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julho 24, 2005
Mentiras, mentiras...
"A mentira é uma verdade que esqueceu de acontecer". Li isso em algum lugar que não me recordo agora. Não vou usar aqui a mentira como vilã para falar dela. A vilania está nas intenções, das mentiras e, muitas vezes, também das verdades. Mas a frase acima dá um tratamento um tanto benevolente demais a um recurso que não é dos mais nobres. Quem nunca usou uma mentirinha na vida que atire a primeira pedra, principalmente quando foi o caso de salvar a própria pele ou a pele de quem se gosta. O grande problema da mentira é que, ao se contar a primeira, vamos precisar de mais umas mil para sustentá-la, para que não nos desacreditem. Então é um artifício extremamente trabalhoso para ser usado com freqüência. Há mentiras lindas, esplendorosas, que nos fazem sonhar, que nos deixam felizes. A esse tipo de mentiras alguns preferem recorrer ao eufemismo e chamá-las de ilusões. Não importa o termo, uma ilusão não deixa de ser uma mentira pra fertilizar os sonhos. Importa é admitir que, se servem para tornar alguém mais feliz, elas não são tão vilãs assim. Só não podem ser descobertas, porque aí a produção de suas fascinantes irrealidades vai se transformar numa produção de terríveis realidades. E ainda vai obrigar a verdade a mostrar a sua cara feia, embora digna. Os mentirosos ou ilusionistas devem cuidar para não deixar qualquer rastro que possa exterminar com suas tão eficazes mentiras. Quando criança, contaram-me com tanta verossimilhança que Papai Noel existia que eu passei a enfrentar toda a minha turminha de amigos, batendo na tecla de que o velhinho existia mesmo. Fui motivo de pilhéria mas ninguém me convenceu do contrário, porque tal afirmação tinha vindo das pessoas em que eu mais confiava. É fácil imaginar qual não foi minha decepção quando vi minhas cartas jogadas dentro de uma gaveta e a bicicleta que pedi escondida atrás da cortina. Hoje, já vivida, vejo que a sensação dessas descobertas se repete e não muda muito a nível de desapontamento. Mudam apenas os contextos. Certas mentiras, quando descobertas, são capazes de suprimir o chão e modificar toda uma vida. Quanto a perdoar ou não perdoar uma mentira, penso que seja uma questão de foro íntimo. Fica a critério de cada um, de seus juízos de valor e das importâncias atribuídas a fatos ou pessoas. Há limites pra tudo e cada um sabe onde é o seu. O que é de fato muito triste é quando as mentiras se repetem ao ponto de comprometer o que há de mais fundamental em qualquer relação de afeto: a confiança. Por essas e outras, sempre achei que a verdade, mesmo não sendo tão artificialmente bela e confortável como certas mentiras, dá menos trabalho. Menos sedutora e até bastante relativa em suas intenções, a verdade nos poupa de futuras catástrofes, a exemplo do que diz Bernard Shaw: "O castigo do mentiroso não é ficar desacreditado, mas sim não poder acreditar em ninguém". E esta é a maior das catástrofes.
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meraluz
at 04:52 PM
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julho 18, 2005
Voz
Dentre as grandes doenças das almas urbanas, a que considero mais grave é o não saber ouvir. Dar ao outro o direito de voz é fundamental para um mundo mais humano e saudável. O que vejo hoje é um reino dividido entre seres com urgência de falar e seres que insistem em não ouvir. E esses seres se revezam em seus papéis intermitentes. Talvez ouvir não seja mesmo uma tarefa simples, porque envolve elementos outros além de um simples ouvido. Quem se nega a ouvir o outro, na maioria das vezes, se nega também a ouvir a si próprio. E aquele que precisa falar acaba sendo um estorvo porque, ao tentar se expressar, impõe a seu interlocutor o risco de lhe fazer ouvir justamente os ecos de suas próprias profundezas, ecos que muitas vezes não quer escutar e dos quais vive a fugir. O mundo está doente por falta de expressão. E a expressão depende do outro, de sua compreensão, ou mesmo de sua incompreensão, mas sobretudo do seu contato e calor. Negar o direito de voz a alguém é impedir esse alguém de se representar, de dizer "eu existo". E isto consiste, de certa forma, numa espécie de eutanásia existencial. É um pequeno crime por omissão, com muitas atenuantes pouco convincentes: falta de tempo, de paciência, de disposição, oportunidade, sossego etc. É, precisa de tudo isso sim, tempo, paciência, disposição e muito mais. Mas, sobretudo, precisa que ambas as partes estejam ali inteiras, guardando algum respeito pelo ser humano e sua importância. Nem sempre é um psicanalista ou um representante religioso o depositário certo das nossas manifestações. Ser ouvido por esses atendentes de plantão não envolve troca. Aquele que traz em si a urgência da voz não precisa apenas de um ouvido, precisa também saber que quem o ouve tem um coração e que o sentido da vida está na permuta e na compreensão das experiências humanas.
