outubro 27, 2006

Traição

Você chegou acenando com a esperança, apesar da minha insistência na descrença só para não ter de assitir, mais uma vez, às ruinas dos sonhos. Mas você falava de forma tão convincente sobre coisas tão bonitas, que eu não resisti. Acreditei. Acreditei nos clichês verborrágicos de amor e achei que, juntos, iríamos transformar o mundo. Com metade do mundo briguei para permanecer a seu lado, alguns olhavam para você com desconfiança e ironia. Mas, cega e hipnotizada por seus verbos tão quentes, insisti em acreditar. Foi um ato supremo de comunhão e de fé aquela nossa união.

Quando o grande momento chegou, eu, totalmente entregue, vibrei, chorei e me emocionei. Deflagrei todas as bandeiras da minha alegria. Foi lindo. Enfim, estávamos juntos e fortalecidos. Começaríamos a transformar o mundo. As agruras que trilhamos por caminhos tão árduos, todas as lutas, seriam enfim recompensadas. Mas, ao contrário do que eu esperava, o mundo não foi transformado. Você, sim, foi o grande transformado, o grande deformado. Estava irreconhecível, seduzido pelas maquiavélicas armadilhas do poder e com a alma vendida ao diabo, tal qual o pacto de Fausto com Mefisto. Seu olhar era outro, de um brilho suspeito e aterrador. E eu me vi só, traída por suas novas e espúrias alianças, que lhe impunham uma outra personalidade e a frieza de quem troca ideais por estratégias vazias de poder pelo poder.

Seus discursos e atos tornaram-se suspeitos, artificiais, impregnados de uma retórica perversa. Traiu-me descaradamente, acintosamente. Enterrou para sempre os meus sonhos. E agora anda por aí a iludir outra leva de ingênuos corações. O que posso sentir por você hoje? Desprezo é muito pouco, é sentimento silencioso demais. Eu quero sentir mesmo os estertores da revolta e da indignação de quem foi traída nas mais puras intenções. Eu quero ver, um dia, a sua derrocada, que talvez não aconteça neste momento, porque ainda há muitos crédulos das torpes promessas que não irá cumprir. Vai apenas mascarar as escusas intenções com pequenos afagos aos carentes de afeto, aos carentes de tudo, para mantê-los aprisionados a seu lado, na mesma miséria, a assegurar-lhe o reinado. Que pena. Tem horas que a democracia mais parece uma implacável tirania.

De minha parte não haverá perdão. Não, não há como perdoar a maior de todas as traições. Vermelha foi a estrela que se apagou em mim, assim como vermelho é o sangue que corre em minhas veias e me veste de inconformismo. E a minha vingança será olhar dentro dos seus olhos e dizer: eu não sujei minhas mãos, eu não vendi minha alma, e por isso sobrevivo com todas as minhas partes. Morra você e seus falsos ideais.

Posted by meraluz at outubro 27, 2006 12:58 PM