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- Um jeito chapliniano de ser
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Poema XXVII, in Poemas do Irremediável
- Paschoal Carlos Magno

Sei que a promessa não será cumprida,
à medida que teus passos se afastam,
sei que não voltarás à minha vida...

Se tivesse coragem de gritar
"Pára", talvez ainda me ouvirias
como ouço teu começo de viagem...

Mas não: dia a dia
devo assistir
a chegada consciente da distância...
---------------------------------------

Outro poema:

Oh, yes! - Charles Bukowski

there are worse things than
being alone
but it often takes decades
to realize this
and most often
when you do
it's too late
and there's nothing worse
than
too late.


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Quelque Chose no ar, desde 2002
maio 23, 2011

Um pouco de poesia, um pouco de Drummond

Procura da poesia

Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo


::: by meraluz at 08:22 PM


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maio 15, 2011

A revolta de Arlete, que também é minha

Reproduzo aqui hoje o texto que recebi de uma querida amiga. Um texto que, com certeza, há de tocar o coração e a consciência dos mais sensíveis.

POR UM LADO, no meu trabalho frequentemente encontro textos em que certas empresas se queixam de ter de fazer grandes investimentos para poder se manter em conformidade com os regulamentos, leis e normas ambientais dos governos federal, estaduais e municipais. Esses investimentos diminuem a margem de lucro, dizem elas; aumentam os custos operacionais, choramingam as ditas-cujas. (Tudo bem, então! Deixem isso tudo pra lá e acabem de destruir o planeta; aí não venham se queixar das despesas que terão para transferir suas operações para Marte ou Saturno!)

E, POR OUTRO LADO (vou diminuir o tamanho da fonte para que vocês tenham de se concentrar mais para ler), não me sai da cabeça a frase de um daqueles chefes indígenas americanos mais famosos (puxa, que sacanagem, ele mereceria que eu me lembrasse do nome dele!), que dizia mais ou menos assim: "Pise na terra levemente, pois ela é sagrada." Meu Deus do céu, que diferença de visões! A Terra é sagrada, é mãe, é mãe sagrada. Que porcaria de filhos que nós somos, que tratamos nossa mãe como se fosse um depósito de lixo; e que irmãos de merda que nós somos, que tratamos nossos irmãos animais (e até mesmo humanos) como se fossem seres que não valem nada. E ainda dizemos que somos civilizados e que os índios são selvagens!

Pois venho a público pedir perdão pela parte que me toca nessa falta de consideração pela Mãe Terra e por meus irmãos de 4, duas ou até nenhuma pata.

Perdão pelas latas e embalagens plásticas que deixei de reciclar, pelas pilhas que joguei no lixo em vez de levá-las para descartá-las naquelas caixas que tem em certos estabelecimentos comerciais, pela fumaça de cigarro que joguei na atmosfera durante cerca de 38 anos, e por tantas outras coisas.

Perdão por cada gato ou cachorro que já tive e de quem não cuidei como devia, perdão pelas ocasiões em que fiz ouvidos moucos aos lamentos deles e que fingi que não via a dor em seus olhos. Perdão, por favor, perdão pelas ocasiões em que perdi a paciência com esses seres indefesos e cheguei a bater neles - tenho vontade de morrer quando penso nisso.

Perdão por cada ser humano a quem não dei a atenção que merecia, que não tratei com compreensão e carinho, a quem não tive paciência para escutar, a quem não doei um pouco do meu tempo. Perdão, minhas filhas, perdão pelas vezes em que as negligenciei, em que gritei com vcs, em que as ofendi, em que as agredi fisicamente ou apenas com palavras, que às vezes machucam muito mais do que tapas ou cintadas. Perdão, meus netos, por eu não ser nem de longe a vovó que vcs merecem.

Perdão, Pai do Céu, por eu não ter correspondido ao que o Senhor esperava de mim. Se ainda der tempo, vou tentar melhorar.

E, enquanto isso, apesar do meu peso, vou tratar de pisar de leve na terra.

(por Arlete Dialetachi - professora, tradutora e, sobretudo, minha amiga)


::: by meraluz at 04:14 PM


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março 5, 2011

Baile de Máscaras

harlequimcolombina_degas.jpg
Arlequim e Colombina - Edgar Degas - 1886

Crônica de Rosiska Darcy de Oliveira, publicada no jornal O GLOBO, em 05/03/2011, p. 6

E já que é Carnaval, é tempo de escolher máscaras. Oscar Wilde dizia que a máscara escolhida diz mais sobre alguém que qualquer autobiografia. Percebeu que as autobiografias não são mais que uma sucessão de máscaras que ilustram nossos muitos carnavais.

As máscaras seduzem pelo mistério que desafia a imaginação. Milenares, por quanto tempo ainda sobreviverão em tempos de Facebook, onde todos mostram a cara, instalando o reino banal e uma suposta e duvidosa transparência, que tudo revela em tempo real? Se não aproxima, pelo menos embaralha gente que não se conhece e vai tropeçando nos passos uns dos outros.

Não será o Facebook um baile de máscaras invisíveis? Paradoxal, esse mundo novíssimo e intrigante, instrumento de revoluções libertárias e de enolouquecimento dos ditadores, convive com velhíssimos sentimentos: Pierrôs inconfessos perseguem, na rede, esquivas Colombinas.

