Que segredos esconde o azul cinzento dessa paisagem? Que mistério existe no silêncio das águas em espelho, que guardam em suas entranhas possíveis tesouros encantados? Luzes e sombras confabulam e medem força, assim como fazem o Eu Solar e o Eu Sombrio dentro de cada um de nós. Apesar da imponência diáfana do sol, não há menos beleza quando a sombra prevalece, tal como comprova a imagem ao lado.
Associemos os dias de sol às euforias felizes e os dias nublados aos sentimentos mais reclusos, que não se deixam expor à luz. As euforias ensolaradas são voláteis, ingênuas, por vezes fúteis, além de óbvias demais para provocarem reflexões mais consistentes. Dias de sol são mais simples e a tudo desnudam. Além disso, o que é feliz e iluminado não precisa e nem tem tempo para refletir ou questionar o que quer que seja. Portanto, vamos nos ater aqui aos dias sombrios, ao Eu Sombrio, que nem sempre se revela, muitas vezes por causa até da riquíssima confusão de emoções e sentimentos que se processam em silêncio. Medos, angústias, dores inconfessas, nostalgias, torpores, melancolias, incertezas, dúvidas, sonhos partidos e tantas outras profundas sensações que sequer são nomináveis... Quem nunca as experimentou viverá sem compreender a força do que é 'demasiadamente humano'.
Daí resultam os mistérios da existência. Nuvens plúmbeas e densas que percorrem nossos interiores, águas turvas em inércia a clamarem por alguma possível paz, luz e sombra conspirando por entre a vegetação de verdes sonhos que julgamos perdidos. Da margem, observamos, impassíveis, a vida passar, por alguns instantes. Nada em nós quer se movimentar nesse íntimo momento. Criamos um hiato, mergulhados em nós mesmos, até dissiparem-se as nuvens, até que o céu cinza-azul se transforme, até que as águas mudem, até que venham roubar o efêmero e discreto reinado das sombras. Sabemos que, mais cedo o mais tarde, a luz voltará para nos tirar dessa comunhão com nosso próprio ser, apontando-nos caminhos de fuga. A luz virá, à revelia, porque tudo se transforma o tempo todo, independente de nossa vontade. E, incomodados com a sua claridade, muitas vezes inoportuna, nos levantaremos e sairemos da margem, abandonando a paisagem particular e indivisível dos nossos segredos claros-escuros, de nossos mistérios reais. Virá o sol, fazendo-nos engolir, ainda que sem vontade, uma certa esperança, um amanhã não aguardado e pelo qual nem pedimos. Virá o sol, trazendo ruídos mais estrepitosos, cores que berram, coisas assim..., até que novas sombras cheguem para ofuscá-lo e silenciar sua loquacidade. É a soberania das transformações...
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Àquele que estava do lado de cá da margem, agradeço o empréstimo do seu olhar, sob a forma da paisagem aqui reproduzida, que me possibilitou esta inútil porém prazerosa divagação. Agradeço o lindo passeio que fiz por dentro de suas retinas, tão únicas nesse jogo de luz e sombra da vida.