Em todo esse vergonhoso circo político, que tenho acompanhado por diversos veículos da mídia, concluo: a democracia é inexequível. Mas, após a tragédia e os impactos iniciais desse fantástico show de corrupção, vem o lado cômico. Afinal, toda tragédia é costurada pelo cômico e pelo farsesco, levando-se em conta os exageros e absurdos, comuns às duas máscaras das artes cênicas. Então passei a rir muito de tudo isso. Não vejo outro canal de TV ultimamente que não seja a TV Senado. É fascinante e hilário perceber como se dá todo esse mecanismo.
Um hábil deputado, de passado político duvidoso, aparece como "salvador da pátria", encanta as platéias com sua habilidade retórica e carisma e se declara fdp, sim. Mas, como não é o único e fala a "verdade", já entra em cena absolvido. Consagra-se como um grande herói nacional por trazer à tona toda a lama da corrupção política. É verdade, temos que admitir que ele acabou prestando um grande serviço à nação e que sua empatia com o público é indiscutível. Eu acho esse personagem fantástico, macunaímico. Além disso, ele gosta de canto lírico e Lupcínio Rodrigues (risos), o que torna o show mais caricato ainda. Enquanto o circo pega fogo, ele cantarola "Cuore Ingrato"
No plenário, integrantes de um PT em plena decadência, adrenalínicos e descompensados, pedem a cabeça do "grande anti-herói", antes que ele consiga demitir todos os dirigentes da máquina governamental, tal o seu poder de fogo. A bancada do governo é naturalmente histérica.
É engraçado. Muito engraçado.
Em nome da democracia, deputados e senadores berram, se esgoelam, se engalfinham, impedindo que cada um fale no tempo cronometrado (?) que lhes é concedido. O nível de decibéis ali deve ser insuportável, aliado às inúmeras campainhas que tocam incessantemente, marcando alguma coisa que não é obedecida. Metade do tempo ali despendido é usado com pedidos de silêncio e prorrogações por conta dos "barracos" partidários.
Em nome da democracia, os Excelentíssimos e Excelentíssimas (mais os Excelentíssimos, porque trata-se de país machista) discursam bonito, se expressam bem, falam tudo aquilo que não vão fazer na prática, transformando o palco numa verdadeira competição de Egos, num festival de vaidades. E não há nada pior do que a vaidade das idéias.
É engraçado, muito engraçado.
Em nome da democracia, todos se declaram homens públicos preocupados única e exclusivamente com o destino da nação. E, pior, quase me convencem disto, tal sua capacidade persuasiva.
Em nome da democracia, se dividem em partidos cada vez mais numerosos e menos providos de ideologias. E partidos brigam, saem nos tapas, vivem de criar armadilhas para adversários e engendram articulações nefastas. Pergunto: Como fica a "União" se tudo é "partido"? Essa idéia não consigo apreender mesmo. Isto significa que, no regime democrático parlamentarista, nunca haverá união. Mas não bradam aí pelas ruas que "o povo unido jamais será vencido"?? É muita contradição. A democracia, além de inexequível, é uma grande contradição.
É divertido, muito divertido.
Esse mecanismo todo é realmente uma grande piada e me diverte muito enquanto mecanismo e espetáculo público.
O que não é lá muito divertido é saber que nada disto vai mudar. Que o homem parece já ter nascido corrupto ou corruptível aqui neste país, a coisa é genética. Que o problema não está na democracia, nos parlamentos ou nos partidos, mas no próprio ser humano, que se deixa inebriar pelas garras sedutoras do poder, que se deslumbra fácil com os artifícios mefistofélicos que os tentam do topo da pirâmide.
Obviamente, não devemos generalizar. Há políticos íntegros, há sim. Mas estes terão de lutar pelo resto de suas vidas e em vão contra uma máfia, pra lá de poderosa, tentando concretizar seus bem-intencionados projetos. Estes terão a grandeza de sua ideologia esmagada pela estrutura podre, porém cada vez mais fortalecida, de um sistema de poder corrupto. São os eternos Quixotes do regime democrático. E isto não é nada divertido.
Mas o resto é muito divertido, proporciona-me bons minutos de risos. Mais divertido fica quando lembro que votei no PT e depositei todas as minhas esperanças no atual governo (risos). Este país, embora trágico para seu povo, é também uma comédia generalizada, e nosso herói é Macunaíma.
Viva a Democracia!
Posted by meraluz at julho 9, 2005 11:56 AM