A máscara de Colombina que buscava encontrar sua calma dando a Arlequim o seu corpo e a Pierrô sua alma caiu no ostracismo. Quem hoje assumiria o papel do apaixonado, que vivia só cantando e, por causa de uma Colombina, acabou chorando? Ninguém.

O paradigma amoroso em tempos de Facebook é o Arlequim, seus losangos coloridos que evocam a astúcia de ser múltiplo, sua identidade flex, seu caráter inconstante e enganador, sumindo e reaparecendo onde menos se espera. Sem compromisso ou permanência, regido pelo instante, o mundo virtual tem uma natureza arlequinal. Faltam-lhe, entretanto, a elegância e a galanteria, gestos do Arlequim que foram ficando pelo caminho como confete pisoteado.

A trama virtual inscreve suas leis nas relações de carne e osso. O meio é a mensagem. Me beija que eu não sou Pierrô. Amores deletáveis.

Na concreção das ruas os foliões também descartaram os emblemáticos heróis da Commedia dell'Arte. A máscara feminina mais vendida esse ano foi a de Dilma Roussef. Ex-Colombinas transformadas em presidentes da República formam um insólito bloco, herdeiro das ruidosas passeatas feminista que, trinta anos atrás, instalaram um inesperado carnaval na ordem amorosa. De lá para cá, o bloco esquentou. Haverá folia em Brasília já que, neste ano, o Dia Internacional da Mulher cai na terça-feira gorda. Fantasias, no sentido do desejo, nessa época, sempre foram de praxe. Na Quarta-Feira de CInzas volta às ruas, como sempre, o bloco "Quem sustenta a casa sou eu".

Esse vem sempre no fim do desfile, sem esplendores nem adereços, envergando uma camiseta modesta e o indefectível blue jeans. Empurra o carro alegórico do País Emergente que Chegou Lá, faz uma força sobre-humana e, no entanto, ninguém aplaude. A concentração é nas filas dos ônibus, nas estações do metrô, na porta das fábricas e escritórios. Tornou-se imenso, incorporou uma importante ala da classe média e vai desfilar ao longo de todo o mandato da presidente, entoando o refrão do "Abre alas que eu quero passar".

Em todo o Brasil haverá máscaras de Dilma olhando para Dilma. Pode ser o sonho da popularidade ou o pesadelo de esbarrar em todo canto com o próprio rosto, em outro corpo, metáfora de milhões de vidas que, para bem governar, terá que assumir como suas. Entrar na pele das mulhers brasileiras assim como elas assumem o seu rosto. Nesse pesadelo não há porta de saída, é um eterno confrontar-se a si mesma, um olhar de mil olhos que nunca adormecem.

No teatro grego, as máscaras não eram apenas disfarces, eram caixas de ressonância para melhor fazer ouvir os sentimentos, tragédia ou comédia. As modestas máscaras de papel, que o mulherio pobre compra nos camelôs, não têm ressonância nenhuma, mas dizem alguma coisa que, até hoje, ninguém ouviu e caiu no vazio. Agora, elas esperam da presidente o papel de porta-estandarte.

O enredo que Dilma anuncia desde que envergou a faixa verde e amarela é o da erradicação da miséria extrema. Essa tem o rosto de uma mulher negra que leva pela mão seus muitos filhos. As pesquisas e estatísticas são taxativas. É o bloco do "Lata d'água na cabeça", das que sobem o morro e não se cansam e pela mão levam a criança.

"Lata d'água" foi a marchinha campeã de 1952, cantada por Marlene, então Rainha do Carnaval. Contava a história de Maria, que subia o morro lutando pelo pão de cada dia, sonhando com a vida do asfalto que acaba onde o morro principia. É ela que, há quase sessenta anos, povoa as estatísticas da miséria extrema. Ou a presidente tira o atraso e dissolve esse bloco, ou perde o passo e deixa cair o estandarte.

____________________

Felizes dias momescos a foliões e não foliões!


::: by meraluz at 11:28 AM


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fevereiro 1, 2011

Vivendo e aprendendo a jogar

Há quem diga que o jogo (ou seja, as farsas) no relacionamento humano - e, mais particularmente, no relacionamento afetivo - é uma prática mal-intencionada. Eu não diria tanto. Há momentos em que o jogo se faz necessário, para que se atinja um objetivo importante, onde a transparência não obteve êxito. Bonito mesmo não é, mas vejo-o como um passo atrás para dar dois à frente.

Nunca me orgulhei de ter lançado mão de joguinhos artificiais para chegar onde pretendi. E só fiz uso deles como uma última opção para preservar a mim mesma ou certos sentimentos que me são caros. Também não considero proeza alguma dizer que esses jogos funcionaram. A psicologia humana, de um modo geral, é bastante previsível, e é para ela que as táticas se voltam. Não fosse essa tal psicologia humana tão contraditória, frágil e conturbada, os jogos afetivos não seriam necessários.