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meraluz
at 09:44 PM
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julho 16, 2005
Pão e Circo
Eu não tenho a obrigação de ser feliz. Sou feliz quando posso, não quando devo. Mas parece que vivem a cobrar da gente o tempo todo riso e diversão. É, é bom sim. É muito bom. Só que nem sempre é possível. Alegria não é algo que se retira de um caixa eletrônico 24h. E não estou em nenhum picadeiro com a missão de animar platéias. Que mania doentia de felicidade os humanos têm! Será que precisam disso pra se distrairem de si próprios e aliviarem suas histórias? Mas às custas de terceiros? Oh, não... Eu não vou me prestar a esse papel de "inocente inútil" de dar pão e circo para o povo quando também sinto fome, outras fomes. Deixem-me aqui com meu momento, com meus escafandrismos, minhas reflexões, saudades, certezas e incertezas. Deixem-me gostar também das profundezas. Quando terminar o ciclo e mudar a estação, eu divirto o grande público. Sou boa nisso quando posso. Mas agora não. Preciso cumprir minha própria existência, preciso não me trair. Deixemos o circo para uma outra hora e o pão também. Há ventos que sopram e mudam as paisagens. E não há como impedir o vento de ventar. Da mesma forma que não há como deter o sol, que deve chegar, deve chegar a qualquer momento... 
Hoje seria aniversário de minha mãe. Mas ela se foi de forma tão prematura e repentina, que eu fiquei com uma infinidade de "seria", sem saber até hoje o que fazer com esta flexão verbal.
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meraluz
at 11:06 PM
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julho 13, 2005
Autoconfiança
Ordem do dia:

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meraluz
at 11:03 AM
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julho 12, 2005
O Avesso do Avesso
Quase fui apedrejada em praça pública por um comentário que deixei no blog do meu caro amigo Cesar. Parece que as Cinderellas de plantão não gostaram muito. Mas achei engraçada a repercussão de uma simples opinião. Na verdade, era um protesto. Cesar escreve divinamente bem e sabe disto. Escreve bem e sobre todas as coisas (quando quer). Só que venho reparando que ele ficou preso a um determinado ranço literário que explora demasiadamente o erotismo. Talvez para agradar seu público-alvo, talvez porque seu momento esteja muito lírico e banhado de hormônios, não sei. Não cabe a mim discutir as razões. Mas ora bolas! Será que não posso chegar ali e dizer que sinto falta de outros estilos de textos? Nada contra esse tipo de texto mas à sua repetição. Por exemplo, acho o tom satírico na literatura algo extremamente instigante e inteligente. A ironia é a linguagem dos sábios, é pra quem pode e sabe. E Cesar sabia explorar essa linha como poucos, há algum tempo atrás. Tem textos maravilhosos nesse gênero. É um artífice das palavras. Passeia com desenvoltura no meio delas, por linhas e entrelinhas, passando pelos mais diferentes estilos. Por expressar meu humilde protesto, que inclusive enaltece o talento do autor, quase fui execrada no sistema de comentários do Avesso do Avesso. As mocinhas não se cansam da linha lírica-metafórica-erótica, algo mais ou menos como profusão de bundas, peitos, pernas e gozos conjugados a uma organização semântica de bom impacto e estética. Talvez não tenham reparado que ir além e se diversificar pode ser também muito sedutor, literariamente falando, sobretudo se considerarmos a versatilidade e talento do autor das crônicas. Mas, pelo amor de Deus, foi só uma opinião. Não precisava tanta comoção hormonal. O dono do blog escreve sobre o que ele bem entender. Mas, se há ali um link para receber opiniões, eu me sinto livre também para me expressar. Eita, povo pra gostar de barulho. Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós...
