É... As pessoas saem de dentro da gente. Pelo tempo possível, tentamos segurá-las em nossos interiores, com alguma incrédula esperança de que elas não vão desabitar a nossa geografia; de que haverá um salvo-conduto ou uma razão que justifique mantê-las vivas e pulsantes em nós, tal qual sua antiga imagem no retrovisor da história. Passeamos por um sem número de idéias, hipóteses, concessões, explicações que possam evitar a desconstrução desses retirantes acidentais. Mas sabemos que é só uma questão de tempo. E essa saída do outro em nós é tão inóspita que não depende nem de nós nem de quem sai. Acontece à revelia, muitas vezes ao ponto de nem sequer nos permitir lembrar quando aconteceu.
Minha divagante e policromática amiga Glória Horta reproduz essa situação em poema, com uma propriedade mais endereçada, enxuta e menos plural, talvez:

"Eu disse: você vai se afastar.
Você disse: não.
Você foi se afastando.
Duvidei: você está se afastando?
Você respondeu: não.
Garanti: você continua se afastando.
Você garantiu: não.
Você se afastou e eu gritei:
Ei, você se afastou.
Você estava tão longe que nem me ouviu."
E assim as pessoas se vão do nosso pequeno universo sem perceberem. Da mesma forma que não percebemos o momento em que o seu vazio se instaurou de vez. Damo-nos conta de que seu lugar não anda habitado quando já nos pegamos sem fazer perguntas ou procurar respostas sobre os movimentos ou, muito mais provavelmente, sobre a ausência de movimentos, que, decerto, determinou o exílio. Segue-se um lamento e, posteriormente, uma rendição final ao fato. Nada mais a fazer.
Não, pessoas não são substituíveis, é o que penso. Mas encontros sim. E sempre haverá novos encontros, novas chegadas, novas partidas. A vida não se imobiliza. E também tem aqueles raros personagens que hão de permanecer para sempre na bagagem de nossa existência, transcendidos e imortalizados.
Aos que ficaram, o meu eterno agradecimento pela solidez e grandeza do encontro. Aos que se deixaram partir: "Bon voyage!" pelos caminhos por onde não andarei.