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janeiro 27, 2010 10:54 PM Não ficar no problema, porém sem dele fugir.
Optar por não ficar no problema não significa dele fugir. Fugir do problema é quando se desconversa, quando não se enfrenta as verdades, quando não se encara os fatos, quando se mascara uma realidade. A fuga é um movimento fácil. E é o que a maioria faz para evitar desconfortos imediatos. Há sempre uma porta que foi esquecida aberta ou passagens subterrâneas que levam à ilusão de um outro lugar. Já escolher não ficar no problema exige muito mais de nossas forças e de nossa compreensão. Neste caso, a gente enxerga tudo, constata o obstáculo e sai sem fugir, espreitado pelo olhar vigilante da consciência. Sai porque entende que permanecer no que foi percebido como problema é o caminho mais fácil para se perder e se ralar. A fuga, mais cedo ou mais tarde, será sempre surpreendida pela própria vida que vem nos cobrar. Mas a opção consciente de não ficar é quase um ato de heroísmo, é uma escolha dolorosa para evitar dores maiores. Um problema é sempre um problema, desde o momento de seu diagnóstico. E insistir nele é uma teimosia improfícua. A melhor solução é, a meu ver, tentar eliminá-lo, sobretudo se o impasse não se resolve e torna a se repetir e repetir. Porém, sem fugir... Assumindo todos os ônus e riscos, sentindo as dores de todas as lesões que essa escolha ocasiona. Mas, afinal, o que é um problema, aqui neste contexto? - alguém poderá indagar. Um problema é tudo aquilo que suprime o bem-estar, que gera tensão, desassossegos ou inseguranças, eu diria. E quem gosta e consegue conviver com isso a longo prazo pode estar a um passo da insensatez. Eu não, eu não... Fugir não fujo, mas escolho não ficar. ::: by meraluz at janeiro 27, 2010 10:54 PM janeiro 24, 2010 03:14 PM Poema sem poema
Eu queria fazer um poema Por isso, e só por isso, peço: Do contrário, Devolvam meus suspiros, ::: by meraluz at janeiro 24, 2010 03:14 PM janeiro 20, 2010 01:26 PM Existe 'caso mal resolvido'?
Já acreditei nessa história de 'casos mal resolvidos'. Mas, com o tempo (e com a psicanálise, claro), compreendi que eles não existem. Os protagonistas desses 'casos' é que ficam bem ou mal resolvidos. Há quem pense que para resolver uma história que não terminou do jeito desejado é preciso esgotar todas as palavras ou mergulhar até o mais profundo talvegue de um rio de emoções desencontradas. É um ponto de vista, mas não o meu. Se alguém me diz: "Tal relação ficou mal resolvida", limito-me a comentar: "Então pronto! Ficou resolvida como 'mal resolvida.'" Isso porque muitas soluções são mais facilmente encontradas dentro - e não fora - de nós. A conversa que temos realmente de ter é com os nossos próprios botões, e a partir dos fatos disponíveis. Uma sequência de fatos e de comportamentos é eloquente o bastante para fornecer o diagnóstico (e o prognóstico) de qualquer relacionamento. Além disso, se pensarmos bem, nenhum final é feliz, ideal, satisfatório. Sair de uma relação com as palavras certas, dissecando o adeus em minúcias, numa interminável e desgastante sessão de perguntas e respostas, também pode ser doloroso. E, ainda por cima, não é garantia de que os sentimentos não se tornarão recorrentes. Talvez o mais indolor dos finais seja aquele em que o sentimento se dissolve durante a própria relação. Assim, sem a força desse sentimento, que morreu sem ser percebido, todo o resto se transforma em desimportâncias, e o ponto final acontece quase que naturalmente, sem traumas, nem expectativas, nem recalcitrâncias. Mas nem sempre é assim. Em conversa com amigos, sempre vem à tona esse papo de "casos mal resolvidos". Quase todo mundo tem um pra contar. Ouço-os se queixarem, com frequência, de que, em suas frustradas