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meraluz
at 08:16 PM
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julho 10, 2005
Bela Adormecida pós-moderna

Era uma vez uma princesa urbana, sem reino e sem súditos. Como nos contos pós-modernos não há bruxas perversas ou poções mágicas, a nossa heroína não foi amaldiçoada por nenhuma velha feia com verruga no nariz. Mas havia um príncipe. Ela encontrou um príncipe, que não galopava em cavalos brancos, não fazia o gênero garboso, nem muito menos era modelo de virtude. Ao contrário, o nobre rapaz era dado a crises existenciais e tomava lá seus pileques. Foram felizes por algum tempo, graças a uma ajudazinha do Prozac. O príncipe sempre voltava para a sua amada princesa depois de suas lutas ou das noitadas na Lapa ou no Baixo Leblon. Até que um dia partiu e não mais voltou. A princesa esperava em vão todas as noites na varanda por seu amado. Nenhum recado dele no super-celular multitarefa. Nenhuma notícia sequer. Cansada de esperar, adormeceu para não sofrer. Prozac já nao resolvia, porque ela se recusava a ser feliz sem ele. Adormeceu para não ver nada crescer ou se modificar na ausência de seu príncipe. Adormeceu sua alma e se trancou no pequeno castelo ao som melancólico do Cold Play. Adormeceu, à espera de ser despertada um dia pelo beijo de amor que lhe devolveria a vida (a Bela era "loura"). Se o príncipe voltou e despertou a bela ou não, fica por conta do leitor. Não sou eu que vou empatar o final feliz de ninguém. Caso optem pelo final feliz, tomem cuidado com o batom da Bela durante o beijo para não estragar a fotografia.
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meraluz
at 11:51 PM
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julho 09, 2005
Viva a Democracia!
Em todo esse vergonhoso circo político, que tenho acompanhado por diversos veículos da mídia, concluo: a democracia é inexequível. Mas, após a tragédia e os impactos iniciais desse fantástico show de corrupção, vem o lado cômico. Afinal, toda tragédia é costurada pelo cômico e pelo farsesco, levando-se em conta os exageros e absurdos, comuns às duas máscaras das artes cênicas. Então passei a rir muito de tudo isso. Não vejo outro canal de TV ultimamente que não seja a TV Senado. É fascinante e hilário perceber como se dá todo esse mecanismo. Um hábil deputado, de passado político duvidoso, aparece como "salvador da pátria", encanta as platéias com sua habilidade retórica e carisma e se declara fdp, sim. Mas, como não é o único e fala a "verdade", já entra em cena absolvido. Consagra-se como um grande herói nacional por trazer à tona toda a lama da corrupção política. É verdade, temos que admitir que ele acabou prestando um grande serviço à nação e que sua empatia com o público é indiscutível. Eu acho esse personagem fantástico, macunaímico. Além disso, ele gosta de canto lírico e Lupcínio Rodrigues (risos), o que torna o show mais caricato ainda. Enquanto o circo pega fogo, ele cantarola "Cuore Ingrato" No plenário, integrantes de um PT em plena decadência, adrenalínicos e descompensados, pedem a cabeça do "grande anti-herói", antes que ele consiga demitir todos os dirigentes da máquina governamental, tal o seu poder de fogo. A bancada do governo é naturalmente histérica. É engraçado. Muito engraçado. Em nome da democracia, deputados e senadores berram, se esgoelam, se engalfinham, impedindo que cada um fale no tempo cronometrado (?) que lhes é concedido. O nível de decibéis ali deve ser insuportável, aliado às inúmeras campainhas que tocam incessantemente, marcando alguma coisa que não é obedecida. Metade do tempo ali despendido é usado com pedidos de silêncio e prorrogações por conta dos "barracos" partidários. Em nome da democracia, os Excelentíssimos e Excelentíssimas (mais os Excelentíssimos, porque trata-se de país machista) discursam bonito, se expressam bem, falam tudo aquilo que não vão fazer na prática, transformando o palco numa verdadeira competição de Egos, num festival de vaidades. E não há nada pior do que a vaidade das idéias. É engraçado, muito engraçado. Em nome da democracia, todos se declaram homens públicos preocupados única e exclusivamente com o destino da nação. E, pior, quase me convencem disto, tal sua capacidade persuasiva. Em nome da democracia, se dividem em partidos cada vez mais numerosos e menos providos de ideologias. E partidos brigam, saem nos tapas, vivem de