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julho 18, 2005 09:44 PM Voz
Dentre as grandes doenças das almas urbanas, a que considero mais grave é o não saber ouvir. Dar ao outro o direito de voz é fundamental para um mundo mais humano e saudável. O que vejo hoje é um reino dividido entre seres com urgência de falar e seres que insistem em não ouvir. E esses seres se revezam em seus papéis intermitentes. Talvez ouvir não seja mesmo uma tarefa simples, porque envolve elementos outros além de um simples ouvido. Quem se nega a ouvir o outro, na maioria das vezes, se nega também a ouvir a si próprio. E aquele que precisa falar acaba sendo um estorvo porque, ao tentar se expressar, impõe a seu interlocutor o risco de ouvir justamente os ecos de suas próprias profundezas, ecos que muitas vezes o ouvinte não quer escutar e dos quais vive a fugir. O mundo está doente por falta de expressão. E a expressão depende do outro, de sua compreensão, ou mesmo de sua incompreensão, mas sobretudo do seu contato e calor. Negar o direito de voz a alguém é impedir esse alguém de se representar, de dizer "eu existo". E isto consiste, de certa forma, numa espécie de eutanásia existencial. É um pequeno crime por omissão, com que chega com uma série de atenuantes pouco convincentes: falta de tempo, de paciência, de disposição, oportunidade, sossego etc. É, precisa de tudo isso sim, tempo, paciência, disposição e muito mais. Mas, sobretudo, precisa que ambas as partes estejam ali inteiras, guardando algum respeito pelo ser humano e sua importância. Nem sempre é um psicanalista ou um representante religioso o depositário certo das nossas manifestações. Ser ouvido por esses atendentes oficiais e oficiosos não envolve troca. Aquele que traz em si a urgência da voz não precisa apenas de um ouvido, precisa também saber que quem o ouve tem um coração, e que o sentido da vida está na permuta e na compreensão das experiências humanas. ::: by meraluz at julho 18, 2005 09:44 PM julho 16, 2005 11:06 PM Pão e Circo
Eu não tenho a obrigação de ser feliz. Sou feliz quando posso, não quando devo. Mas parece que vivem a cobrar da gente o tempo todo riso e diversão. É, é bom sim. É muito bom. Só que nem sempre é possível. Alegria não é algo que se retira de um caixa eletrônico 24h. E não estou em nenhum picadeiro com a missão de animar platéias. Que mania doentia de felicidade os humanos têm! Será que precisam disso pra se distrairem de si próprios e aliviarem suas histórias? Mas às custas de terceiros? Oh, não... Eu não vou me prestar a esse papel de "inocente inútil" de dar pão e circo para o povo quando também sinto fome, outras fomes. Deixem-me aqui com meu momento, com meus escafandrismos, minhas reflexões, saudades, certezas e incertezas. Deixem-me gostar também das profundezas. Quando terminar o ciclo e mudar a estação, eu divirto o grande público. Sou boa nisso quando posso. Mas agora não. Preciso cumprir minha própria existência, preciso não me trair. Deixemos o circo para uma outra hora e o pão também. Há ventos que sopram e mudam as paisagens. E não há como impedir o vento de ventar. Da mesma forma que não há como deter o sol, que deve chegar, deve chegar a qualquer momento...
