junho 12, 2010

Eternos namorados

Na primeira vez que se encontraram, ele trazia a tiracolo uma garrafa de Moet & Chandon e duas taças. Brindaram ao encontro, brindaram ao amor. Iniciava-se ali um namoro imortal. Foram dias, anos, de intensa magia e prazer. A vida se fez encantada só para abrigar este encontro. Sabiam que a história que iniciaram não teria um final óbvio, do tipo "casaram-se e foram felizes para sempre". Tivessem os dois se casado, em poucos anos a imortalidade teria se quebrado. Era um namoro assim, de brincar com a vida, de percepções viscerais, de êxtases e reinvenções.

manutençãoCostumavam ser zelosos com a "manutenção". Tanto, que um dia ele enviou a ela de presente um macacão de operário com a palavra "manutenção" bordada no bolso. E ela o vestiu, para que ele a despisse. Manutenção, no amor, é coisa séria, exige a exacerbação de todos os sentidos. Sabiam disto e ultrapassaram todas as medidas do verbo 'perceber'. Exauriram-se disso. Uma das mais belas imagens que ilustram este fato e que ficou gravada em suas memórias é a seguinte: os dois contemplando profundamente a poesia de um simples maracujá com cereja a enfeitar a mesa do café. Ficaram horas nesse ritual, como se percebessem cada ínfimo detalhe da vida, antes inexplorado, na presença do outro. Era assim. A vida com cara de namoro eterno. Juraram, certa vez, sob o céu imoralmente estrelado de um jardim distante, que se amariam para sempre. E prometeram voltar ao mesmo jardim dez anos depois, para renovar a promessa. Depois disso não juraram mais nada, porque era melhor viver do que jurar. E viveram tudo, permaneceram juntos em corpo até onde foi possível escapar das mãos ásperas da realidade e de tudo aquilo que não se parecia com o sonho que, ao custo de algumas loucuras, conseguiram legitimar. O pacto era de imortalidade. E a vida real era uma grande ameaça ao "para sempre". Foram sábios quando perceberam a hora exata do adeus físico. Doeu apenas a dor do desencaixe dos corpos. Mas era uma das raras situações onde o fim se transformava no princípio de algo que seguiria para além do que o amor é capaz. Tal certeza amenizava a dor do inevitável desvio, neste mundo cheio de chão e de relógios que não eram capazes de marcar o tempo deles. Não voltaram ao jardim estrelado, dez anos depois, conforme prometido. Não precisava. Já estavam muito além do jardim e das estrelas. Haviam conseguido seu intento: imortalizar a mais bonita história de amor, onde um eterno namorado e uma eterna namorada são dela protagonistas até hoje, ao seu modo próprio e distante das erosões mundanas, que desgastam paulatinamente os grandes sentimentos. A história deles era imensa, um encontro grande demais para caber num único planeta, repleto de desacertos. Hoje, na relativa e mutuamente consentida distância, eles sabem que o elo que os uniu se fez "para sempre".

Posted by meraluz at junho 12, 2010 06:26 PM