abril 05, 2005

A dor é a saudade do riso

Todo drama nada mais é do que a saudade do riso. Só que o drama costuma tomar proporções gigantescas, assumir um aspecto folhetinesco, exagerado. Parece até que as dores são providas de importância e seriedade maiores do que aquelas que uma alegria contém. Mas não são. Quando doemos, estamos sentindo falta de momentos felizes, despretensiosos e simples. Desses momentos que, quando irrompem, parecem ser feitos de pequenas dimensões, porque estamos ali distraídos e ocupados em viver para prestarmos atenção no seu tamanho ou tentar explicá-los. Pois eu ouso afirmar que o riso é a grande dimensão da existência, é onde nos libertamos e exercemos nossa função principal (viver), já que investimos nele o melhor de cada sentido vital.

Se as dores parecem mais hiperbólicas, talvez seja porque seu eco reverbere mais polifonicamente dentro de cada um de nós, uma vez que, para senti-las, há prejuízo e descompensação dos sentidos, que se apresentam bem longe de sua plenitude e muito voltados para dentro, saudosos de passados ou medrosos de futuros.

Portanto, o que eu teria a dizer aqui e agora é: investir na alegria e no riso, investir na leveza de ser, trocar luminosidade com o outro. Há sempre um lado engraçado de se ver a vida, até mesmo a partir dos nossos próprios erros e ruínas. A comicidade pode ser algo muito mais sério do que se possa supor. Então, a palavra de ordem é "sair em busca do riso" sempre que possível. Nem sempre é possível, bem o sabemos. Não somos hienas ufanistas, nem o riso cabe em todas as horas. Mas também não chamemos pelas dores, colocando sobrecargas desnecessárias nos acontecimentos. Elas têm uma capacidade invejável de se apressar em chegar, sempre que as chamamos.

Investir no riso e reinventar momentos de alegria é a grande arte. E não é uma arte menor, ao contrário do que possa parecer. O réquiem trágico de uma dor não canta senão o desejo de repetir os dias de simples e despretensiosas felicidades.

Posted by meraluz at abril 5, 2005 10:46 AM