentro de um contexto mais amplo e geral. A greve tem sido um estorvo para mim e para toda a sociedade. Mas, por outro lado, surge a questão: é justo deixar que o (des)Governo imponha tanto ônus à classe trabalhadora, quando banqueiros enchem a burra de dinheiro? Por que o (des)Governo deve favorecer apenas aos donos do capital? (Acho que todos sabemos a resposta, mas não cabe discuti-la aqui). Aplaquei minha impaciência e passei a focar pontos maiores do que as minhas pequenas causas.

E concluí: é preciso reagir sim. Porém, de forma sensata, sem atrair a antipatia popular e garantindo os serviços essenciais. A greve bem conduzida é a melhor e mais digna forma de luta dos trabalhadores. Mas deve-se tomar cuidado com suas conseqüências para a sociedade. Afinal, não há só bancários (ou outra categoria qualquer) no mundo. Muito cuidado nessa hora. Usemos a grande angular, pensemos além de nossos pequenos mundos e causas, e prejudiquemos o mínimo possível, quando não houver outro jeito. Grande angular para considerar os problemas de todos.

Posted by meraluz at outubro 15, 2004 03:13 PM | TrackBack