relações, "ficou algo por dizer", "ficou algo por entender", e que "é preciso um último diálogo" para virar a página definitivamente (se é que o definitivo é mesmo definitivo). Mas será que a vida útil do romance não foi feita para acabar justamente naquela página? Nem todas as histórias são brindadas com finais felizes e esclarecedores, o que, em hipótese alguma, é motivo para menosprezar a sua importância. E depender da outra parte para determinar cada final de caso, à nossa conveniência, admitamos, é bastante trabalhoso. Também não é incomum ver pessoas acorrentadas a impasses de seu passado, ao longo de anos, até mesmo décadas. Neste caso, nem o tempo, que sempre ajuda a pulverizar dores, mágoas e culpas, conseguiu ser um bom remédio. E aí a coisa pode acabar assumindo níveis patológicos. É preciso tomar cuidado. Não há nada pior do que se tornar um prisioneiro, principalmente do passado, que é tão estático quanto as velhas fotografias que o representam sem nada poder fazer. Não estou aqui a subestimar a dor de ninguém. Sei que lidar com sentimentos não coisa é fácil, sobretudo com sentimentos que um dia foram feridos. Mas penso que, se sedimentarmos o eixo de nossa órbita em nós mesmos, e não no outro, tudo ficará mais claro. Por exemplo, um sintoma de saudade não precisa ser torturante, nem condicionado ao personagem que a ela deu origem. A saudade é nossa e só nossa; permitamo-nos senti-la, sem resistências, por alguns momentos, e pronto! Depois ela se vai, ainda que venha nos revisitar mais adiante. Não temos necessariamente que agir ou criar expectativas por causa de súbitas nostalgias; isso gera tensão. Certamente, com a sucessão de novas experiências e urgências, certas lembranças tendem a se tornar cada vez mais raras. Se uma história terminou era porque assim tinha de ser. E que importa se ela pode ou não retornar amanhã? Amanhã é amanhã, e viver é uma urgência. Tudo faz parte dessa louca aventura de existir: o bem, o mal, o prazer, a dor, os erros, os acertos, as dúvidas, as certezas, tudo... E nada permanece no lugar o tempo todo. Só nós, que moramos dentro de nós... Vivamos, pois, a partir de nossa única e inevitável existência. ::: by meraluz at janeiro 20, 2010 01:26 PM janeiro 11, 2010 04:50 PM Os doces estertores dos 20 anos
Quando eu era jovem (mais jovem ;) ) e comecei a descobrir o fascinante mundo das ideias, tudo parecia possível, tangível, instigante, desafiador. É próprio da juventude as paixões levadas ao extremo. É próprio da juventude levantar bandeiras, mergulhar visceralmente em ideais grandiosos, querer arrumar o mundo. E eu não fugi à regra. No passado, junto com meus jovens companheiros de ideais, também queria mudar o mundo. Nosso templo era o Diretório Acadêmico, nossos gurus os autores de doutrinas radicais e perfeitas no papel (no caso, Marx, Hegels, Trotsky, Sartre, Gide, Nietzsche, Artaud, etc. etc.). Ganhávamos as ruas, fazíamos barulho, clamávamos por justiça, inspirados pelo gigantismo de sonhos que seriam exterminados aos primeiros lampejos da maturidade, e nem desconfiávamos disto. Deve ser uma questão hormonal essa ebulição dos 20 anos, isso da vontade de poder, de ser tomado por fúrias exacerbadas contra instituições e sistemas opressores e decadentes. A juventude quer e precisa lutar! Causas não faltam nunca. Fundos musicais muito menos. Não que sonhos e paixões feneçam na maturidade, mas nesse estágio eles acontecem, incontestavelmente, de forma mais modesta, mais silenciosa, menos agressiva e menos coletiva. Com o tempo, eu, pelo menos, fui percebendo que as ideias que me insuflavam eram, de certa forma, influenciadas pelos grandes pensadores - em especial, os libertários -, e por isso mesmo não eram exatamente minhas. Com o tempo, compreendi que o mundo não