criar armadilhas para adversários e engendram articulações nefastas. Pergunto: Como fica a "União" se tudo é "partido"? Essa idéia não consigo apreender mesmo. Isto significa que, no regime democrático parlamentarista, nunca haverá união. Mas não bradam aí pelas ruas que "o povo unido jamais será vencido"?? É muita contradição. A democracia, além de inexequível, é uma grande contradição. É divertido, muito divertido. Esse mecanismo todo é realmente uma grande piada e me diverte muito enquanto mecanismo e espetáculo público. O que não é lá muito divertido é saber que nada disto vai mudar. Que o homem parece já ter nascido corrupto ou corruptível aqui neste país, a coisa é genética. Que o problema não está na democracia, nos parlamentos ou nos partidos, mas no próprio ser humano, que se deixa inebriar pelas garras sedutoras do poder, que se deslumbra fácil com os artifícios mefistofélicos que os tentam do topo da pirâmide. Obviamente, não devemos generalizar. Há políticos íntegros, há sim. Mas estes terão de lutar pelo resto de suas vidas e em vão contra uma máfia, pra lá de poderosa, tentando concretizar seus bem-intencionados projetos. Estes terão a grandeza de sua ideologia esmagada pela estrutura podre, porém cada vez mais fortalecida, de um sistema de poder corrupto. São os eternos Quixotes do regime democrático. E isto não é nada divertido. Mas o resto é muito divertido, proporciona-me bons minutos de risos. Mais divertido fica quando lembro que votei no PT e depositei todas as minhas esperanças no atual governo (risos). Este país, embora trágico para seu povo, é também uma comédia generalizada, e nosso herói é Macunaíma.
Viva a Democracia!
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meraluz
at 11:56 AM
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julho 08, 2005
Afinidade
Hoje é aniversário de uma amiga querida. Queria dedicar a ela a crônica abaixo, não de minha autoria, desta vez. Mas algo que cai bem aqui e que gostaria de ter escrito. Minha cara amiga, é muito bom comemorar mais um ano da existência de alguém tão especial, inteliGente e transbordante de vida. Feliz Aniversário! 
AFINIDADE
Afinidade é um dos poucos sentimentos que resistem ao tempo e ao depois. A afinidade não é o mais brilhante, mas o mais sutil, delicado e penetrante dos sentimentos. É o mais independente.
Não importa o tempo, a ausência, os adiamentos, as distâncias, as impossibilidades. Quando há afinidade, qualquer reencontro retoma a relação, o diálogo, a conversa, o afeto no exato ponto em que foi interrompido. Afinidade é não haver tempo mediando a vida. É uma vitória do adivinhado sobre o real. Do subjetivo para o objetivo. Do permanente sobre o passageiro. Do básico sobre o superficial. Ter afinidade é muito raro. Mas quando existe não precisa de códigos verbais para se manifestar. Existia antes do conhecimento, irradia durante e permanece depois que as pessoas deixaram de estar juntas. O que você tem dificuldade de expressar a um não afim, sai simples e claro diante de alguém com quem você tem afinidade. Afinidade é ficar longe pensando parecido a respeito dos mesmos fatos que impressionam, comovem ou mobilizam. É ficar conversando sem trocar palavras. É receber o que vem do outro com aceitação anterior ao entendimento. Afinidade é sentir com. Nem sentir contra, nem sentir para, nem sentir por, nem sentir pelo. Quanta gente ama loucamente, mas sente contra o ser amado. Quantos amam e sentem para o ser amado, não para eles próprios. Sentir com é não ter necessidade de explicar o que está sentindo. É olhar e perceber. É mais calar do que falar, ou, quando é falar, jamais explicar: apenas afirmar. Afinidade é jamais sentir por. Quem sente por, confunde afinidade com masoquismo. Mas quem sente com, avalia sem se contaminar. Compreende sem ocupar o lugar do outro. Aceita para poder questionar. Quem não tem afinidade, questiona por não aceitar. Afinidade é ter perdas semelhantes e iguais esperanças. É conversar no silêncio, tanto nas possibilidades exercidas quanto das impossibilidade vividas. Afinidade é retomar a relação no ponto em que parou sem lamentar o tempo de separação. Porque tempo e separação nunca existiram. Foram apenas oportunidades dadas (tiradas) pela vida, para que a maturação comum pudesse se dar. E para que cada pessoa pudesse e possa ser, cada vez mais a expressão do outro sob a forma ampliada do eu individual aprimorado.