Hoje seria aniversário de minha mãe. Mas ela se foi de forma tão prematura e repentina, que eu fiquei com uma infinidade de "seria", sem saber até hoje o que fazer com esta flexão verbal. ::: by meraluz at julho 16, 2005 11:06 PM julho 10, 2005 11:51 PM Bela Adormecida pós-moderna
Era uma vez uma princesa urbana, sem reino e sem súditos. Como nos contos pós-modernos não há bruxas perversas ou poções mágicas, a nossa heroína não foi amaldiçoada por nenhuma velha feia com verruga no nariz. Mas havia um príncipe. Ela encontrou um príncipe, que não galopava em cavalos brancos, não fazia o gênero garboso, nem muito menos era um modelo de virtude. Ao contrário, o nobre rapaz era dado a crises existenciais e tomava lá seus pileques. Foram felizes por algum tempo, graças a uma ajudazinha da fluoxetina. O príncipe sempre voltava para a sua amada princesa depois de épicas lutas ou noitadas na Lapa. Até que um dia partiu e não mais voltou. A princesa esperava em vão todas as noites na varanda por seu amado. Nenhum recado no celular turbinado e multitarefa, nenhum email, nenhuma notícia sequer. Cansada de esperar, adormeceu para não sofrer. A fluoxetina já nao resolvia, porque ela se recusava a ser feliz sem ele. Adormeceu para não ver nada crescer ou se modificar à ausência de seu príncipe. Adormeceu sua alma e se trancou no pequeno castelo, ao som melancólico do Cold Play. Adormeceu, à espera de ser despertada um dia pelo beijo de amor que lhe devolveria a vida. Se o príncipe voltou e despertou a Bela ou não, fica por conta do leitor. Não sou eu que vou empatar o final feliz de ninguém. Caso optem pelo final feliz, tomem cuidado com o batom da princesa, na hora do beijo, para não estragar a fotografia impecavelmente editada em Photoshop. ::: by meraluz at julho 10, 2005 11:51 PM julho 4, 2005 08:30 PM Ainda...
Por que será que desconfio de tudo? Das melhores às piores intenções? Dos discursos bem e mal construídos? Da poesia em profusão? Das prosas e das rosas? Por que não me deixo convencer assim tão fácil como fazem os ingênuos? Será que não restou qualquer resíduo de ingenuidade em mim? Mas crianças também desconfiam, desconfiam de tudo o que não é verdade... Então, ainda posso ser ingênua. Nem tudo está perdido. Por que a descrença? Simples. Porque já acreditei demais, Porque já acreditei em tudo. E tudo no que acreditei não passou de blefes ocasionais no jogo da vida. Conheci o jogo e suas regras. Mas não quero mais jogar. Há muito não quero mais jogar. Não, agora não. Melhor ficar com meu ceticismo do que acreditar nos jogos e no que se consegue com eles. O ceticismo é uma doença da alma, por desnutrição, que só amor genuíno pode curar. Amor é uma substância produzida por nós mesmos, só que seu princípio ativo depende de depositários da mesma substância. Mas ora vejam só... Acabo de perceber que a descrença não é plena. Ainda acredito no amor.
::: by meraluz at julho 4, 2005 08:30 PM julho 2, 2005 01:49 PM Coerências
Quando falo de coerência, refiro-me a uma coerência mínima, pois sei que o emocional tem lá suas oscilações. Essa coerência mínima é necessária porque, além de eu poder me explicar para mim mesma, considero importante transmitir um mínimo de credibilidade e referência àqueles com quem convivo. Longe de ser uma postura frívola e premeditada. É que o mundo anda já tão privado de sentido, a confusão reinante é tanta, que as pessoas mal conseguem formular uma ideia nítida a respeito do que veem, o que acaba por imprimir às relações humanas um caráter muito efêmero e pouco confiável. É óbvio que todos temos nossas eventuais contradições. O que soa estranho é se pegar agindo de uma forma hoje e de outra amanhã. O que soa estranho é quando o intervalo dessas contradições é tão pequeno que fica impossível para nós traçarmos um perfil do "incoerente". Quando luto por uma coerência mínima é apenas para manter uma estabilidade emocional relativa, que permita ao outro contar comigo e poder acreditar na criatura que a genética e a história fizeram de mim. Sou responsável, sim, pelo que falo e pelo que expresso. Sou responsável pelas minhas atitudes. E, se sou momentaneamente tomada por dúvidas ou incertezas, declaro simplesmente que estou momentaneamente tomada por dúvidas e incertezas e que, tão logo tudo se clareie novamente, tratarei de apresentar uma resposta plausível. Sou humana, e por isso passível de erros, de ímpetos, de imediatismos ocasionais. Isso não é incoerência. Incoerência, no meu ponto de vista, é, sobretudo, quando nossas palavras se desencontram de nossas atitudes repetidamente e com relativa frequência. Por essas e outras, ainda que não consiga o resultado almejado, luto pelas coerências. Ainda que sob a ótica do meu santo guru Fernando Pessoa: "Se alguma vez sou coerente, é apenas como incoerência saída da incoerência." ::: by meraluz at julho 2, 2005 01:49 PM
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