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dezembro 25, 2009 05:41 PM Abstração
Sou uma abstração. Minha vida, minha história, minhas circunstâncias não passam de pretextos para que eu possa me fazer representar dentro de um mundo insano, feito de pesadas concretudes. Uma abstração. Esta é minha verdadeira identidade. Algo que se confunde com as lânguidas notas de um blues, algo como partículas que se expandem e vibram no ar, como nuvens que não se prendem por muito tempo a uma forma. Como invólucro, um corpo acidental, que funciona como receptáculo e referência gravitacional apenas - ai, como pesam os corpos!... Quem me toca nem sempre toca em mim. Em contrapartida, há tantos que me tocam sem me tocar: poetas, músicos, animais, pessoas que nunca vi... Sou uma abstração, sem muita causa, sem muito efeito, sem muita compreensão da existência. ::: by meraluz at dezembro 25, 2009 05:41 PM dezembro 17, 2009 07:40 PM Trajetória dos erros
Primeiro, tenta-se a estratégia, a razão pura e kantiana, a lógica dialética, o bom senso, o caminho linear e claro, e todos os recursos racionais. Você sinaliza, aponta, tenta acertar, tenta impedir o pior, mas não lhe ouvem, não lhe atendem, não lhe entendem - ou não querem entender. Depois, vêm as contorções, as confusões, as contrações, as digladiações, as turbulências emocionais, o inconformismo, a impotência. Você quer salvar a história, a qualquer preço, por achar que é uma história maior, mas não lhe ouvem, não lhe atendem, não lhe entendem - ou não querem entender. Segue-se então uma certa melancolia, a frustração de ver que a história lhe escapa das mãos, e já não há como conduzi-la unilateralmente. Você ainda tenta mais um pouco, porém já bem mais desacreditado. Palavras e movimentos se desencontram, sintonias se perdem, encantos se desfazem, e a plenitude vai se esfacelando paulatinamente. Nada mais parece inteiro, absoluto, inabalável, íntegro, no lugar. Não há lugar. Tudo é fração, e, por ser fração, perde força. Mais uma vez, agora sem tantas expectativas, você insiste em refazer o pequeno feudo encantado e feliz. Mas não lhe ouvem, não lhe atendem, não lhe entendem - ou não querem entender. Por fim, e por cansaço de dar murros em ponta de faca, de não compreender e de não ser compreendido, chega-se ao 'tanto faz', que é a mais medíocre das posturas, mas, certamente, a menos dolorosa. Estaria tudo certo, não fosse um inconveniente do 'tanto faz': ele é incapaz de garantir grandes memórias, limitando-se à pequenez de banalizar tudo o que foi imenso com suas propriedades anestésicas. Mas agora tanto faz...! ::: by meraluz at dezembro 17, 2009 07:40 PM dezembro 5, 2009 05:25 PM Os imaturos do amor
A cada vez que me envolvo com alguém, um temor irrompe: estarei me envolvendo com um imaturo de amor? Sim, porque, quando atingimos um certo nível de maturação de sentimentos, cruzar com os imaturos é o que de pior pode acontecer. Seria impossível trilhar o mesmo caminho e na mesma direção. Não há como reconhecê-los a um primeiro momento. Este é o problema. Só depois de um certo tempo é que podemos identificá-los. São aqueles que precisam experimentar a sensação de perda para compreender a real importância do outro; são os que não se preocupam em alimentar o afeto por, ilusoriamente, 'acharem' que têm a pessoa nas mãos; os que ignoram que, com a sequência de suas ações ou não ações, podem ser esquecidos; os que precisam de desafios permanentes para se motivarem numa relação. Oh, não! Ao menor sinal de detecção de um imaturo de amor, eu abandono o barco, por mais que a correnteza me castigue. Não manipularei, muito menos me deixarei manipular. Prosseguir seria pouco inteligente e deveras trabalhoso. Os imaturos de amor exigem que a gente parta pro jogo, que crie situações artificiais, impedindo-nos, assim, de repousarmos o sentimento, os movimentos... Para mim, particularmente, seria muito fácil o jogo. Já aprendi o suficiente com a vida. E, exatamente por ter aprendido a jogar, é que aprendi também a não querer o jogo. Sei exatamente quais são os movimentos de atração e de repulsão. Mas ficar refém de jogo? Não, nunca. Jogando uma vez, terei de jogar sempre. Situação pobre e muito, muito, extenuante. Dou-me ao luxo, depois de tantos açoites, de querer um pouco mais do que isso, ainda que esse pouco mais seja a fidelidade a mim mesma e a paz interior. E, quantos aos imaturos de amor, que a vida venha a lhes ensinar um dia que o amor de verdade se constrói na tessitura das simplicidades, das verdades e da saúde. ::: by meraluz at dezembro 5, 2009 05:25 PM
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