Ocorre que, na maioria das vezes, a transparência pode se voltar contra nós, tornando-dos vulneráveis, presas fáceis nas mãos daqueles que conhecem bem a dinâmica das manipulações. De fato, a transparência é o estado ideal de seres e coisas (que o diga Julian Assange), mas é preciso saber quando, como e com quem usá-la, para não sair ferido das relações interpessoais. Quem sabe num futuro mais evoluído, de seres mais amadurecidos, ela, a transparência, consiga progressos maiores?

Sinto uma profunda ternura pelos 'transparentes', por aqueles que vivem com o coração escancarado e mal sabem esconder uma fraqueza, uma emoção ou um defeito. Talvez até por já ter sido assim em outros tempos, onde tudo era mais leve por ser menos racional. Mas, em compensação, quantos sofrimentos viriam depois, quantas quebradas de cara, pisadas de bola, lesões ao amor-próprio? Inevitável foi, a partir de então, conhecer as regras do jogo e os movimentos comuns das peças humanas.

Com isso, quero dizer apenas que "jogar" pode não ser tão censurável quanto parece. Desde que se jogue limpo, sem prejuízo de terceiros, e que não se permaneça no jogo. Permanecer nele é pouco inteligente, porque aí nunca teremos uma relação verdadeira ou confiável. Porque teremos que inventar e reinventar sucessivos artifícios para garantir o continuismo da relação. Porque não teremos o alívio e a liberdade de ser o que somos, e isso cansa, exaure, encarcera. Seremos prisioneiros das nossas próprias farsas e retóricas. Assim, uma vez atingido o objetivo principal, o melhor a fazer é nos livrarmos daquele joguinho básico que fizemos para criar a situação favorável e pontual de que precisávamos.


::: by meraluz at 02:20 PM


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janeiro 20, 2011

Rio de Janeiro - Verão 2011

saosebastiaoRJ.jpg

Era para ser tempos alegres, em cenários ensolarados onde todos os poderes fossem conferidos ao prazer e à luz. Mas quis a natureza, por um capricho qualquer, que as tragédias se abatessem sobre nossas exuberantes montanhas. E o verão chorou. Há mais de 20 mil desabrigados, há famílias chorando seus mortos, há crianças órfãs e devastações externas e internas. Uma enchente de feridas, algumas das quais não cicatrizáveis.

Em meio a essa dor coletiva, uma pequena luz aponta a esperança de dias melhores: o profundo e espontâneo sentimento de solidariedade que brotou no coração dos homens. Seria um indício de que a humanidade começa a evoluir espiritualmente? Um basta ao materialismo imperante, que desqualifica os valores fundamentais da vida? Um sopro de amor ao próximo que se espalhou por todos os cantos e recantos do nosso Brasil brasileiro? Um destruir para reconstruir? Não sei. Só sei que é a única parte boa dessa história.

O calor causticante de hoje cozinha até pensamentos.

Salve São Sebastião do Rio de Janeiro! - padroeiro desta cidade cheia de inferno e céu, onde a beleza e a alegria convivem com uma série de caos intermitentes, pagando seu preço.

Inesquecível será este verão. Desta vez não pelos felizes acontecimentos ensolarados, mas por um triste episódio de dores e perdas, que vitimou parte de nossa gente e se inscreveu na história de uma cidade que nasceu com a vocação de sorrir.


::: by meraluz at 12:49 PM


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novembro 8, 2010

Quem disse que o mundo acabou?

Quem disse que o mundo acabou? Não, não acabou. Se acabasse, seria o repouso dos guerreiros, o fim dos dilemas. Mas a vida continua, com suas guerras e festas. Portanto, se há alguém aí caidinho por algo que não deu certo, algo que se perdeu ou por algum conflito interno imobilizante, sugiro que reúna as forças que ainda restam (sempre restam algumas) e continue o caminho. Se não der para escolher o caminho, neste momento, tudo bem. Importa é caminhar. Sempre se chega a algum lugar. E sempre se aprende no trajeto.

Muito da infelicidade reside no fato de voltarmos nossos olhos para aquilo que não conseguimos alcançar, tocar. Olhamos para pontos longínquos e nos esquecemos do que foi conquistado até aqui, do que temos ao nosso redor. E então reclamamos e nos frustramos porque sempre falta algo em nossas vidas. E sempre há de faltar - bendita incompletude que nos movimenta.

A questão é: onde colocar a felicidade (ou a infelicidade)? Fora ou dentro de nós? Colocá-la em terceiros, em fatores externos, é um grande desperdício, que raramente dá certo. Melhor tentarmos encontrá-la dentro de nós e gerarmos, a partir desse encontro, um movimento centrífugo, que emana luz e intensidade, o que irá fazer com que nunca passemos despercebidos.

E caso não seja possível encontrar essa tal felicidade, ligue não, porque, no fundo, no fundo, essa ideia de felicidade suprema é um tanto ficcional. Felicidade é uma hipérbole. Mas podemos chegar a um estado bem similar, parecido com ela, que se dá quando atingimos a paz interior com eventuais e simples alegrias de viver. Tão simples que muitas vezes só se fazem notar quando as perdemos.

Vamos, então! Vamos vivendo. Há tanto por fazer, há tanto por descobrir. Há sempre uma surpresa à nossa espera na próxima esquina. Lá onde o olhar ainda não alcança.


