julho 23, 2004

Um pouco de Joyce...

Este é um trecho extraído de um conto de James Joyce (Eveline, in Os Dublinenses), que muito me tocou (também não sei por que, deve haver sempre uma razão que não me interessa saber). Transcrevo-o.

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Lá estava ela no meio da multidão ondulante na estação de embarque de North Wall. Ele segurava-lhe a mão e ela sabia que estava se dirigindo a ela, repetindo alguma coisa a respeito das passagens. A estação estava repleta de soldados carregando malas marrons. Através dos largos portões do embarcadouro ela podia ver o vulto negro do navio, atracado ao longo do cais com as vigias iluminadas. Ela nada respondia. Sentia o rosto pálido e frio e, num labirinto de aflição, rezou pedindo a Deus que lhe guiasse, que lhe apontasse o caminho. O navio lançou dentro da névoa um silvo longo e triste. Se partisse, amanhã estaria no mar ao lado de Frank, navegando em direção a Buenos Aires. As passagens dos dois já estavam compradas. Seria possível voltar atrás depois de tudo o que ele fizera por ela? A aflição que sentia lhe provocava náuseas e ela continuava a mover os lábios rezando fervorosamente em silêncio.

Um sino repicou em seu coração. Deu-se conta de que ele lhe agarrava a mão:
- Vem!

Todos os mares do mundo agitavam-se dentro de seu coração. Ele a estava levando para esses mares: ele a afogaria. Agarrou-se com as duas mãos à grade de ferro.

- Vem!

Não! Não! Era impossível. Suas mãos agarraram-se ao ferro em desespero. No meio dos mares, ela deu um grito de angústia!

- Eveline! Evvy!

Ele correu para o outro lado do cordão de isolamento e a chamou, para que o seguisse. Gritaram para que fosse em frente, mas ele continuava a chamá-la. Ela o encarava com o rosto pálido, passivo, como um animal indefeso. Seus olhos não demonstravam qualquer sinal de amor, saudade ou gratidão.


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Posted by meraluz at julho 23, 2004 04:29 PM | TrackBack