novembro 05, 2009

A inteligência, a erudição e a sabedoria

the_book_of_life.jpg

Embora esses três atributos sejam, muitas vezes, confundidos e apareçam entrelaçados, há que se dar a César o que é de César e separar o joio do trigo.

Acho que a melhor maneira de se fazer isso é com exemplos retirados da minha própria luneta, exclusivamente destinada a observar personagens que gravitam ou gravitaram em torno de mim.

Para falar de inteligência, a primeira pessoa que me vem à cabeça é minha mãe. Pelas dificuldades enfrentadas no passado, não era uma mulher muito letrada. Às duras penas, concluiu o primeiro grau. Porém, foi contemplada - provavelmente pela genética - com uma inteligência nata. Raciocínio na velocidade da luz, comunicação fácil, assimilação rápida, memória estupenda. Tão inteligente e destemida que se lançou à vida, à luta, ao trabalho suado, e logo assegurou seu lugar ao sol, porque sabia que não lutar e não evoluir seria burrice. Tão inteligente que, percebendo que deveria voltar aos estudos para o bem dessa evolução, não hesitou em fazer um supletivo aos 40 anos e posteriormente um vestibular. Enfermagem, tinha que ser Enfermagem, pela sua inexorável vocação de cuidar dos doentes e necessitados. Assimilou, com facilidade e rapidez, valores, modos e comportamentos do meio em que passou viver, bem mais requintado do que o de sua infância. Tinha respostas rápidas para qualquer questão, soluções imediatas para qualquer impasse, e uma capacidade de liderança invejável. Nunca seria uma pessoa erudita, embora tivesse adquirido, com o tempo, alguma cultura. Não era de sua natureza. Mas minha mãe era inteli-gente. Aprendia fácil e sabia utilizar qualquer conhecimento adquirido com eficiência.

A erudição nem sempre está condicionada à inteligência, muito menos ligada à sabedoria. Um erudito pode ser inteligente ou não, pode ser sábio ou não. Isto porque a erudição é apreendida, é de movimentos centrípetos, de fora para dentro. Conheci, certa vez, um sujeito de falas envolventes, capaz de citar dezenas de autores e suas teorias em uma simples conversa de dez minutos. Admirava sua cultura, sua erudição, sua conversa, mas não admirava sua personalidade. Por quê? Porque ele não fazia mais do que repetir no vazio conceitos que não eram seus. Vinham de Platões, Sócrates, Nietzches, Sartres, Gides, Shakespeares, Hegels, Marxs, Kants, Kafkas, etc. etc. etc. E o que fazia com esses conceitos? Porra nenhuma. Nem pra si, nem para os outros. Lembro-me do meu tempo de universidade. Premida pelos arroubos da juventude, eu queria ser erudita. Achei que isso me ajudaria a "mudar o mundo" (oh, ilusão!). Comecei a devorar livros, a dissecar filósofos, frequentar grupos intelectuais. Mas logo após concluir que a erudição não serviria para muitas ações, parei no meio do caminho. Nada como a maturidade para nos fazer ver que "não vamos mudar o mundo" e que o tempo é um bem precioso demais para nos manter amarrados a infindáveis pesquisas, leituras e releituras que não estão a serviço da transformação. Isto não quer dizer que tenha abandonado o hábito de ler. Apenas leio sem a pretensão da erudição e com o foco mais voltado para os ensinamentos da vida. Deixo essa missão para os diletantes, para os que se comprazem em se afirmar reproduzindo ao mundo o preciocismo de palavras e ideias que não são suas.

Finalmente, a sabedoria. Não há muito o que se falar dela, porque é silenciosa, plena e intransmissível. O conhecimento, a cultura, as doutrinas são transmissíveis. A sabedoria nunca. O sábio é um iluminado. A sabedoria não pressupõe a inteligência ou a erudição. Revela-se em atitudes, condutas, tem a ver com valores, com olhares, com o que a vida esculpe em nós, com uma espécie de estado de semidivindade. Conheci poucas pessoas a quem poderia chamar de sábias. E uma delas, por incrível que pareça, era um peão de fazenda, que pouco estudo tinha. Considerava-o um sábio porque seus movimentos, seus eflúvios, sempre se mostravam em total consonância com a natureza. O humilde cidadão parecia caber dentro de si com uma precisão matemática. Nunca se abalava. Aceitava a vida na mesma medida em que parecia aceitar a morte. Uma vez, conversando com ele na mais simples das linguagens, expus-lhe um certo dilema que estava vivendo. Estava atormentada por dúvidas e incertezas diante de uma decisão que deveria tomar. O homem, ao ver minha aflição, levantou os olhos - olhos de quem carregava em si todos os sabores e dissabores da vida - e disse, com seu português claudicante: "Madame, fique assim não. Não adianta, é "perca" de tempo. O que tem que ser feito tem que ser feito. E a senhora sabe o que tem que ser feito." Acenou-me com o chapéu de palha, virou-se tranquilamente e voltou para o seu ofício de lavrar a terra, cuidar dos bichos e fazer a natureza multiplicar seus recursos. Este era um sábio. E até hoje, toda vez que algum dilema se apresenta, eu me lembro de suas palavras determinantes: "o que tem que ser feito tem que ser feito". E faço. Cumpro sem hesitar o que a vida me solicita. Se a ação resulta em sofrimento ou não, este é um outro problema. Mas pelo menos livro-me das incertezas, que é das piores torturas que há nesta vida.

Posted by meraluz at novembro 5, 2009 07:47 PM