::: by meraluz at 10:50 PM


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outubro 17, 2010

Defeitos, efeitos, virtudes e vicissitudes

Chega-se a um ponto na vida em que a preocupação em ocultar nossos defeitos desaparece. É quando já não precisamos da aprovação do mundo, é quando estar próximo à verdade torna-se uma situação muito mais confortável do que se apertar entre personagens e figurinos que não são seus. A princípio tentamos até, com muito esforço, aparentar aquilo que esperam de nós. E esperam sempre a perfeição, não nos iludamos. Defeitos e virtudes são componentes de um mesmo núcleo existencial. E oscilam conforme as vicissitudes.

Pra que esconder nossos defeitos com efeitos especiais que terminam logo ali? Perda de tempo. Melhor que conheçam logo nossas avarias e saibam o que esperar de nós. Se não gostam, paciência. Não gostar é um direito de todos. Deixemos as perfeições para o mundo das fantasias e não para este mundo real, inóspito, que de perfeito nada tem.

O melhor que podemos dar ao outro é o diamante bruto da nossa verdade. Sem rodeios, sem maquiagem, sem artifícios. É carne, é osso, suor e lágrimas. É feio, é bonito. É quente, frio, morno. É a vida e as mudanças que opera em nós.


::: by meraluz at 06:13 PM


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setembro 11, 2010

O medo do apego e o apego do medo

Não é de se estranhar o medo do apego em quem já se esborrachou mil vezes pelos trilhos da vida e do tempo. Mas como é difícil não se apegar ou impedir que a nós se apeguem! Pelo menos nas formas superlativas. Como é difícil fingir que ignoramos o olhar suplicante dos carentes de afeto; erigir um muro que impeça a ultrapassagem ao nosso universo mais íntimo e vulnerável; medir o tamanho de um abraço e a temperatura das palavras. Há que se pisar em ovos. Porém, fato é que quem assim se manifesta geralmente tem lá suas razões. Dentre elas, a de não querer abrir caminhos para uma possível dependência emocional - do outro e, por vezes, de si mesmo. Quem opta pelos desapegos, decerto muito já se apegou. E entendeu que de grandes apegos podem vir grandes dores mais adiante. Entendeu que laços, de início suaves, podem se transformar em nós inextricáveis, dissolúveis apenas ao corte brusco da lâmina fria e asséptica da razão. E esse "desapegado", portanto, não haverá de querer que o outro passe a morar em seu universo para ter que sofrer depois, quando descobrir que o melhor é habitar a si próprio, acima de tudo, ainda que numa construção precária. Apego, em princípio, é coisa boa e natural; o problema é que, com o tempo, esse sentimento - que nem sempre tem a ver com amor ou amizade em estado genuíno - tende a convergir para os exageros, e isso não é bom. E não é mais forte ou mais frio aquele que tenta evitá-lo. Muitas vezes o medo do apego carrega o apego do medo à realidade de quem muito sofreu. Medo de perder novamente a si próprio. Medo de ver ou outro se perder em quem, depois de múltiplos açoites, conseguiu se encontrar.


::: by meraluz at 06:41 PM


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julho 24, 2010

A paixão segundo a voz de Nana

Mergulho no bolero que e(s)coa pela voz de Nana Caymmi. Bolero na voz de Nana implica sérios riscos de suicídio para quem está sofrendo de mal de amor. Não é o meu caso. Mas gostaria que fosse. Queria que esta canção me levasse aos estertores, me roubasse lágrimas, me devastasse. Mas não... Desprovida hoje de qualquer estado de paixão, apenas ouço uma bela canção na voz rouca de uma louca que canta o amor a partir de suas vísceras.

E ela fere o ar com sua voz de veludo:

Eu quero amar demais
Sem poupar coração
Que pra mim o amor que apraz
É uma louca paixão
Um amor só satisfaz
Além da razão.

(ouça abaixo)

E eu lamento por não estar amando. Por não sentir aquelas dores lancinantes, já conhecidas e repetidamente vividas, que maltratam mas fazem o coração pulsar, vir à boca para berrar que estamos vivos. Ah, se eu pudesse voltar a sentir essas ondas alucinógenas de paixão por alguns minutos apenas, ainda que fosse pelo tempo que durasse esta canção...

Mas eu não posso. É impossível sentir essas coisas só por um tempinho, na forma da amostra-grátis. E a longo prazo não quero mais. Lacrei-me ao acorde derradeiro da última paixão vivida. Curei-me de toda e qualquer insensatez que ela produziu. Agora estou tão leve que quase posso voar... Mas estou leve porque estou vazia. Não é bom nem ruim. É como escolhi que fosse.

Poderia me apaixonar novamente? Sim, desde que eu quisesse. Desde que eu me abrisse novamente aos riscos. Mas daria tanto trabalho, esgotaria tantas forças, dilataria tantas veias, que é melhor a serenidade de estar no mundo sem os descompassos dos exageros. Pelo menos fica a certeza de que meu coração não mais será ferido de morte. Melhor ouvir o bolero entendendo que é apenas um bolero, e logo para de tocar.


