"A mentira é uma verdade que esqueceu de acontecer" - li, certa vez, num livro de Mário Quintana. Não vou usar aqui a mentira como vilã para falar dela. A vilania está nas intenções, das mentiras e, muitas vezes, também das verdades. Mas a frase acima dá um tratamento um tanto benevolente demais a um recurso que não é dos mais nobres.
Quem nunca usou uma mentirinha na vida que atire a primeira pedra, principalmente quando foi o caso de salvar a própria pele ou a pele de quem se gosta. O grande problema da mentira é que, ao se contar a primeira, vamos precisar de mais outras mil para sustentá-la, para que não nos desacreditem. Então é um artifício extremamente trabalhoso para ser usado com frequência.
Há mentiras lindas, esplendorosas, que nos fazem sonhar, que nos deixam felizes. A esse tipo de mentiras alguns preferem recorrer ao eufemismo e chamá-las de ilusões. Não importa o termo, uma ilusão não deixa de ser uma mentira pra fertilizar os sonhos. Importa é admitir que, se servem para tornar alguém mais feliz, elas não são tão vilãs assim. Só não podem ser descobertas, porque aí a produção de suas fascinantes irrealidades vai se transformar numa produção de terríveis realidades. E ainda vai obrigar a verdade a mostrar a sua cara feia, embora digna. Os mentirosos ou ilusionistas devem cuidar para não deixar qualquer rastro que possa exterminar com suas tão eficazes mentiras.
Quando criança, contaram-me com tanta verossimilhança que Papai Noel existia, que eu passei a enfrentar toda a minha turminha de amigos, batendo na tecla de que o velhinho existia mesmo. Fui motivo de pilhéria mas ninguém me convenceu do contrário, porque tal afirmação tinha vindo das pessoas em que eu mais confiava. É fácil imaginar qual não foi minha decepção quando vi minhas cartas jogadas dentro de uma gaveta e a bicicleta que pedi escondida atrás da cortina. Hoje, já vivida, vejo que a sensação dessas descobertas se repete e não muda muito a nível de desapontamento. Mudam apenas os contextos. Certas mentiras, quando descobertas, são capazes de suprimir o chão e modificar toda uma vida.
Quanto a perdoar ou não perdoar uma mentira, penso que seja uma questão de foro íntimo. Fica a critério de cada um, de seus juízos de valor e das importâncias atribuídas a fatos ou pessoas. Há limites pra tudo e cada um sabe onde é o seu. O que é de fato muito triste é quando as mentiras se repetem ao ponto de comprometer o que há de mais fundamental em qualquer relação de afeto: a confiança. Por essas e outras, sempre achei que a verdade, mesmo não sendo tão artificialmente bela e confortável como certas mentiras, dá menos trabalho. Menos sedutora e até bastante relativa em suas intenções, a verdade nos poupa de futuras catástrofes, a exemplo do que diz Bernard Shaw: "O castigo do mentiroso não é ficar desacreditado, mas sim não poder acreditar em ninguém". E esta é a maior das catástrofes.
Posted by meraluz at julho 24, 2005 04:52 PM