muda fácil; quando muito, passa-se de uma ditadura a outra, de um extremo a outro, de um erro a outro. Com o tempo, compreendi que valores mudam, rebeldia sossega, euforias passam. E, no final das contas, acabamos, muitas vezes, por nos surpreender agindo "como nossos pais". Sinto uma imensa saudade daquela imperativa (e hiperativa) avidez juvenil, que gritava alto, muito alto... Era um verdadeiro poema. Na verdade, ela não morreu, porque tornou-se parte integrante da minha história e responsável pelo resultado que hoje sou. Mas os ventos nos atiram à maturidade, ainda que à revelia. E isso não chega a ser um caos. A maior vantagem da maturidade é que nela podemos ser crianças, jovens ou maduros, conforme as circunstâncias, só que com o discernimento de saber usar esses estados de ser na hora apropriada. E a maior desvantagem é não termos mais tanto tempo para errar, tombar e recomeçar. Daí porque a voz da razão, muitas vezes, precisa calar a voz das paixões na marra. ::: by meraluz at janeiro 11, 2010 04:50 PM janeiro 9, 2010 03:09 PM O exorcismo pelas palavras
Por que escrevo? Ao contrário do que sugerem as tirinhas do Calvin aí em cima, que ironizam a prolixidade vazia do eruditismo teórico-existencialista :), escrevo para me libertar de mim, para equacionar melhor os meus dilemas, trilemas, quadrilemas, etc. Ou para entender mais claramente o compasso da humanidade, para dar forma ao que, de tão abstrato, incomoda. Escrevo para me exorcizar. Poderia compor uma canção, se tivesse talento musical; mas não é o caso. Poderia pagar um analista, o efeito seria quase o mesmo. Mas, depois de anos e anos de terapia, e de conhecer o processo de cor e salteado, seria uma alternativa pouco excitante para mim, que tenho necessidade de criar. (Parêntesis: devo assinalar aqui que recomendo sempre uma boa psicoterapia para que os mortais se percam menos de si próprios. A mim fez-me um enorme bem.) Assim, já que gozo de alguma intimidade com as palavras e não tenho problemas com a autoexpressão, prefiro escrever. Meus textos não são necessariamente as minhas verdades e, em absoluto, têm a pretensão de se tornar universais ou imperativos. Até porque a palavra sempre muda conforme o olhar e o momento vivido. Muitas vezes transformo em verbos o que gostaria de ser ou deles faço uso para tentar explicar certos estados de confusão. Da mesma forma, o que escrevo hoje pode vir a ser o que virei a criticar amanhã. Seja como for, a palavra (principalmente a escrita) muitas vezes me serve como bom sistema de drenagem. Precisamos purgar, fazer emergir, ejetar o que se acumula dentro de nós. O ser humano privado de expressão perde o sentido. Alegro-me, portanto, quando alguns textos que aqui expurgo me ajudam a oxigenar o pensamento. E não são raras as vezes em que acabo influenciada pelas minhas próprias palavras. Pode parecer um paradoxo que a autora influencie a si própria. Mas não penso como Mário Quintana, quando diz: "Nunca me releio... Tenho um medo enorme de me influenciar. É verdadeiramente catastrófico quando um autor se transforma no seu discípulo." Ao contrário do poeta, eu sempre me releio. Gosto de acompanhar as variações, as mudanças, as nuances da minha existência semântica. E não tenho medo de influenciar a mim mesma, se a influência for boa. Para mim, escrever é uma hemorragia salvadora. Acho que todos deveriam tentar, de alguma forma. Danem-se os erros de português, as sintaxes e as regências indevidas. Isso é detalhe. O que importa é se libertar do peso das ideias que efervescem e expeli-las ao léu, do jeito possível. Fica tudo tão mais leve depois da expulsão dos verbos que deixaram de acontecer ou que aconteceram de modo errado... ::: by meraluz at janeiro 9, 2010 03:09 PM
