Costumo lutar pelas coerências. Não que me obrigue a ser cartesiana e árida, mas, principalmente, pra poder fazer algum sentido, para mim e para o outro. Há quem me diga que as contradições têm seu lado positivo, que o coração não usa a lógica das razões, que somos mutantes e bla bla bla. Ah, sim... Somos mutantes, o coração tem sua idiossincrasia própria e não somos imobilizáveis. E é uma verdade.
Quando falo de coerência, refiro-me a uma coerência mínima, pois sei que o emocional tem lá suas oscilações. Essa coerência mínima é necessária porque, além de eu poder me explicar para mim mesma, considero importante transmitir um mínimo de credibilidade e referência àqueles com quem convivo. Longe de ser uma postura frívola e premeditada. É que o mundo anda já tão privado de sentido, a confusão reinante é tanta, que as pessoas mal conseguem formular uma ideia nítida a respeito do que veem, o que acaba por imprimir às relações humanas um caráter muito efêmero e pouco confiável.
É óbvio que todos temos nossas eventuais contradições. O que soa estranho é se pegar agindo de uma forma hoje e de outra amanhã. O que soa estranho é quando o intervalo dessas contradições é tão pequeno que fica impossível para nós traçarmos um perfil do "incoerente". Quando luto por uma coerência mínima é apenas para manter uma estabilidade emocional relativa, que permita ao outro contar comigo e poder acreditar na criatura que a genética e a história fizeram de mim.
Sou responsável, sim, pelo que falo e pelo que expresso. Sou responsável pelas minhas atitudes. E, se sou momentaneamente tomada por dúvidas ou incertezas, declaro simplesmente que estou momentaneamente tomada por dúvidas e incertezas e que, tão logo tudo se clareie novamente, tratarei de apresentar uma resposta plausível. Sou humana, e por isso passível de erros, de ímpetos, de imediatismos ocasionais. Isso não é incoerência. Incoerência, no meu ponto de vista, é, sobretudo, quando nossas palavras se desencontram de nossas atitudes repetidamente e com relativa frequência.
Por essas e outras, ainda que não consiga o resultado almejado, luto pelas coerências. Ainda que sob a ótica do meu santo guru Fernando Pessoa: "Se alguma vez sou coerente, é apenas como incoerência saída da incoerência."