::: by meraluz at 09:06 PM


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maio 7, 2010

Trilhos & Letras

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Infelizmente, não pude comparecer ao lançamento desta belíssima Antologia, da qual tenho muito orgulho de participar. Mas chegaram-me hoje, pelo correio, o Certificado de Participação e um exemplar. Fiquei emocionada. É uma obra belíssima, que reúne esplendorosos trabalhos, em prosa, verso e música, de vários autores, muitos deles consagrados. Sem apelação nenhuma, digo que vale a pena ter esse livro em sua estante.

Trilhos & Letras ainda não está à venda nas livrarias, mas pode ser encomendado nos seguintes lugares:

EDITORA PANDION (sem custo de frete):

Eliana Queiroz - elianaqueiroz@editorapandion.com.br ou
editorapandion@editorapandion.com.br

tel.: (48) 9982-9061


PONTO DE CULTURA DA ESTACAO BARAO DE MAUÁ RJ:

SESEF / Ponto de Cultura Barão de Mauá
Estação Barão de Mauá / Leopoldina
Av. Francisco Bicalho, s/ nº - 4º andar
Funcionário: SYRIO
Tel. (21) 3232-9515 (08 às 16 horas)
Fax: (21) 3232-9509
E.mail: schwnico@bol.com.br

Cada exemplar custa R$ 25,00. A renda apurada será revertida em benefício do Movimento de Preservação Ferroviária, que faz um belo trabalho na luta pela preservação de nossa malha ferroviária e da memória do trem no Brasil. Viva o trem!



::: by meraluz at 07:13 PM


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abril 10, 2010

Convite - Lançamento "Trilhos & Letras"

Mas eu estou ficando muito chique, não? ;) Participo desta coletânea com meu poema "Trilhos de Luz". Agradeço ao meu grande amigo Victor Ferreira pela oportunidade. Vejam quanta gente boa nessa Antologia! Em breve nas livrarias.

lancamento.jpg


::: by meraluz at 06:43 PM


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fevereiro 17, 2010

Desperdício

Por que levamos anos para conhecer uma pessoa e, quando achamos que finalmente já a conhecemos, chega um vento, um fato, um dado novo, e nos mostra que o que conhecemos não passou de uma farsa mal-acabada? Isso,sim, é o que eu chamo de desperdício de tempo e de boas intenções...


::: by meraluz at 10:32 AM


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fevereiro 10, 2010

'Lixeiratura'

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Por que as histórias terminam? Para que outras se iniciem. E tudo é história, até a ausência de histórias. Algumas são marcantes, outras marcadas. Algumas são banais, outras legais. Algumas são extensas, outras intensas. Algumas inesquecíveis, outras impossíveis. Algumas são doidas, outras são doídas. Tudo é história. Que importa se a próxima será melhor ou pior? Memorável ou medíocre? Que importa o final? Importa é ir virando as páginas e se fazer contar, ainda que lancemos a vida numa grande "lixeiratura".








::: by meraluz at 01:05 AM


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fevereiro 7, 2010

A dor de não despencar

E então, quando menos se espera, a gente leva um golpe. Até aí nada de inusitado. Golpes acontecem a todo instante, a diferença está em como cada um lida com eles. Então eu pergunto: de quem é a dor maior? De quem se descabela, se desorienta, se fragiliza, veste o papel de vítima, inspira culpa, cuidados e piedade? Ou de quem segura a onda; daquele que, como uma árvore, morre de pé, que reza sua dor em silêncio, que briga com todas as tensões e encara o rosto feio das mágoas para, num esforço sobre-humano, tentar seguir em frente sem fazer alardes, sem insistências vãs, sem se tornar um peso pra quem quer que seja? Fica no ar a questão. O sibilante choro dos 'ingênuos' ou a discreta contenção dos 'fortes'? Seria o frágil tão frágil e o forte tão forte? Muitas vezes, é justamente o inverso, e é preciso relativizar.

Já estive nos dois lados. No começo dessa longa estrada, fiz barulho, gritei, chorei e apelei, inconformada. E, enquanto duelava comigo e com o mundo, achando que não suportaria golpes e perdas, a dor ia se dissipando, sem que eu percebesse, até sumir por completo. Passado algum tempo, já nem me lembraria mais das tão dramáticas contusões. Era muito fácil passar para uma próxima etapa, até por causa das hemorragias. Ainda havia uma sucessão de golpes pela frente. Mas, ao longo dessa corrente de desassossegos, passei a achar feio as reações intempestivas, primárias e estridentes. Ainda que eu conseguisse lucrar algo com elas, nada acontecia pelo que eu era, pelo fluxo natural da vida, mas pela pressão, pelo pieguismo, pelo cansaço, e muitas vezes pelo desconforto que eu, intencionalmente, causava no outro.

Então passei para o outro lado, 'precisei ser forte'. Não desmontar, não despencar, não desarrumar os cabelos, não borrar a maquiagem, não me esquecer das outras peças da engrenagem, por mais lacerante que fosse uma situação. Não que os 'fracos' confessos sejam seres desprezíveis, mas é que a vida não os perdoa, e, no fundo, nem eles mesmos. Fraquezas todos temos, ou não seríamos humanos. Mas a vida não gosta da sua cara (da fraqueza), tampouco a respeita. E aos que não querem pagar o preço de expor suas fraquezas não resta outra escolha senão se armar de uma pseudofortaleza. E aí, além de sofrerem as dores lancinantes de golpes, perdas ou danos, ainda carregarão o peso dessa consciência. E como dói não poder despencar! Como dói ter de prosseguir nas frias trilhas dessa relativa e aparente lucidez. Como dói não berrar a nossa dor, neutralizar nossos espasmos, sofrer para dentro.

