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maio 21, 2004 09:23 PM De Prazeres e Sofreres
Não, não é loucura afirmar aqui que sinto um misterioso prazer em certos sofrimentos. Tampouco devo admitir qualquer sinal de masoquismo nisto. Não escolheria eu sofrer ou gostar de sofrer. Então não é loucura, segundo meu entendimento de loucura. O prazer a que me refiro diz respeito a dores mais mansas, que não agonizam nem conhecem as urgências. Dores como as de uma saudade conformada ou daqueles sonhos que já nascem sentenciados, mas que se aceitam como sonhos; dores como as de precisar adiar o agora, transferindo calmamente para o futuro a expulsão dos verbos trancafiados no peito; dores inexplicáveis do próprio processo existencial, e mais tantas outras formas desses sofreres quase que em paz. Há, sim, um certo "prazer" - se é que posso chamar assim - em sofrer por causas que fazem de nós uma consequência maior. É como se neste prazer morasse a resposta para os supostos vazios e um sentido reconfortante qualquer . Quem não se perdeu de si, durante as mudanças das estações, talvez consiga compreender esses prazeres e sofreres. Quem não se perdeu de si pode escolher chorar ou sorrir na intermitência dos diferentes episódios que se sucedem, e se sucedem e-se-su-ce-dem... Quem não se perdeu de si pode sofrer sem precisar ser triste. Quem não se perdeu de si não terá vivido em vão e saberá inscrever partituras de sinfonias inesquecíveis na própria história, as quais poderão ser executadas com um olhar ou um gesto talvez... "Lembra de mim, (trecho da música "Lembra de Mim", de Ivan Lins) ::: by meraluz at maio 21, 2004 09:23 PM maio 19, 2004 06:37 PM Cuidado com o cuidado
Aconteceu há alguns anos atrás. Alguém cruzou meu caminho, sem que eu esperasse. Daí seguimos juntos por um certo hiato do tempo, do tempo possível. E ele cuidou de mim. Jamais esquecerei disto. É... Acho que ele me encontrou para cuidar de mim. E cuidou como ninguém mais saberia cuidar. Essa coisa do cuidar e ser cuidado é algo tão sublime e perigoso que fica impossível esquecer. Nunca mais ninguém cuidou de mim. Pelo menos não como ele, que conhecia as hipérboles deste ofício. Nem eu também deixei que o fizessem, sempre soube que nenhum outro faria melhor. Escolhi então ficar com o registro daquelas mãos que zelavam tão bem. Meti-me a cuidar de mim eu mesma depois que a vida me separou do meu "cuidador". Aprendi a fazê-lo, porém com alguns desleixos. Não deixo mais este papel para outrem. Até porque a condição de ser cuidada por alguém implica, por vezes, um certo comodismo, uma postura algo infantil, que prioriza mais receber do que dar. É preciso fazê-lo com consciência. E tanto é assim que só hoje consigo compreender a grandeza de cada ínfimo detalhe daquelas cenas. Desde a preocupação com a minha carência vitamínica até a realização mais perfeita dos desvairados sonhos que me surgiam. O excessivo conforto de me deixar cuidar por mãos tão delicadas não me permitiu avaliar, à época, quão fundamental era aquilo tudo. Estava muito ocupada em me deixar cuidar para fazer avaliações. Talvez eu achasse que ele cuidaria de mim até o último de meus dias. Talvez eu achasse que ele devesse compreender e cuidar também dos nossos erros. Talvez eu achasse que nem o tempo avançaria e nem os caminhos se desviariam. Mas não foi assim. A vida tem armadilhas para as quais nem todo o cuidado do mundo é suficiente.
