Muitas de minhas amigas procuram, queixosas, meus ouvidos para falarem de suas frustrações. Na maioria das vezes, a fonte desses lamentos é uma só: homem. Na maioria das vezes, também, ao terminar a conversa, fica em mim um saldo residual de insipidez que protesta: "poxa, tantas horas de conversa e só se falou de "homem", poderíamos ter falado mais dos assuntos da Humanidade ou mesmo de acontecimentos cômicos. Ela poderia ao menos ter perguntado como estou hoje..." Balanço a cabeça e sorrio, dizendo para mim mesma que elas não sabem o que é problema, problema "problemão" mesmo. Vejo nessas mulheres uma adolescência recalcitrante, da qual não querem sair. Logicamente, não há nada de depreciativo em preservar os estertores da adolescência ou, muito menos, em sofrer por amor ou solidão. Não subestimo essas sensações. Também as experimento, vez por outra.
O que me incomoda, na verdade, e acaba por cansar meus ouvidos, é a repetição dos fatos e a irritação delas para com minhas eventuais opiniões - sim, às vezes suas compulsões verbais me permitem um ou outro aparte. Acho que tenho direito a uma opinião, não é? Isto não significa que devam acatá-la.
E quando, depois de seus discursos inflamados e insípidos, eu digo que "não devemos centrar nossa felicidade ou infelicidade na figura de um homem", elas reagem com indignação. Acontece que eu gostaria muito de, vez ou outra, poder falar também sobre outros assuntos, sejam eles feitos de profundezas ou de abóboras. Há raras exceções, mas não é o que costuma acontecer.
S. me telefona com frequência para falar do "carinha" X, que a seca com os olhos na praia mas não se decide, e do "carinha" Y, que nunca mais a procurou depois da última transa. São tantos "carinhas" que eu me perco. Às vezes penso que S. nunca amou de verdade. Mas precisa de um homem, se não ao lado, pelo menos na cabeça ou na fantasia. Tento criar outros assuntos, mas não sou bem sucedida. Voltamos sempre ao ponto dos "carinhas".
Já F. se revolta quando digo que ela deveria tentar um intervalo maior entre um marido e outro. Já está no sexto. No final, admite que não consegue conceber a vida sem um macho embaixo de seu teto. Nem preciso arriscar algumas explicações de ordem freudiana, ela mesma conclui que deve ser uma carência tirânica da figura paterna.
Poderia continuar a citar muitas outras Fs ou Ss. Mas só iria me repetir. Então paremos por aqui.
Ah, essas mulheres... Não tenho como transmitir a elas meus duros aprendizados em nome da lucidez e da paz interior. Até porque são meus e podem não servir ou mesmo estar errados. Mas penso que, se elas abandonassem um pouco essa ansiedade direcionada para o sexo oposto, poderiam atingir um ponto de maior bem-estar. Essa inquietação tira a paz e cega sua vítima para outros detalhes, também prazerosos, da vida. Essa inquietação é reducionista, à medida que se volta para um alvo único, que deposita o fator "felicidade e bem-estar" em algo externo a nós, no caso, o(s) ícone(s) masculino(s). Há algo de muito errado dentro de nós quando isso acontece, quero crer.
Amar é muito bom. É bom demais. E, pela minha experiência, o encontro mais feliz de parceiros se dá quando estamos distraídas, quando não estamos obcecadas em buscar alucinadamente o "princípe encantado" ou o "herói salvador" de nossas neuroses ou carências. Enfim, os melhores encontros acontecem quando estamos emocionalmente saudáveis e leves. Quando podemos produzir, a partir do nosso interior, uma espécie de vapor reluzente de quem está de bem com a vida e sabe conviver confortavelmente consigo próprio.
Posted by meraluz at março 19, 2004 04:53 PM | TrackBack