As pessoas olharão para esses 'frágeis às avessas' e dirão: "Eles sabem se virar, são bem resolvidos!". E muito pouco lhes darão, por acharem que não é necessário. Mais ocupadas com os carentes de plantão que as sugam, são incapazes de imaginar como é pungente, naqueles que 'sabem se virar', a dor de não despencar. Estão longe de perceber que, para que isso acontecesse, foi preciso que esses patéticos 'equilibristas', que trazem na alma um quê quase chapliniano, fizessem morrer dentro deles um pedaço da própria vida. Um pedaço que morreu de pé, sem despencar.


::: by meraluz at 12:00 AM


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fevereiro 3, 2010

A história de Maria Vitória

Agora que passara dos 30, Maria Vitória cismou de querer casar. Queria ter filhos, constituir família, de preferência com um parceiro que fosse homem de bem e lhe pudesse oferecer padrão de vida estável. Queria se casar. Já estava cansada de aventuras, de amores efêmeros, de viver o imprevisível. Com o tempo, sua meta transformou-se em obsessão. Procurava marido em qualquer canto; nas ruas, nas festas, em velórios e casórios. Nas noitadas não, porque homens disponíveis em casas noturnas eram... noturnos. Ou seja, não passavam mesmo de uma noite; uma noite lasciva - regada a champagne ou cerveja, dependendo do nível. Voltou-se ela, portanto, para este fim: casar e levar uma vida certinha. Frequentava cursos e inventava atividades em cujo ambiente pudesse estar aquele que viria a realizar o seu sonho maior. Queria tudo nos moldes tradicionais: casar na igreja, vestida de branco, jogar o buquê, posar para fotos cruzando tacinhas de cristal... Enfim, tudo a que tinha direito.

Porém, apesar de envidar todos os seus esforços nessa busca alucinada, o noivo nunca aparecia. O tempo passava e o máximo que conseguia era uma série de promessas baratas, com posterior saída à francesa. Quando o sujeito desconfiava da real intenção de Maria Vitória, dava logo um jeito de inventar viagens, problemas, doenças ou qualquer outro tipo de pretexto para pular fora do barco que o levaria à 'forca'. Mas Maria Vitória não desistia, queria porque queria casar. Àquela altura já era uma questão de honra. Não iria morrer solteirona. Começou a ficar deprimida, recolhida. Esquivou-se dos amigos, deixou de lado tudo o que a fazia sorrir ou deleitar-se, de alguma forma. Desorientada, entrou para a Igreja Universal do Reino de Deus. Lá certamente haveria de encontrar um marido. E finalmente, em nome de Jesus, encontrou. Aleluia, irmãos! Ezequiel era seu nome, um pequeno comerciante, de pouca cultura, mas trabalhador, honesto e... fanático. (clique aqui para continuar a história de Maria Vitória)


::: by meraluz at 02:08 AM


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janeiro 27, 2010

Não ficar no problema, porém sem dele fugir.

Optar por não ficar no problema não significa dele fugir. Fugir do problema é quando se desconversa, quando não se enfrenta as verdades, quando não se encara os fatos, quando se mascara uma realidade. A fuga é um movimento fácil. E é o que a maioria faz para evitar desconfortos imediatos. Há sempre uma porta que foi esquecida aberta ou passagens subterrâneas que levam à ilusão de um outro lugar.

Já escolher não ficar no problema exige muito mais de nossas forças e de nossa compreensão. Neste caso, a gente enxerga tudo, constata o obstáculo e sai sem fugir, espreitado pelo olhar vigilante da consciência. Sai porque entende que permanecer no que foi percebido como problema é o caminho mais fácil para se perder e se ralar. A fuga, mais cedo ou mais tarde, será sempre surpreendida pela própria vida que vem nos cobrar. Mas a opção consciente de não ficar é quase um ato de heroísmo, é uma escolha dolorosa para evitar dores maiores.

Um problema é sempre um problema, desde o momento de seu diagnóstico. E insistir nele é uma teimosia improfícua. A melhor solução é, a meu ver, tentar eliminá-lo, sobretudo se o impasse não se resolve e torna a se repetir e repetir. Porém, sem fugir... Assumindo todos os ônus e riscos, sentindo as dores de todas as lesões que essa escolha ocasiona.

Mas, afinal, o que é um problema, aqui neste contexto? - alguém poderá indagar. Um problema é tudo aquilo que suprime o bem-estar, que gera tensão, desassossegos ou inseguranças, eu diria. E quem gosta e consegue conviver com isso a longo prazo pode estar a um passo da insensatez. Eu não, eu não...

Fugir não fujo, mas escolho não ficar.