Qual a forma ideal de se dizer adeus, de abandonar a cena e o personagem? Não há. Todos os movimentos de saída ferem (a começar pelo próprio parto que nos dá a vida). O apagar das luzes dói de qualquer maneira, seja esta civilizada ou irascível. Se as pessoas chegam à porta de saída é porque, de algum modo, se magoaram, se frustraram ou quebraram algo que antes era importante e agora deixou de ser. E isso inviabiliza qualquer despedida ideal. Contudo, creio que a pior forma de se ausentar - já que a melhor não existe - é aquela em que não se pontua; aquela em que as palavras, ao invés da pronúncia que as libertariam, escolhem fazer o caminho de volta ao pensamento, saturando-o, intoxicando-o e confundindo-o. Aí, tudo o que não foi dito pode demorar a se esgotar, pode se subverter ou tomar formas ásperas e inadequadas. E, inevitavelmente, surgirão dúvidas recalcitrantes, recorrentes, que atormentarão por algum tempo - o tempo necessário para a dissolução do edema emocional -, por meios bem menos naturais. Sim, porque o tempo é sempre o tempo, esse senhor que tudo resolve, mais cedo ou mais tarde, de uma forma ou de outra. O silêncio e a moderação nas rupturas podem ser imponentes, educados e elegantes, mas são também pusilânimes. Há muito mais verdade nas impulsividades momentaneamente ofensivas ou destemperadas, que a emoção deixa escapar, do que na omissão comportada dos verbos. Além disso, quem ousaria recriminar a verdade, que, por ser verdade, já chega carregada de perdão, ao contrário das farsas do silêncio? Parece que o mundo, em geral, não está preparado para as verdades; nem para dizê-las, nem para ouvi-las. E isso torna certas saídas muito mais torturantes, muito mais feias, antiestéticas. Mas, como não há mesmo uma forma ideal de sair de cena, e como somos um núcleo de imperfeições, resta-nos seguir em frente nesse desvio (ou atalho) do modo possível, cuidando para que não nos tornemos um ser humano pior. Afinal, há sempre uma nova estrada a cada saída. E a vida é mesmo essa sucessão de encontros, desencontros e reencontros. ::: by meraluz at janeiro 9, 2010 12:18 AM janeiro 6, 2010 08:15 PM Sem metades
![]() Não me deem metades. Não me acessem pela metade. Não gosto de metades. Nem mesmo de caras metades (onde dois ficam reduzidos a um). Não gosto de metade do caminho, não gosto de pessoas pela metade, de conversas pela metade, de meias verdades, de meias mentiras. Se não posso ter a unidade, se não posso ser a unidade, prefiro então pequenos dízimos, quando não o nada. Os dízimos pelo menos funcionam como modestas sugestões, preâmbulos de alguma coisa, qualquer coisa que pretenda a sua integralidade mais adiante. Mas metades não, porque não são nem uma coisa, nem outra. Ou pior: podem ser uma coisa e outra, sem a convicção de ser. Metade de mim não sou eu. Viver pelo meio eu não vivo. Tudo o que eu puder ser, viver ou doar é integral, ainda que seja por um minuto, ainda que não haja sequências, ainda que eu viva o supérfluo ou a contradição. Essa divisão no meio é ingrata. E eu, que só sei ser inteira, em cada minúsculo movimento, vivo batendo de frente com a vida, repleta de meios-termos e de seres de meias-faces. Note-se aqui que não falo de extremos, mas de inteiros, de um... Não falo de intermediários, mas de metades. É preciso não confundir intermezzos com metades. As primaveras, por exemplo, são agradáveis estações intermediárias, mas são primaveras inteiras e cumprem todo o seu ciclo. Gosto do intermediário, do equilíbrio, só não gosto de metades, do “pela metade”, do meio sim ou meio não. Metades são medíocres. Se não puderem me dar o inteiro, deem-me o nada, mas nunca a metade. Metades não matam minha sede, que é grande e inteira. ::: by meraluz at janeiro 6, 2010 08:15 PM
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