(Artur da Távola)
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meraluz
at 11:02 AM
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julho 06, 2005
Relações de parentesco
A esperança é filha das incertezas. À esterilidade das incertezas, só restará a loucura.
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meraluz
at 03:07 PM
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julho 04, 2005
Por que será que desconfio de tudo? Das melhores às piores intenções? Dos discursos bem e mal construídos? Da poesia em profusão? Das prosas e das rosas? Por que não me deixo convencer assim tão fácil como fazem os ingênuos? Será que não restou qualquer resíduo de ingenuidade em mim? Mas crianças também desconfiam, desconfiam de tudo o que não é verdade... Então, ainda posso ser ingênua. Nem tudo está perdido. Por que a descrença? Simples. Porque já acreditei demais, Porque já acreditei em tudo. E tudo que acreditei não passou de blefes ocasionais no jogo da vida. Conheci o jogo e suas regras. Mas não quero mais jogar. Há muito não quero mais jogar. Não, agora não. Melhor ficar com meu ceticismo do que acreditar nos jogos e no que se consegue com eles. O ceticismo é uma doença da alma, por desnutrição, que só amor genuíno pode curar. Amor é uma substância produzida por nós mesmos, só que seu princípio ativo depende de depositários da mesma substância. Mas ora vejam só... Acabo de perceber que a descrença não é plena. Ainda acredito no amor.

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meraluz
at 08:30 PM
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julho 02, 2005
Coerências
Costumo lutar pelas coerências. Não que me obrigue a ser cartesiana e árida, mas, principalmente, pra poder fazer algum sentido, para mim e para o outro. Há quem me diga que as contradições têm seu lado positivo, que o coração não usa a lógica das razões, que somos mutantes e bla bla bla. Ah, sim... Somos mutantes, o coração tem sua idiossincrasia própria e não somos imobilizáveis. E é uma verdade.
Quando falo de coerência, refiro-me a uma coerência mínima, pois sei que o emocional tem lá suas oscilações. Essa coerência mínima é necessária porque, além de eu poder explicar-me a mim mesma, considero importante transmitir um mínimo de credibilidade e referência àqueles com quem convivo. Longe de ser uma postura frívola e premeditada. É que o mundo anda já tão privado de sentido, a confusão reinante é tanta, que as pessoas mal conseguem formar uma idéia nítida a respeito do que vêem, o que acaba por imprimir às relações humanas um caráter muito efêmero e pouco confiável. É óbvio que todos temos nossas eventuais contradições. O que soa estranho é se pegar agindo de uma forma hoje e de outra amanhã. O que soa estranho é quando o intervalo dessas contradições é tão pequeno que fica impossível para nós traçarmos um perfil do "incoerente". Quando luto por uma coerência mínima é apenas para manter uma estabilidade emocional relativa, que permita ao outro contar comigo e poder acreditar na criatura que genéticas e histórias fizeram de mim. Sou responsável, sim, pelo que falo e pelo que expresso. Sou responsável pelas minhas atitudes. E, se sou momentaneamente tomada por dúvidas ou incertezas, declaro simplesmente que estou momentaneamente tomada por dúvidas e incertezas e que, tão logo tudo se clareie novamente, tratarei de apresentar uma resposta plausível. Sou humana, e por isso passível de erros, de ímpetos, de imediatismos ocasionais. Isso não é incoerência. Incoerência, no meu ponto de vista, é, sobretudo, quando nossas palavras se desencontram de nossas atitudes repetidamente e com relativa frequência. Por essas e outras, ainda que não consiga o resultado almejado, luto pelas coerências. Ainda que sob a ótica do meu santo guru Fernando Pessoa: "Se alguma vez sou coerente, é apenas como incoerência saída da incoerência."
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meraluz
at 01:49 PM
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