::: by meraluz at 10:54 PM


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janeiro 24, 2010

Poema sem poema

Eu queria fazer um poema
Sem regras, sem temas...
Mas como fazê-lo
Se de mim levaram a poesia?
Como fazê-lo
Com a palavra crua e fria?

Por isso, e só por isso, peço:
Devolvam-me a poesia,
O meu olhar de crença,
O sentido dos meus dias,
As veias da existência.

Do contrário,
Como fazer um poema?
Como fazer um poema
De mãos vazias?
Sem idas, sem vindas,
Sem voltas, sem revoltas?

Devolvam meus suspiros,
Meus ais, meus trilhos,
Para que eu possa, enfim,
Reencontrar os versos
Que pertencem a mim.


::: by meraluz at 03:14 PM


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janeiro 20, 2010

Existe 'caso mal resolvido'?

Já acreditei nessa história de 'casos mal resolvidos'. Mas, com o tempo (e com a psicanálise, claro), compreendi que eles não existem. Os protagonistas desses 'casos' é que ficam bem ou mal resolvidos. Há quem pense que para resolver uma história que não terminou do jeito desejado é preciso esgotar todas as palavras ou mergulhar até o mais profundo talvegue de um rio de emoções desencontradas. É um ponto de vista, mas não o meu. Se alguém me diz: "Tal relação ficou mal resolvida", limito-me a comentar: "Então pronto! Ficou resolvida como 'mal resolvida.'" Isso porque muitas soluções são mais facilmente encontradas dentro - e não fora - de nós. A conversa que temos realmente de ter é com os nossos próprios botões, e a partir dos fatos disponíveis. Uma sequência de fatos e de comportamentos é eloquente o bastante para fornecer o diagnóstico (e o prognóstico) de qualquer relacionamento.

Além disso, se pensarmos bem, nenhum final é feliz, ideal, satisfatório. Sair de uma relação com as palavras certas, dissecando o adeus em minúcias, numa interminável e desgastante sessão de perguntas e respostas, também pode ser doloroso. E, ainda por cima, não é garantia de que os sentimentos não se tornarão recorrentes. Talvez o mais indolor dos finais seja aquele em que o sentimento se dissolve durante a própria relação. Assim, sem a força desse sentimento, que morreu sem ser percebido, todo o resto se transforma em desimportâncias, e o ponto final acontece quase que naturalmente, sem traumas, nem expectativas, nem recalcitrâncias. Mas nem sempre é assim.

Em conversa com amigos, sempre vem à tona esse papo de "casos mal resolvidos". Quase todo mundo tem um pra contar. Ouço-os se queixarem, com frequência, de que, em suas frustradas relações, "ficou algo por dizer", "ficou algo por entender", e que "é preciso um último diálogo" para virar a página definitivamente (se é que o definitivo é mesmo definitivo). Mas será que a vida útil do romance não foi feita para acabar justamente naquela página? Nem todas as histórias são brindadas com finais felizes e esclarecedores, o que, em hipótese alguma, é motivo para menosprezar a sua importância. E depender da outra parte para determinar cada final de caso, à nossa conveniência, admitamos, é bastante trabalhoso.

Também não é incomum ver pessoas acorrentadas a impasses de seu passado, ao longo de anos, até mesmo décadas. Neste caso, nem o tempo, que sempre ajuda a pulverizar dores, mágoas e culpas, conseguiu ser um bom remédio. E aí a coisa pode acabar assumindo níveis patológicos. É preciso tomar cuidado. Não há nada pior do que se tornar um prisioneiro, principalmente do passado, que é tão estático quanto as velhas fotografias que o representam sem nada poder fazer.

Não estou aqui a subestimar a dor de ninguém. Sei que lidar com sentimentos não coisa é fácil, sobretudo com sentimentos que um dia foram feridos. Mas penso que, se sedimentarmos o eixo de nossa órbita em nós mesmos, e não no outro, tudo ficará mais claro. Por exemplo, um sintoma de saudade não precisa ser torturante, nem condicionado ao personagem que a ela deu origem. A saudade é nossa e só nossa; permitamo-nos senti-la, sem resistências, por alguns momentos, e pronto! Depois ela se vai, ainda que venha nos revisitar mais adiante. Não temos necessariamente que agir ou criar expectativas por causa de súbitas nostalgias; isso gera tensão. Certamente, com a sucessão de novas experiências e urgências, certas lembranças tendem a se tornar cada vez mais raras. Se uma história terminou era porque assim tinha de ser. E que importa se ela pode ou não retornar amanhã? Amanhã é amanhã, e viver é uma urgência. Tudo faz parte dessa louca aventura de existir: o bem, o mal, o prazer, a dor, os erros, os acertos, as dúvidas, as certezas, tudo... E nada permanece no lugar o tempo todo. Só nós, que moramos dentro de nós... Vivamos, pois, a partir de nossa única e inevitável existência.


