A frase acima é de Oscar Wilde. Touchée! É por aí. 
Desejos que não caminham para fora da imaginação tornam-se recorrentes e sufocantes, bem próximos de um quadro patológico. Uma vez instaurada a tentação, o caminho mais rápido para se livrar da maldita é vivenciá-la. Tocar o fruto proibido, sem medo de ser feliz, isto é, sem culpas.
Para quem não está acostumado a ousadias que extrapolem os limites do "bom-senso"(?), melhor então se armar de todas as defesas, para não deixar a tentação chegar perto. Neste caso, vale cegar-se, esterilizar-se, chicotear-se, até que o desejo ameaçador se dissipe e tudo volte a ficar em paz.
Stuart Mills resume com muita propriedade esse tipo de postura mais "low profile" ao dizer "Aprendi a obter felicidade limitando meus desejos, ao invés de libertá-los." É uma opção.
O fruto proibido costuma seduzir e despertar profundos desejos. Se nossa administração interna consegue estar compatível com aforismos do tipo "Stuart Mills", muito bem, não corremos grandes riscos. É bem verdade que essa idéia de estabilidade compromete visceralmente a capacidade de se surpreender e de se emocionar. Mas o temor do caos fica eliminado.
Nem todos os mortais, porém, parecem ser adeptos de tal pensamento limitador dos sentidos. E, para esses, o melhor é encarar a tentação. Quanto mais rápido for o contato com ela, mais chances se tem de neutralizá-la. Isto porque não há esterilizante melhor do que a realidade. Transpor o que fibrila na imaginação para a forma real é desprover o objeto imaginário de mitos, lendas e tudo o que não pode ser medido pelos sentidos orgânicos. E tudo o que não pode ser experimentado pelos sentidos orgânicos fica propenso a tomar proporções gigantescas, muitas vezes incontroláveis.
Portanto, se a tentação chegou - e se chegou é porque havia um espaço vazio ou insatisfeito para recebê-la -, e você se vê incapaz de administrar seus desejos mais íntimos, não dê poderes a ela. Toque o fruto proibido, se não implicar prejuízo grave para terceiros. Na maioria das vezes, os sabores reais desses frutos são bem menos excitantes do que a idéia deles.
Escrevo isto porque sinto que fui influenciada por Mills. É como se vivesse comigo a certeza de ter perdido a capacidade de me deixar tentar.
Posted by meraluz at março 11, 2004 08:01 PM