Mergulho no bolero que e(s)coa pela voz de Nana Caymmi. Bolero na voz de Nana implica sérios riscos de suicídio para quem está sofrendo de mal de amor. Não é o meu caso. Mas gostaria que fosse. Queria que esta canção me levasse aos estertores, me roubasse lágrimas, me devastasse. Mas não... Desprovida hoje de qualquer estado de paixão, apenas ouço uma bela canção na voz rouca de uma louca que canta o amor a partir de suas vísceras.
E ela fere o ar com sua voz de veludo:
Eu quero amar demais
Sem poupar coração
Que pra mim o amor que apraz
É uma louca paixão
Um amor só satisfaz
Além da razão.
(ouça abaixo)
E eu lamento por não estar amando. Por não sentir aquelas dores lancinantes, já conhecidas e repetidamente vividas, que maltratam mas fazem o coração pulsar, vir à boca para berrar que estamos vivos. Ah, se eu pudesse voltar a sentir essas ondas alucinógenas de paixão por alguns minutos apenas, ainda que fosse pelo tempo que durasse esta canção...
Mas eu não posso. É impossível sentir essas coisas só por um tempinho, na forma da amostra-grátis. E a longo prazo não quero mais. Lacrei-me ao acorde derradeiro da última paixão vivida. Curei-me de toda e qualquer insensatez que ela produziu. Agora estou tão leve que quase posso voar... Mas estou leve porque estou vazia. Não é bom nem ruim. É como escolhi que fosse.
Poderia me apaixonar novamente? Sim, desde que eu quisesse. Desde que eu me abrisse novamente aos riscos. Mas daria tanto trabalho, esgotaria tantas forças, dilataria tantas veias, que é melhor a serenidade de estar no mundo sem os descompassos dos exageros. Pelo menos fica a certeza de que meu coração não mais será ferido de morte. Melhor ouvir o bolero entendendo que é apenas um bolero, e logo para de tocar.
Posted by meraluz at julho 24, 2010 09:06 PM