::: by meraluz at 01:26 PM


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janeiro 11, 2010

Os doces estertores dos 20 anos

Quando eu era jovem (mais jovem ;) ) e comecei a descobrir o fascinante mundo das ideias, tudo parecia possível, tangível, instigante, desafiador. É próprio da juventude as paixões levadas ao extremo. É próprio da juventude levantar bandeiras, mergulhar visceralmente em ideais grandiosos, querer arrumar o mundo. E eu não fugi à regra. No passado, junto com meus jovens companheiros de ideais, também queria mudar o mundo. Nosso templo era o Diretório Acadêmico, nossos gurus os autores de doutrinas radicais e perfeitas no papel (no caso, Marx, Hegels, Trotsky, Sartre, Gide, Nietzsche, Artaud, etc. etc.). Ganhávamos as ruas, fazíamos barulho, clamávamos por justiça, inspirados pelo gigantismo de sonhos que seriam exterminados aos primeiros lampejos da maturidade, e nem desconfiávamos disto. Deve ser uma questão hormonal essa ebulição dos 20 anos, isso da vontade de poder, de ser tomado por fúrias exacerbadas contra instituições e sistemas opressores e decadentes. A juventude quer e precisa lutar! Causas não faltam nunca. Fundos musicais muito menos.

Não que sonhos e paixões feneçam na maturidade, mas nesse estágio eles acontecem, incontestavelmente, de forma mais modesta, mais silenciosa, menos agressiva e menos coletiva. Com o tempo, eu, pelo menos, fui percebendo que as ideias que me insuflavam eram, de certa forma, influenciadas pelos grandes pensadores - em especial, os libertários -, e por isso mesmo não eram exatamente minhas. Com o tempo, compreendi que o mundo não muda fácil; quando muito, passa-se de uma ditadura a outra, de um extremo a outro, de um erro a outro. Com o tempo, compreendi que valores mudam, rebeldia sossega, euforias passam. E, no final das contas, acabamos, muitas vezes, por nos surpreender agindo "como nossos pais".

Sinto uma imensa saudade daquela imperativa (e hiperativa) avidez juvenil, que gritava alto, muito alto... Era um verdadeiro poema. Na verdade, ela não morreu, porque tornou-se parte integrante da minha história e responsável pelo resultado que hoje sou. Mas os ventos nos atiram à maturidade, ainda que à revelia. E isso não chega a ser um caos. A maior vantagem da maturidade é que nela podemos ser crianças, jovens ou maduros, conforme as circunstâncias, só que com o discernimento de saber usar esses estados de ser na hora apropriada. E a maior desvantagem é não termos mais tanto tempo para errar, tombar e recomeçar. Daí porque a voz da razão, muitas vezes, precisa calar a voz das paixões na marra.


::: by meraluz at 04:50 PM


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janeiro 9, 2010

O exorcismo pelas palavras

calvinwriting.jpg

Por que escrevo? Ao contrário do que sugerem as tirinhas do Calvin aí em cima, que ironizam a prolixidade vazia do eruditismo teórico-existencialista :), escrevo para me libertar de mim, para equacionar melhor os meus dilemas, trilemas, quadrilemas, etc. Ou para entender mais claramente o compasso da humanidade, para dar forma ao que, de tão abstrato, incomoda. Escrevo para me exorcizar. Poderia compor uma canção, se tivesse talento musical; mas não é o caso. Poderia pagar um analista, o efeito seria quase o mesmo. Mas, depois de anos e anos de terapia, e de conhecer o processo de cor e salteado, seria uma alternativa pouco excitante para mim, que tenho necessidade de criar. (Parêntesis: devo assinalar aqui que recomendo sempre uma boa psicoterapia para que os mortais se percam menos de si próprios. A mim fez-me um enorme bem.) Assim, já que gozo de alguma intimidade com as palavras e não tenho problemas com a autoexpressão, prefiro escrever.

Meus textos não são necessariamente as minhas verdades e, em absoluto, têm a pretensão de se tornar universais ou imperativos. Até porque a palavra sempre muda conforme o olhar e o momento vivido. Muitas vezes transformo em verbos o que gostaria de ser ou deles faço uso para tentar explicar certos estados de confusão. Da mesma forma, o que escrevo hoje pode vir a ser o que virei a criticar amanhã. Seja como for, a palavra (principalmente a escrita) muitas vezes me serve como bom sistema de drenagem. Precisamos purgar, fazer emergir, ejetar o que se acumula dentro de nós. O ser humano privado de expressão perde o sentido.

Alegro-me, portanto, quando alguns textos que aqui expurgo me ajudam a oxigenar o pensamento. E não são raras as vezes em que acabo influenciada pelas minhas próprias palavras. Pode parecer um paradoxo que a autora influencie a si própria. Mas não penso como Mário Quintana, quando diz: "Nunca me releio... Tenho um medo enorme de me influenciar. É verdadeiramente catastrófico quando um autor se transforma no seu discípulo." Ao contrário do poeta, eu sempre me releio. Gosto de acompanhar as variações, as mudanças, as nuances da minha existência semântica. E não tenho medo de influenciar a mim mesma, se a influência for boa.

Para mim, escrever é uma hemorragia salvadora. Acho que todos deveriam tentar, de alguma forma. Danem-se os erros de português, as sintaxes e as regências indevidas. Isso é detalhe. O que importa é se libertar do peso das ideias que efervescem e expeli-las ao léu, do jeito possível. Fica tudo tão mais leve depois da expulsão dos verbos que deixaram de acontecer ou que aconteceram de modo errado...


::: by meraluz at 03:09 PM


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- continua -