::: by meraluz at maio 19, 2004 06:37 PM maio 18, 2004 07:04 PM O Ócio Criativo
"Quanto mais o trabalho intelectual se deixa envolver e dominar pela atividade industrial rude e violenta, sem tradição e bom gosto, e quanto mais as ciências e as escolas se empenham em privar-nos de nossa liberdade e personalidade e inculcar-nos como ideal, desde a infância, a condição de um esforço obrigatório e acelerado, tanto mais entra em decadência e cai em descrédito e desuso, ao lado de outras artes "antiquadas", também a arte do lazer. Não que houvéssemos jamais alcançado a mestria nessa arte: a ociosidade, aperfeiçoada como arte, só foi, em todas as épocas, cultivada no Ocidente por ingênuos diletantes." (Hermann Hesse, in A Arte dos Ociosos)
Agora estou absolutamente convencida: a criatividade só é possível no ócio. Nesses dias em que a necessidade impõe com suas mãos tiranas que eu mergulhe em obrigações e esgotamento mental, fui tomada por essa definitiva certeza. É no ócio, e somente no ócio, que se torna possível criar, amar, existir verdadeiramente. É preciso não conhecer as pressões para ter olhos de ver. É preciso não se sujeitar ao tempo dos relógios e se desprender de qualquer condição de sobrevivência para se deliciar com os próprios sentidos, todos os sentidos. Tudo o que se faça pela sobrevivência não é vida nem vivência. Aliás, o correto deveria ser "subvivência", a exemplo da "subsistência". Artaud argumentava lá no seu Teatro da Crueldade que a fome é soberana. E ainda mais essa... Não há como negar essa soberania. Talvez por isso nossa força de trabalho seja referida como "o suor pelo pão de cada dia". Mas é um suor sem calor esse que acontece para evitar a fome física. Tenho outras fomes soberanas, a fome da alma, do espírito, dos desejos, dos mistérios que também precisam de alimento. Obrigo-me a ignorar temporariamente essas fomes subsidiárias, mas não menos soberanas. Nada faço por elas enquanto suo em nome do outros pães. E, ao final do dia, sinto que nada fiz de meu. Clamo para experimentar novamente os momentos de ócios encantados, onde realmente posso encontrar aquilo e aqueles que me dão prazer, onde posso encontrar a mim mesma, onde posso, enfim, criar e recriar a vida em sua maior expressão. Socorro! Eu preciso de ócio! ::: by meraluz at maio 18, 2004 07:04 PM maio 11, 2004 08:33 PM Aos meus caros amigos,
Estou de volta. Malas vazias e saudade de vocês. Não lembro bem por onde andei. Fui esvaziada de mim. Recordo-me apenas do ruído das engrenagens que me faziam trabalhar e trabalhar para ganhar um pequeno pão. Não é este o pão que alimenta minha alma. Esse tipo de pão apenas garante alguma sobrevivência física. Minha alma se nutre mesmo é de vocês, pessoas, que, com seus peculiares movimentos, vão enchendo isso aqui de palavras e graça, de uma forma viva, fibrilante, ravissante :) Os comentários de cada um de vocês me chegam pelo e-mail, enquanto trabalho, e, nos raros intervalos a mim concedidos, leio cada um deles. São visitas que me aquecem o coração, me fazem rir, me surpreendem, me dizem sempre algo de bom ou de novo, de gentil ou de pândego. Perdoem minha inevitável ausência. Às vezes, as mãos plúmbeas da sobrevivência me tiram do ar. Desse ar mais puro e leve, onde não há pressões, cobranças ou assepsias, e onde gosto de estar. Compreendam que o meu ofício faz com que eu passe dias e dias, horas e horas, lendo e revisando textos, nem sempre prazerosos, com os olhos mais técnicos possíveis. Assim, é natural que, ao final de cada dia de trabalho pesado, por mais que queira, eu fique incapacitada de fazer qualquer coisa com as letras, muito menos criar com elas palavras que precisam vir do fundo d'alma para se fazerem expressar ou expressar qualquer nuance da existência. Mas creio que nos próximos dias vou estar um pouco mais senhora do meu tempo. Aos poucos, pretendo colocar as visitas e as palavras em dia. Enfim, mes amis, eu queria dizer da importância de cada um de vocês neste espaço, neste "quelque chose" de liberdade, de tudo e de nada. Queria agradecer a presença dos caros amigos e vizinhos que ajudam a tornar minhas histórias/palavras mais felizes e mais habitadas. E, por ora, encerro com uma frase do "guru", que tem tudo a ver: "AH, QUEM ESCREVERÁ a história do que poderia ter sido? ::: by meraluz at maio 11, 2004 08:33 PM
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